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09 de julho de 2019, 13h06

Cinema em vertigem, por Marina Costin Fuser

Vamos tomar cuidado pra não queimar pontes quando o dilúvio fascista ameaça destruir o cinema brasileiro de conjunto

Foto: Divulgação

Por Marina Costin Fuser*

Gostei muito do filme “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa. Ela narrou toda a formação do circo do absurdo que tomou conta de Brasília com leveza, através de uma verve poética no tratamento das imagens (tanto documentais, como produzidas in loco), e na medida que ela inclui seu próprio corpo, sua vivência, atravessando os eventos políticos que marcaram o país. Me identifiquei bastante, posto que também sou filha de militantes de esquerda do fim dos anos 70, e somos próximas em idade, o que se remete a reminiscências desde a infância.

A narração em primeira pessoa fornece um respiro pro filme, e se afasta de uma pretensão de verdade, deixando bastante evidente que se trata de um ponto de vista sensivelmente situado. O filme me atravessou de tal forma que deu náusea, a mesma sensação que sinto ao olhar diretamente para um abismo. A analogia ao circo que se arma na arena política foi bastante precisa, e o filme fez jus aos efeitos pirotécnicos que se desenrolam com o impeachment, a fragilização das instituições democráticas, e a ascensão do ódio. Vertigem.

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Entendo que muitas pessoas divergem do ponto de vista da Petra, seja pelo filme não ser tão entusiasta ao PT e fazer algumas críticas, seja por não ser crítico o suficiente (pela esquerda ou pela direita). Mas podemos divergir politicamente sem desqualificar o conjunto da obra, certo? Se estamos a debater o filme de Petra, é porque foi um filme forte, que marcou, e suscitou sentimentos. Nisso, o filme já foi bem-sucedido.

Também entendo que questionem o lugar de fala da artista. Afinal, muitos privilégios abriram caminho para que ela faça seu cinema, num sistema absurdamente excludente. Cinema custa caro, e atravessamos um período de escassez. Isso é sistêmico e vai muito além do cinema, o que pode e deve ser posto em xeque. Com efeito, esses abismos socioeconômicos devem servir de mote para políticas públicas no intuito de ampliar o acesso a quem não é contemplado pelos privilégios de uma ínfima minoria, que é branca e abastada.

Mas citar nominalmente uma cineasta que usa as oportunidades que teve para fazer um cinema (inclusive) crítico socialmente, como fizeram alguns internautas, é a coisa mais contraproducente que podemos fazer em tempos de Bolsonaro. E sim, gênero importa, já que assinamos só 19,7% dos filmes produzidos no país. Claro que se trabalhamos com intersecções entre gênero e raça, gênero e classe, e gênero e orientação sexual, as porcentagens são ainda menores, o que justifica políticas públicas específicas para os setores que permanecem nas margens.

Mas creio que eleger nominalmente os herdeiros do cinema para desqualificar sua obra não ajuda a potencializar o trabalho de quem não é favorecido. No caso da Petra, ela mesma situa criticamente seu contexto social, e é engajada na luta pela democratização do cinema brasileiro. Vamos tomar cuidado pra não queimar pontes quando o dilúvio fascista ameaça destruir o cinema brasileiro de conjunto.

*Marina Costin Fuser é doutora em Estudos de Gênero e Cinema na Universidade de Sussex com doutorado-sanduíche na UC Berkeley, é ativista e pesquisadora feminista e LGBT há mais de dez anos, contribuindo com artigos e charlas relacionados ao tema dentro e fora da academia. Publicou o livro “Palavras que dançam à beira de um abismo: Mulher na dramaturgia de Hilda Hilst”

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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