sexta-feira, 30 out 2020
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Caetano defende Jones Manoel e reforça crítica ao liberalismo

Desde que o músico disse não ser mais um "liberalóide" na TV Globo, "formadores de opinião" liberais fomentaram uma polêmica sobre stalinismo

O cantor e compositor Caetano Veloso criticou nesta quinta-feira (24) a repercussão que teve sua entrevista no programa Conversa com Bial, da TV Globo. O artista afirmou na ocasião que desistiu de suas posições “liberalóides” a partir de vídeos que assistiu do historiador e youtuber Jones Manoel e dos livros que leu do filósofo italiano Domenico Losurdo (1941-2018). Colunistas e formadores de opinião liberais fizeram emergir um debate sobre stalinismo.

“Acho que deveria ficar em silêncio para não aumentar a confusão. Não vejo nenhum neostalinismo em curso. Lina Bardi era stalinista. Me disse isso com ênfase à mesa do jantar em sua casa de vidro. Ela já aos 80. Jones Manoel nunca se disse stalinista”, afirmou o músico em entrevista ao jornalista Marcos Augusto Gonçalves, editor da Ilustríssima, da Folha de S. Paulo. “Melhor divulgar o filme de Renato Terra e Ricardo Calil do que alimentar polêmicas malucas”, completou.

“Li 3 livros de Losurdo: ‘O Marxismo Ocidental’, ‘Hegel e a Liberdade dos Modernos’ e ‘Um Mundo Sem Guerras’. Agora um amigo editor me mandou o livro dele sobre Stálin. Comecei a ler. É grandemente informativo. Ainda estou nos primeiros capítulos, mas não diria que ele seja stalinista”, disse ainda.

Caetano afirmou que não se considera comunista, que se identifica mais com Mangabeira Unger do que com Jones e reforçou a admiração pelo youtuber e por Losurdo. “Losurdo foi do Partido Comunista a vida inteira, eu nunca fui do Partido Comunista. Nunca seria. Mas nunca li de nenhum comunista —nem dos mais sofisticados marxistas ocidentais— nada que respondesse a perguntas que sempre tive diante de questões profundas relativas aos projetos liberal e socialista quanto Losurdo faz”, declarou.

“O essencial para mim é o respeito às liberdades individuais. Mas aprendi agora que essas liberdades reduzem-se, na prática, à liberdade de acumular riqueza. O que vemos há muito tempo é um acorde perfeito menor a respeito da ligação automática da democracia com o liberalismo econômico. Este, apelidado de neoliberalismo, foi ensaiado no Chile de Pinochet e, depois, por Thatcher e Reagan, com uma dominação anglófona do mundo e desregulação do financismo”, disse ainda, reforçando a crítica ao liberalismo.

Desde que a entrevista foi ao ar, no início de setembro, se produziu um debate sobre stalinismo que tangenciou a crítica feita pelo músico ao modelo liberal. O correspondente internacional da Globonews, Guga Chacra, foi um dos primeiros que tentou minimizar as declarações de Caetano tachando Jones como “um stalinista”, sem citá-lo. Seguidores de Jones chegaram a promover uma campanha pela participação do historiador no Roda Viva, desencadeando até mesmo reações apontadas como racistas.

Lucas Rocha
Lucas Rocha
Jornalista da Sucursal do Rio de Janeiro da Fórum.