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24 de outubro de 2019, 09h39

Com a mente quieta e o coração tranquilo, Walter Franco parte em sua última viagem

A indicação da ousada canção “Cabeça” para representar o Brasil na fase internacional do festival da Globo, resultou na destituição do júri e no espancamento de um de seus membros, o psicanalista Roberto Freire

Foto:Divu gação

Na minha memória de menino, canções de festivais eram aquelas do Chico Buarque, Geraldo Vandré, Caetano Veloso etc. Estava lá pelos onze anos quando subiu ao palco da TV Globo, no Festival Internacional da Canção de 1972, um sujeito de aparência tranquila chamado Walter Franco e cantou a canção “Cabeça”, de sua autoria. Desde então, nada mais seria, de fato, como antes.

A canção era uma sobreposição de vozes e repetição de fragmentos de letra entrecortadas. O júri a indicou como uma das duas a representarem o Brasil na final internacional, ao lado de “Nó na Cana”, de Ari do Cavaco e César Augusto.

Segundo o livro de Zuza Homem de Mello, “A era dos festivais — uma parábola” o júri presidido por Nara Leão foi destituído por conta da decisão. O escritor e psicanalista Roberto Freire, que era um dos jurados, fora designado pelos companheiros para subir ao palco e ler um comunicado de protesto. Foi violentamente arrastado pelos seguranças da TV Globo que o conduziram para atrás do palco jogando-o numa sala onde havia um grupo de policiais e um delegado que disse: “Podem bater porque ele também é comunista”. E assim foi.

Assim começava de fato a carreira de Walter Franco. Sua canção não era de protesto, mas perturbava tanto ou mais do que as que eram de fato. Depois do festival, fez seu primeiro disco, o álbum “Ou Não”, com arranjos do tropicalista Rogério Duprat. O disco recebeu o prêmio de revelação do ano concedido pela APCA. Mais recentemente, a solitária mosca sobre o fundo branco e as palavras “ou não” na contracapa foi escolhida como uma das melhores capas dos últimos anos.

A composição “Me deixe mudo”, que aparece no álbum, foi considerada pelo poeta Augusto de Campos como “a canção com maior registro de silêncio já feita no Brasil. E com recursos de tratamento da palavra que a aproximam da poesia concreta”.

Ela foi regravada logo a seguir por Chico Buarque em seu disco “Sinal Fechado”, um álbum protesto do cantor contra a perseguição que sofria da censura. No disco, todas as composições são de outros autores, com exceção de “Acorda, amor”, de Chico com o heterônimo de Julinho de Adelaide. A regravação da canção de Walter no álbum era uma espécie de boas-vindas do autor ao clube dos grandes da nossa música.

Walter Franco nunca foi de gravar muito. Atravessou seus quarenta e poucos anos de carreira com cinco álbuns excelentes. Participou de vários outros festivais, o maior destaque foi para a canção “Canalha”, no da extinta TV Tupy, em 1979. O compositor se apresentou ao lado de um grupo de rock, que tinha como líder o guitarrista da banda paulistana O Terço, Sérgio Hinds. Aos riffs de guitarra se sucediam seus gritos: “Canalha!”, repetidos aos urros pela plateia, que tanto parecia um berro de dor quanto um brado contra a ditadura que estava nos seus estertores.

Anos depois, assisti Walter Franco de volta ao zen, no Festival de Iacanga, em 1983, na fazenda Águas Claras, interior de São Paulo. Vestido com uma túnica indiana e em posição de lótus, cantou seu mantra inesquecível “Coração Tranquilo”, enquanto ensinava o público exercícios de Yoga. Seu objetivo era fazer a fazenda levitar com a plateia dentro.

A despeito de toda a lógica, os que estavam por lá naquela madrugada juram até hoje que subiram aos céus ao lado de Walter Franco. Assim como subimos nesta quinta-feira, 24 de outubro, dia em que o cantor e compositor resolveu nos deixar, aos 74 anos.

 

 


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