quarta-feira, 30 set 2020
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Campanha para salvar Constituição de Pinochet usa canção de artista assassinado na ditadura

“El Derecho de Vivir en Paz” (canção que homenageia o líder comunista Ho Chi Minh e a resistência vietnamita) foi composta por Víctor Jara, que teve suas mãos cortadas por torturadores, e depois foi assassinado com 44 tiros

O tema político do momento no Chile é o plebiscito constitucional, que acontecerá no dia 25 de outubro e poderá aprovar o início de um processo constituinte no país, caso a maioria do eleitorado escolha a opção “aprovo” (que o país tenha uma nova carta magna), e não a “rechaço” (porque prefiro a que está vigente, que foi imposta em 1980, pelo ditador Augusto Pinochet).

As campanhas eleitorais para o plebiscito já começaram, e a curiosidade é a campanha pelo “rechaço” utilizar a canção “El Derecho de Vivir en Paz” como símbolo de sua estratégia de enfatizar que “a atual constituição gera estabilidade”.

A música foi composta pelo artista Víctor Jara, e essa apropriação causa dois constrangimentos bem marcantes. O maior deles tem a ver com o fato de que os organizadores da campanha são do partido UDI (União Democrata Independente), conhecido como guardião do legado no ditador Augusto Pinochet, e por isso mesmo defensor da vigência de sua carta magna.

A questão é que Jara foi uma das vítimas mais conhecidas da ditadura pinochetista. Foi preso no dia 11 de setembro de 1973, o mesmo dia do golpe contra Salvador Allende – cujo governo foi apoiado pelo artista desde o começo – e passou os cinco últimos dias de sua vida sendo torturado em um campo de concentração no Estádio Chile, que inclusive se chama, atualmente, Estádio Víctor Jara, para recordar que foi onde ele foi assassinado.

Os militares chilenos foram especialmente cruéis com Jara. Chegaram a cortar as suas mãos e zombar dele gritando para que tocasse sem elas. Finalmente, o assassinaram com 44 tiros.

Outro elemento insólito do uso da canção por parte da campanha para salvar a constituição de Pinochet é que “El Derecho de Vivir en Paz” voltou a ser uma das músicas mais escutadas do Chile em 2019, justamente a partir da revolta social iniciada em outubro.

Foi cantada por milhões de pessoas nas manifestações que pediam justamente o fim da constituição de Pinochet e do seu modelo econômico neoliberal, por um movimento cuja principal conquista até agora é justamente esse plebiscito que abre a possibilidade de criar a primeira assembleia constituinte da história do país – todas as nove cartas magnas chilenas, mesmo as anteriores a atual, foram impostas, nunca deliberadas.

Além disso, também é irônico que um partido como a UDI, de direita conservadora e discurso historicamente anticomunista, utilize uma canção cuja letra homenageia o líder comunista Ho Chi Minh e a resistência vietnamita contra os ataques dos Estados Unidos durante os Anos 60 e 70.

A presidenta do partido UDI, a senadora Jacqueline Van Rysselberghe, justificou que “se trata de uma campanha defendendo a paz e a comunhão inclusive entre os que pensam diferente, então não deveria haver um problema, a não ser que a esquerda queira censurar a campanha”.

Também insistiu com o slogan de que “a atual constituição traz estabilidade”, afirmando que “recentemente, o país aprovou uma lei de liberação de fundos previdenciários para ajudar as pessoas que estava sofrendo com a pandemia, e não se precisou de uma nova constituição para isso”.

O detalhe que a parlamentar omitiu é que ela, seu partido e toda a direita chilena – base do governo do presidente Sebastián Piñera – foram contra o projeto, que foi iniciativa da Frente Ampla e do Partido Comunista, e que acabou sendo aprovado com votos da esquerda e dos partidos de centro.

Victor Farinelli
Victor Farinelli
Jornalista formado pela Universidade Católica de Santos, há 15 anos é correspondente na Argentina (2004 e 2005) e no Chile (desde 2006).