domingo, 27 set 2020
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Cinema na quarentena: Spike Lee na Netflix e Recôncavo Baiano, por Filippo Pitanga

Por Filippo Pitanga*

Recentemente, numa declaração bastante criticada, a autora Antonia Pellegrino afirmou que não existia um Spike Lee ou Ava DuVernay no Brasil, e que a culpa disso era do racismo estrutural. De fato, o racismo estrutural inibe investimentos de grande porte num cinema afirmativo. Não haveria necessidade da comparação com esses inegáveis talentos citados acima, todavia, se déssemos o devido valor à nossa própria cultura. A começar pela própria Antonia, que poderia ter convidado um dos brilhantes cineastas da nova geração para dirigir a série sobre Marielle Franco que ela está organizando para a Globoplay. Nomes como a dupla baiana Glenda Nicácio e Ary Rosa, por exemplo, que despontou com o recorde de três longas-metragens no curto período de 2017 pra cá, e que agora liberou estes filmes na rede gratuitamente, alguns inéditos no circuito, para animar esta dura quarentena contra a pandemia mundial (assista aos filmes aqui).

Sabemos que arte e cultura são direitos constitucionais (vide o art.215 da CF/88, como já havia descrito em texto na Fórum aqui). Contudo, essas palavrinhas não aparecem como cláusula pétrea no artigo 5º da Lei Maior. O binômio que está lá é educação e lazer, intrínsecos à cultura, sem a qual nada existiria. E se a quarentena nos mostrou algo, durante este longo confinamento coletivo mundial, é que as pessoas já teriam colapsado sem inúmeras fontes culturais sobre as quais se debruçar e refletir. Tanto que a maioria das plataformas online abriu inscrições gratuitas durante o pico da contaminação da covid-19, e até grandes cineastas lançaram obras por streaming, como o novo longa na Netflix do supracitado Spike Lee, “Destacamento Blood” (“Da 5 Bloods”), chegando num timing pungente junto com o movimento #blacklivesmatter.

A questão, na verdade, é outra: Qual seria a régua na democratização do acesso à cultura que leva determinadas produções a terem o financiamento da Globoplay e Netflix? Isso enquanto outras iniciativas independentes, que estão fazendo história, ainda não receberam o reconhecimento à altura de toda a sua economia criativa investida na sociedade? Empreendimentos como o de Glenda Nicácio e Ary Rosa, com a Rosza Filmes Produções no Recôncavo Baiano, criaram uma verdadeira rede cooperativa de empregos e cultura, semeando essa postura para o Brasil e além. Podemos citar sua participação em Festivais Internacionais como Rotterdam, na Mostra “Soul In The Eye”, com curadoria de Janaína Oliveira, título dado em homenagem ao paradigmático filme “Alma no Olho” de Zózimo Bulbul (saiba mais aqui).

Cabe lembrar, a esta altura, que de forma alguma devemos hierarquizar opressões, ecoando a escritora Audre Lorde, e reforçar que o feito de Spike Lee em poder lançar seu novo filme na Netflix não deve ser usado como comparação negativa para nossos realizadores brasileiros. De formas diferentes, cada qual tem seu lugar de ação, e o fato de suas obras estarem sendo lançadas em diferentes formatos de streaming só reforça a relevância do debate sobre democratização dos meios de acesso à cultura, dentro e fora da quarentena.

Evidente que é uma alegria ver o cinema de Spike Lee, grande defensor de mais representatividade no audiovisual, receber essa janela gigantesca de visibilidade, contudo, o cinema ainda é uma arte elitista. Custa caro para fazer, ainda mais sem os subsídios necessários (vide o caso brasileiro recente, com o desmantelamento das políticas públicas voltadas pra cultura), bem como é caro de consumir. Então, qual o grande ganho em retorno que este elevado preço nos traz? Qual o alimento da alma obtido?

Enquanto Spike Lee está elevando a fronteira das narrativas plurais, com seu filme de guerra pensado a partir de uma reparação histórica, nossos diretores baianos avançaram léguas o debate racial no Brasil, colocando personagens de ampla representação realista para refabular o cotidiano. Aliás, o cinema dos respectivos realizadores também possui assinaturas muito próprias. Lee possui a bagagem e a infraestrutura para montar ritmicamente grandes planos compostos em “Destacamento Blood”. Ele foca em identidades negras contrapostas à memória de violência no Vietnã, pretendendo honrar aqueles corpos perante as imponentes montanhas vietnamitas, legado de uma Guerra letal e infundada que os EUA criaram no Oriente. Já Glenda e Ary vão para um lado completamente oposto.

O intimismo dos filmes do Recôncavo Baiano parece evocar o misticismo nas pequenas coisas e hábitos, na fé e na ancestralidade. São casos como o do já novo clássico “Café com Canela” (2017), retratando a relação entre ex-aluna que ajuda sua querida professora a superar um luto atroz, em meio à fusão de diversos gêneros de filmar (do vídeo ao digital, do drama ao horror psicológico). Ou como o caso da vanguardista metalinguagem cinematográfica de “Ilha” (2018), com um filme dentro de outro filme e um romance que alude ao atravessamento do espaço-tempo de “Moonlight” (2016, Barry Jenkins). E, afinal, mas não menos importante, o novíssimo “Até o Fim” (2020): um acerto de contas entre irmãs sobre traumas passados, que se passa praticamente todo numa só noite e apenas num único recinto, como em “O Anjo Exterminador” (1962, Luis Buñuel), prendendo-as ali até seus conflitos serem resolvidos.

Reprodução

Apesar das diferenças, também há anseios e buscas com afinidades universais, como todos eles fidelizarem os mesmos artistas. Spike Lee trouxe agora de volta o consagrado Delroy Lindo de “Malcolm X” (1992) e “Uma Família de Pernas Pro Ar” (1994). E a revelação Arlete Dias está em todos os longas de Glenda e Ary. Assim como podemos apontar sinergias técnicas entre eles, há de exemplo os super closes em poderosos monólogos ou em investigações da expressão facial ante o peso do tempo – Vide a marcante cena do mesmo Delroy em “Destacamento Blood” que pode lhe valer indicação ao Oscar 2021; bem como a entrega confessional em “Café com Canela” por parte de Valdinéia Soriano, atriz da Companhia Bando de Teatro Olodum. Podemos citar também a interação constante com a câmera, quase como quebras da quarta parede, tanto por Lee, em seus movimentos de “dolly shot”, quanto pela dupla baiana, na pessoa de Thacle em “Ilha” – que é tanto o diretor de fotografia, como um onipresente personagem homônimo com quem dialoga o protagonista interpretado com vigor spikeano por Renan Motta (confira entrevistas com os respectivos aqui).

Babu Santana é destaque em “Café com Canela”

Como dito antes, não há a necessidade de comparar a ordem da grandeza desses nomes que deixam constantemente suas marcas no panteão da sétima arte. Porém, tendo passado há pouco pelo dia 19 de junho, o Dia do Cinema Brasileiro, há de se pensar duas vezes nos tesouros nacionais que precisamos tanto preservar na memória do presente, quanto investir no futuro que é o agora. E, diferente do lançamento mundial de Spike Lee na Netflix, as obras da Rosza Filmes Produções só ficarão disponíveis no youtube da produtora até o dia 02 de julho. Então, corram para assistir (aqui), porque dia do cinema brasileiro, para nós brasileiros, é todo dia.

*Filippo Pitanga é jornalista e advogado, crítico, curador e professor de cinema

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