Carro Rei no 12º Cinefantasy online e gratuito – Por Filippo Pitanga

Ganhador do prêmio de melhor filme no 49º Festival de Gramado, filme da premiada cineasta pernambucana Renata Pinheiro mantém favoritismo na competição do 12º Cinefantasy na plataforma de streaming Innsaei.Tv

O segundo semestre de 2021 mal começou e já temos três dos melhores filmes do ano lançados em Festivais ou no circuito comercial brasileiro, como “The Green Knight” de David Lowery (do Cult “A Ghost Story”, 2017), “A Lenda de Candyman” de Nia DaCosta (de “Passando dos Limites”, 2018) e “Carro Rei” de Renata Belo Pinheiro (do laureado “Amor, Plástico e Barulho”, 2013). Este último, desde que estreou no Festival Internacional de Rotterdam, já desponta como talvez o melhor filme brasileiro do ano, além de acumular apostas certeiras como um dos principais candidatos à vaga para nos representar pela categoria de filme internacional no Oscar 2022.

Grande vencedor do 49º Festival de Cinema de Gramado, além de levar as estatuetas de melhor trilha sonora, direção de arte e desenho de som, não é à toa que recebeu reconhecimento justamente nestas categorias técnicas para compor o que faz dele a revelação do ano. É justamente através destes atributos que muito da história é contada de forma original e inusitada, criando várias camadas narrativas com o som e a arte, para além de um elenco magistral e um conceito inovador a catalisar em ótima metáfora todas as coisas mais insanas que andamos vivendo ultimamente: Do desgoverno atual a uma pandemia descontrolada de desinformação e negacionismo que só atrapalha o combate à covid-19.

Mas podem ficar tranqüilos, pois não se trata de mais um documentário urgente sobre o presente, e sim uma distopia futurista que usa de elementos de sci-fi e inteligência artificial no roteiro para representar, de forma sagaz e metafórica, toda esta era dos robôs de internet e das fake news que se espalham mais rápido do que vírus, para a infelicidade da democracia. A trama parte do microcosmo no interior da cidade de Caruaru em Pernambuco, a partir de uma pequena empresa familiar moribunda de serviços de táxi, cujos automóveis velhos estão com os dias contados, e que ameaça a macroescala evolucionária quando seu principal carro da frota ganha inteligência artificial e vontade própria.

Eis que o grande trunfo da sutileza crítica é o de abordar as máquinas para, na verdade, falar de forma microscópica sobre o ser humano. A narrativa começa, inclusive, com uma tragédia tipicamente shakespeariana, onde uma perda familiar cinde todo um núcleo consangüíneo: faz o protagonista Ninho (Luciano Pedro Jr.) abandonar seu pai (Adélio Lima) e também resulta num cunhado sendo exilado (o soberbo Matheus Nachtergaele que, outra vez, entrega mais uma das performances de sua carreira a cada filme). Ou seja, é sobre as relações entre as pessoas e uma forte crítica às formas de organização social autocráticas numa época ditada pela virtualidade e distanciamento social de que trata a metáfora maquínica em questão.

Por falar neste aspecto da trama, a parte mais próxima do sci-fi e da robótica, voltemos a abordar os efeitos práticos e visuais da direção de arte na extensa equipe de design de produção. Não é de hoje que os filmes da diretora Renata Pinheiro falam ainda mais através da ambientação criada pelos cenários, objetos de cena e fabulação do imaterial do que pela necessidade de diálogos. Isso advém de uma forte experiência como artista plástica e ela própria também como uma das mais reconhecidas diretoras de arte brasileiras, especialmente no movimento pernambucano contemporâneo, mas bem como em produções internacionais – vide o sucesso de “Zama” dirigido pela argentina Lucrécia Martel, e cuja arte rendeu muitos prêmios para Renata. À conta disso, é bastante coerente pensar na criação dramatúrgica em seus filmes pelo viés da semiótica plástica que nos desafia a interpretar os vários significantes da cena, mais do que quaisquer palavras pudessem narrar.

Divulgação

Curiosamente, ainda que costume assinar a arte dos próprios filmes, aqui há outra profissional à frente da função, Karen Araújo, de filmes como “Besouro” (2009) e do ainda inédito “Serial Kelly” de René Guerra. É neste quesito que ambas mais brilham neste time bem azeitado, pois muito do arcabouço essencial de “Carro Rei” é escrito e construído em cima da construção imagética e da luminescência estroboscópica de seu filme e personagem-título.

As luzes multicromáticas de neon, uma característica marcante de obras anteriores da cineasta, aqui funcionam como simbolismo à la “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” de Steven Spielber (1977), onde a comunicação se dá através da musicalidade das cores, literalmente uma linguagem algorítmica que humanizará até mesmo a relação entre o carro e os humanos – com direito a flerte e uma seqüência inesquecível de amor com personagem interpretada por Jules Elting (“O Ornitólogo”, 2016, e “Vil, Má”, 2020), artista e performer não binária de origem alemã que rouba algumas das melhores cenas do filme e amplia o conceito da luta contra o patriarcado (mesmo que o maquínico).   

Além disso, como no filme de Spielberg, as cores e tecnologias construídas com os efeitos visuais para dar vida às máquinas nessas histórias extraordinárias não seriam possíveis se não fosse todo um trabalho do também premiado desenho de som assinado por Guile Martins. E precisamos ir para além do que o público em geral costuma prestar atenção de plano, como a trilha sonora, também laureada, mas cuja excelência é mais fácil de sentir, pois ainda funciona como um dos elementos de mais fácil identificação num filme.

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Isso não tira de forma alguma o mérito das músicas, muito pelo contrário, coloca de forma ainda mais nítida e em evidência o gênero cinematográfico escolhido através do qual veio a se contar a história… Como com a brilhante “Automatic Lover” na gravação de Dee D. Jackson, cujos sintetizadores e versos eletrônicos, como uma voz robótica, já dão todo um tom herdado da estética oitentista de filmes de ficção-científica em que já acreditávamos que máquinas podiam dominar o mundo. Há de exemplo filmes de David Cronenberg (“Videodrome: A Síndrome do Vídeo”, 1983) e John Carpenter (“Christine – O Carro Assassino”, 1983, que parece ser influência direta, inclusive). Ou mesmo a música “Caruaru” na voz da intérprete Dalva de Oliveira, que dá o devido protagonismo à cidade homônima, a mais populosa do interior de Pernambuco e uma das mais em todo o Nordeste.

Esta identidade territorial é importantíssima não só para se falar do exercício de estilo a que o filme possa se filiar, principalmente em relação às produções em conjunto da dupla Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira (“Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos”, 2016), que costumam sempre trabalhar em conjunto, seja coassinando o roteiro de “Carro Rei” a seis mãos (também com Leo Pyrata), seja na direção ou produzindo os projetos um do outro pela Aroma Filmes, e até pelas parcerias, como a finalização da pós-produção da Cajamanga. Num filme com tanta mise-en-scène colorida, especialmente em cenas noturnas externas, é mais importante do que nunca em se falar de uma impecável correção de cor. Existe uma impressão digital muito forte da experiência conjunta, não só pelo fato de ter nomes de parcerias sólidas no cenário pernambucano atual, como de uma continuação da autoralidade de Renata aquiescida por todas as colaborações.

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E por isso mesmo urge distinguir o trabalho escrito nas músicas do elaborado pelo desenho de som, voltando a falar da realização ímpar de Guile Martins. Há aqui uma fatia considerável da torta dedicada ao extracampo de áudio, ruídos e diálogos. Há várias camadas de identificação de personagem quando começamos a escutar a voz do carro-título. Existem pequenos sinais do jogo de comunicação que agregam muito ao clima construído de tensão quando ouvimos os pensamentos de um veículo e, logo depois, passamos a vê-los se comunicar de forma inteligível com outras pessoas através de um dispositivo tradutor. Esta tradução não existe só dentro da trama, mas também como elemento de ligação e confiança com o espectador, que não resiste ao carisma da personagem automobilística, independente de ela poder ser traiçoeira, principalmente quando começa a lidar com a tentação de criar um poder paralelo.

É esta rede de força que constitui a crítica central do filme às novas organizações paraestatais que podem desafiar governos ou mesmo, quando utilizadas para fins pouco democráticos, ou longe de servir ao povo, podendo acabar até a serviço dos próprios governantes inescrupulosos – como na perfeita analogia de se utilizar a mesma voz do versátil ator Tavinho Teixeira tanto para o deputado vilanesco do filme, quanto para a dublagem que dá vida ao carro rei. Os versos eletrônicos da trilha “Automatic Lover” não são nada na frente do vínculo construído entre o protagonista de quatro rodas e a personagem extremamente complexa de Zé Macaco, que é interpretada por Matheus Nachtergaele.

Tudo começa quando o jovem protagonista Ninho é o único que pode entender as transmissões telepáticas do veículo da família, até que um dispositivo tradutor seja inventado pela intervenção de seu tio (Nachtergaele), o mecânico excêntrico que vive isolado fora da cidade (brilhante no que faz, mas incompreendido como ser humano). O fato de seu nome ser Zé Macaco parte do pressuposto de vários significados, desde o primitivo, de ancestral dos humanos, ao funcional, como macaco hidráulico de trocar pneus. Esta miríade de traduções da palavra já carregaria por si só a dicotomia contida na trama, pela qual as máquinas não só podem substituir a humanidade, como tornar o homem irrelevante e descartável, involuindo para peças da engrenagem. E, nisso, não poderia haver melhor ator que Nachtergaele para incorporar trejeitos, até expressões e figurino que vão se tornando cada vez mais uma mistura símia e curvada de uma coreografia ciborgue a guiar seus seguidores, à la flash mob, como uma inversão evolucionária do balé inicial e final de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” de Stanley Kubrick (1968).

Porém, este indivíduo que não sabe pensar sem a máquina como muleta (até virar muleta da máquina) também dialoga muito com a atualidade de exércitos de zumbis que não sabem pensar por conta própria, e acredita em correntes virais de whatsapp, como se robôs da rede fossem identidades reais e facilmente confundidas com pessoas de verdade. O pensamento e pesquisa científica, numa época em que só a vacina pode salvar, parecem substituídos por sofismas falaciosos, e nossos cientistas estão sendo desacreditados por manobras cegas de massas que agem como gado bovino.

A esta altura, não se pode deixar de dizer que outro núcleo paralelo da trama, guiado pela personagem Amora (na pele da ótima Clara Pinheiro), é quem cria o contraponto mais eficaz em face do momento desesperador que se está vivenciando dentro e fora das telas. Apenas a organização coletiva com base na ancestralidade e nos atributos naturais da terra é capaz de restabelecer um equilíbrio biológico renovável sem hierarquias ou descarte – lição que o Brasil deveria ter aprendido desde sempre com seus povos originários. Tudo é adubo e esta indispensabilidade de todas as coisas no planeta é a única cura possível contra a apatia que somente tritura até onde algo possa ser útil a terceiros.

E aí reside a principal força deste longa-metragem: um trabalho que se comunica com os novos tempos, mas que o faz com uma execução (est)ética impecável e atemporal, e que provavelmente continuará tendo muito a nos dizer, a ser expandido e ressignificado através dos tempos. Ponto para a equipe bem regida e uma direção extremamente segura a conduzir com batuta de ouro esta orquestra eletrônica em busca do sentido da vida orgânica, ironicamente, a partir das máquinas como espelho distorcido de seu criador.

Confiram debate com a cineasta clicando aqui, e assistam a este e muitos outros filmes imperdíveis no 12º Cinefantasy – Festival Internacional de Cinema Fantástico, disponível na plataforma de streaming gratuita e online Innsaei.TV até às 23h59 do dia 19 de setembro. Algumas outras pérolas competindo na Mostra são os multipremiados na Fantlatam – Aliança Latino-Americana de Festivais Fantásticos, como o mexicano “Rendez-Vous” de Pablo Olmo Arrayales (2019) e o boliviano “Anomalia” de Sergio Vargas Paz (2019).

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Filippo Pitanga

Jornalista e advogado, crítico, curador e professor de cinema

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