Fórum Educação
26 de fevereiro de 2020, 17h19

Berlinale de verde e amarelo… e vermelho?, por Filippo Pitanga

Mesmo com 19 filmes no Festival de Berlim, o governo sequer concedeu a tradicional parabenização através de sua Agência Nacional do Cinema, a Ancine, às realizadoras e realizadores selecionados este ano

Kleber Mendonça Filho em coletiva na Berlinale (Reprodução)

Por Filippo Pitanga*

2020 começou bastante potente para o cinema brasileiro. Já iniciou com uma participação massiva nos mais renomados festivais internacionais, como 16 filmes no Festival de Rotterdam e um recorde no aniversário dos 70 anos do Festival de Berlim. Com 19 exemplares nas diversas Mostras da Berlinale, de quebra ainda voltamos a entrar na disputa principal com o longa-metragem “Todos os Mortos”, de Caetano Gotardo e Marco Dutra. E temos muitas chances de sair com prêmios novamente, como em anos anteriores, vide os Ursos de Ouro de “Central do Brasil” (1998) e “Tropa de Elite” (2008), sem falar em outras láureas, como o Prêmio Teddy, que levamos em sequência admirável por filmes como “Bixa Travesty” e “Tinta Bruta” (2018) devido ao nosso cinema LGBTQ.

À conta disso, algumas pessoas chegaram a chamar esta edição carinhosamente de “Brasinale”, pois estaria pintada de verde e amarelo… e vermelho?!

Afinal, mesmo com 19 filmes no Festival de Berlim, o governo sequer concedeu a tradicional parabenização através de sua Agência Nacional do Cinema, a Ancine, às realizadoras e realizadores selecionados este ano. Na verdade, tratam o cinema brasileiro como vêm tratando qualquer oposição política ou ideológica, como se fosse uma ameaça vermelha. Uma ameaça comunista, ou seja, representada pela bandeira do Partido dos Trabalhadores, cujos governos outrora tanto fomentaram a cultura e o cinema no país. Eles haviam entendido, como qualquer governo ou ideologia mundial, que nenhum povo poderá crescer sem produção cultural própria como delineador de uma fronteira abstrata e subjetiva – vide o entendimento da Constituição Federal em seu Art. 215, Caput e Parágrafo 1º:

“Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. § 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.”

O próprio diretor do Festival de Berlim, Carlo Chatrian, fez pronunciamento oficial, antes da Berlinale principiar, demonstrando preocupação pelo cinema brasileiro perante a atual crise e perseguição do governo à cultura, confirmando que esta foi uma das razões de o Brasil estar tão presente nesta edição. É uma declaração política de apoio e reconhecimento ao nosso crescimento recente, que já reverbera influências no mundo.

Da mesma forma, o cineasta Kleber Mendonça Filho (“Bacurau”), convidado como jurado este ano, reiterou tal pronunciamento de Chatrian. E aproveitou para denunciar a “sabotagem” que está acontecendo no Brasil logo na primeira coletiva de imprensa reunindo o Júri, que este ano é presidido pelo ator Jeremy Irons.

E esta preocupação virou grito de guerra de inúmeros outros nomes presentes no Festival a representar o cinema brasileiro, como as cineastas indígenas Mbyá-Guarani Patrícia Ferreira e Graci Guarani, o cineasta cearense Karim Ainouz, a ativista e atriz Preta Ferreira e a produtora Sara Silveira, que, na coletiva do filme “Todos os Mortos”, bradou numa declaração emocionada: “Iremos Resistir! Iremos Vencer!”

Confira abaixo a lista completa de filmes brasileiros presentes na Berlinale:

Longas de produção majoritariamente brasileira:

– ALICE JUNIOR, direção de Gil Baroni, produção da Beija Flor Filmes (mostra Generation)

– CIDADE PÁSSARO, direção de Matias Mariani, produção da Primo Filmes, coprodução com França (mostra Panorama)

– IRMÃ, direção de Luciana Mazeto e Vinicius Lopes, produção da Pátio Vazio (mostra Generation)

– LUZ NOS TRÓPICOS, direção de Paula Gaitán, produção da Aruac e Pique-Bandeira (mostra Forum)

– MEU NOME É BAGDÁ, direção de Caru Alves de Souza, produção da Manjericão Filmes (mostra Generation)

– O REFLEXO DO LAGO, direção de Fernando Segtowick, produção da Marahu Filmes (mostra Panorama)

– TODOS OS MORTOS, direção de Caetano Gotardo e Marco Dutra, produção de Dezenove Som e Imagens e da Good Fortune Films. (Competição Principal pelo Urso de Ouro)

– VENTO SECO, direção de Daniel Nolasco, produção da Panaceia Filmes (mostra Panorama)

– VIL, MÁ, direção de Gustavo Vinagre, produção da Carneiro Verde e Avoa Filmes (mostra Forum)

Curtas / Médias:

– (OUTROS) FUNDAMENTOS, direção de Aline Motta (mostra Forum Expanded)

– APIYEMIYEKI?, direção de Ana Vaz em coprodução com França, Holanda e Portugal (mostra Forum Expanded)

– JOGOS DIRIGIDOS, direção de Jonathas de Andrade (mostra Forum Expanded)

– LETTER FROM A GUARANI WOMAN IN SEARCH OF HER LAND WITHOUT EVIL, de Patricia Ferreira (mostra Forum Expanded)

– RÃ, direção de Julia Zakia e Ana Flávia Cavalcanti, produção da Gato do Parque (mostra Panorama)

– VAGA CARNE, direção de Grace Passô e Ricardo Alves Jr, produção da Grãos da Imagem (mostra Forum Expanded)

Coproduções minoritárias:

– CHICO VENTANA TAMBIEN QUISIERA TER UN SUBMARINO, direção de Alex Piperno (Uruguai), coprodução brasileira Desvia (mostra Forum)

– LOS CONDUCTOS, direção de Camilo Restrepo (Colômbia), coprodução brasileira If You Hold a Stone (mostra Encounters)

– NARDJES A. direção de Karim Ainouz (Argélia/França) (mostra Panorama)

– UN CRIMEN COMÚN, direção de Francisco Márquez (Argentina), coprodução brasileira Multiverso (mostra Panorama)

Confira as palavras de Kleber Mendonça Filho:

E Sara Silveira:

*Filippo Pitanga é jornalista e advogado, crítico, curador e professor de cinema


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