Curral Eleitoral: Caiu o de lá, falta o de cá…, por Filippo Pitanga

Na coluna de hoje, os últimos momentos da 44ª Mostra de São Paulo, além de uma conversa exclusiva com José Dumont sobre seu novo trabalho nas telonas, “Curral”, um longa-metragem em perfeita sincronia com os ares eleitorais do Brasil e do mundo.

Hoje em dia parece que o presente não é mais o agora. Parece que estamos vivendo eternamente as consequências de um passado que não é nosso, como num eterno looping. Um delay temporal; um jetleg político-social. Quando o mundo, enfim, se pronuncia em face da exacerbação do conservadorismo fascistoide, ao retirar aquele que ocupava a liderança de uma das maiores potências do planeta, ainda somos obrigados a viver as consequências disso com o protótipo brasileiro de Trump, Jair Bolsonaro.

Da mesma forma, a repercussão do desmantelamento de políticas públicas ainda reverbera na Educação e Cultura, com a falta de financiamento para a urgência de nossas artes e cinema, por exemplo, os quais andavam recebendo alguns dos maiores reconhecimentos internacionais em toda sua história, antes de ser desacelerados bruscamente. Decerto, ainda veremos o resultado destas baixas a médio e longo prazo, talvez até com um menor número de filmes produzidos neste século, desde a Retomada… Contudo, alguns dos recordes positivos que alcançamos este ano continuam reverberando no presente, pelo menos em algum efeito positivo dos investimentos passados, de duas décadas para cá.

Nesse sentido, podemos citar, como exemplo, o maior número de selecionados brasileiros no 70º Festival de Berlim, logo no início de 2020 (leia aqui). Ou mesmo, após ano passado termos brilhado em Cannes, com o Prêmio do Júri para “Bacurau” (2019), quando voltamos pelo segundo ano consecutivo à seleção da Croisette, com “Casa de Antiguidades”, independentemente de o festival ter acabado não acontecendo (leia aqui). E até mesmo na seleção de Veneza conseguimos aparecer, ainda que hors-concours, com “Narciso em Férias” (leia aqui). Portanto, acumulando estreias retidas depois de meses com os cinemas fechados pela pandemia, não é surpresa dizer que tivemos também o prestígio de cerca de 30 filmes nacionais inéditos aportando na 44ª Mostra de São Paulo. Com encerramento de sua repescagem marcado para hoje, 08 de novembro, é possível encontrar estes e muitos mais filmes ainda disponíveis na plataforma online da Mostra Play, até meia-noite, para que você decida com quais filmes deseja encerrar esta maratona. Então, que tal prestigiar o cinema brasileiro para fechar com chave de ouro?

Como primeira indicação muito pertinente com o agora, “Curral”, de Marcelo Brennand (2020), é uma história de ficção que versa justo sobre o processo eleitoral de uma cidade do interior. O assunto não poderia estar mais em voga, em consonância com realidade atual, uma vez que, depois de acompanharmos um dificílimo processo eleitoral nos EUA, não podemos ignorar que está chegando a vez de o Brasil também voltar às urnas. É uma segunda chance para recomeçar as mudanças, a partir dos cenários regionais, e diante da extrema decepção com o governo federal que já supera 70% da população indignada.

Voltando a falar da trama do filme, somos guiados pelo ponto de vista de um cabo eleitoral, Chico Caixa (na pele de Thomas Aquino, o ‘Pacote’, de “Bacurau”), que embarcará na rixa entre candidatos que representariam lados opostos de ideologias partidárias, jamais nomeadas como “esquerda” ou “direita”, somente pelas cores azul e vermelha. O curioso disso é que estas são justamente as cores da bandeira norte-americana, numa possível crítica ao eterno colonialismo de nossas terras a partir de interesses estrangeiros, acima de quaisquer polarizações contemporâneas – algo que já tínhamos visto, não por acaso, em “Bacurau”, também protagonizado por Aquino. Aliás, noutra correlação com o nosso premiado longa dirigido por Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, “Curral” igualmente gira em torno da água como principal pivô das disputas e dos direitos sociais em meio à seca, como metáfora incondicional da vida em qualquer democracia.

A linha narrativa possui diferentes núcleos de personagens a despertar o interesse e engajamento do espectador, porém, apesar de acertarem sempre que giram em torno da órbita do protagonista, possuíam potencial para existir à parte também. Alguns desses polos promissores vão sendo um pouco deixados de lado, enquanto outros não são desenvolvidos a contento, vide as excelentes personagens coadjuvantes de Clebia Sousa, Fernando Teixeira e Carla Salle (“Motorrad” de 2017) – sendo esta quase a coprotagonista, na pele de uma ativista não binária que vai se tornando interesse romântico de Chico Caixa. Pena que ela vai deixando de ter camadas tridimensionalizadas, de acordo com que o romance passa a ser tratado como um fim e não como um meio. Tanto ela, quanto ele, saem perdendo por esta sintetização, ficando aquém de referências mais interessantes a que o roteiro de “Curral” alude, como aos filmes “Camocim”, de Quentin Delaroche, e à obra-prima “Terra em Transe”, de Glauber Rocha. Por sinal, noutra referência a este clássico, talvez tenha faltado aqui triangular a trama com outras instituições que permeiam um processo eleitoral, complexificando as tensões, como pela imprensa ou pelos sindicatos, só pra citar algumas possibilidades.

Já quando falamos de antagonistas da trama, o destaque vai para o inescrupuloso prefeito Vitorino, o qual deseja uma reeleição a qualquer custo, interpretado por um dos maiores atores do cinema brasileiro, José Dumont (de cults como “A Hora da Estrela” e “Abril Despedaçado”, filmes que estão fazendo aniversário, e cujos debates comemorativos com o ator podem ser conferidos aqui e aqui). Encarnando o primeiro papel em sua carreira de um homem poderoso na política, é bastante intrigante até o fato de que a filmografia brasileira não houvesse desenvolvido ainda mais desdobramentos dramatúrgicos neste sentido para tamanho talento, num ponto bastante acertado para o diretor Marcelo Brennand. Aqui, tal riqueza de contradições é aplicada de forma eficiente para ganhar destaque – mesmo passível de encontrar brechas no roteiro, que Dumont mais do que compensa em recursos cênicos de gestos e expressões, até em seus silêncios.

A Revista Fórum pôde, inclusive, entrevistar o ator e garantir este bate-papo exclusivo sobre seu trabalho, num filme tão político, às vésperas das eleições municipais. Confira:

“Eu conhecia o trabalho anterior de Marcelo Brennand, o documentário “Porta a Porta”, que também falava sobre o processo eleitoral. E, quando li o roteiro de “Curral”, concordei bastante que ainda havia muito potencial de contar essa história através da ficção. Era o primeiro roteiro que eu lia de ficção sobre o processo de boca de urna. Época em que rola dinheiro aparecendo do nada e que alguém sempre tenta botar no bolso. É essa política maluca que temos e que não muda, sempre nas mãos das mesmas pessoas. No filme, eu faço o prefeito, algo novo em minha carreira, já que sempre interpretei alguém do povo, sempre fui à margem, um gaijin… E, pela primeira vez, fiz um camarada do lado de lá. Ele é um prefeito à moda antiga, num processo que não se renova. Mas a personagem principal mesmo no filme é a água, o grande elemento que conduz a coisa toda, e que une a todos nós. Chega a ser poética a história da água como força dramática de um povo.”, diz José Dumont.

“Muitas vezes, os políticos em geral são analfabetos da emoção popular e só sabem seguir o processo deles. A política aqui veio de um processo colonial de Capitanias Hereditárias, que se mantém na mão de quem tem dinheiro. Entra ano, sai ano, e a coisa não muda. Por exemplo, vereadores que seriam a peça mais importante, mais próxima da população, e levariam ao prefeito e ao governador pra levar ao federal, são as peças que menos entram na política, apenas com espaço no horário eleitoral para verbetes que não dizem muito do currículo da pessoa. Vêm de interesse local e não conseguem se comunicar além disso. Uma política que não se renova com o velho poder político, de quem ainda manda por ter dinheiro. É uma luta de classes que continua com os coronéis. Porém, agora a cabeça da Medusa norte-americana foi cortada, e eu acho que até semana que vem já veremos a repercussão disto aqui sim, teremos modificações no Brasil também. Tenho esperança.”, completa o veterano ator.

Foto: Cenas de “Curral” (divulgação).

Por fim, vale outras indicações preciosas no campo das micropolíticas cinematográficas, como longas-metragens versando sobre a condição feminina e dirigidos por mulheres, como os belíssimos “Mulher Oceano”, de Djin Sganzerla, e “Irmã”, de Luciana Mazeto e Vinicius Lopes. No primeiro caso, fotografado de modo poético por André Guerreiro Lopes (cada vez mais maturado, como também por filmes dirigidos por Helena Ignez), o filme nos faz viajar de modo metalinguístico, junto com a própria Djin, na pele de mais de uma personagem, a se desdobrar em várias funções à frente e atrás das câmeras, pelos encantos e correlações do Japão com o Brasil, e tendo o mar como fio condutor em comum.

A partir de imagens poderosas, evocando a força da famosa gravura “A Grande Onda de Kanagawa”, de Hokusai, perpassamos os vários significados das águas, desde a sua religiosidade, até ao uso prático, como na pesca, no transporte em embarcações, e nos esportes, como o nado. A protagonista escreve um livro durante a trama, enquanto investiga várias fontes de vivências, sendo, certamente, a mais inspiradora delas, a das senhorinhas chamadas de “Amas”, que mantêm a tradição milenar de mergulho só no fôlego. É delas o assobio da respiração que será a mais bela catarse a se juntar ao ruído das ondas e da trilha sonora no final, uma das fortes candidatas a melhores cenas do ano.

Já “Irmã”, de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes, é um filme gaúcho muito interessante, que estreou em competição na Mostra Geração, da 70ª Berlinale, no início do ano, produzido por Pátio Vazio e Jaqueline Beltrame, com uma bela proposta de cinema, digna da tela grande. Estrelando Maria Galant (a mesma atriz do premiado “Mulher do Pai” de Cristiane Oliveira) e uma revelação mirim encantadora na pele de Anaís Grala Wegner, esta obra pode aparentar simplesmente ser mais um filme agridoce sobre duas irmãs, porém, já sai do lugar comum agregando inusitada premissa sci-fi: Está vindo um meteoro do céu, que não irá atingir a Terra e vai passar paralelamente à nossa órbita, e que estaria alterando magneticamente o comportamento de todas as mulheres do planeta…

Este inusitado argumento original é também uma brincadeira de gênero, que vai fazer com que essas duas irmãs passem por uma catarse quando forem visitar o pai, que não veem há muito tempo, porque constituíra uma nova família. O Arcabouço pode soar extremamente simples, mas vai passar por experimentações de cores, de iluminação, muito inspiradas na representação do próprio meteoro. O comportamento das duas protagonistas vai sendo alterado conforme as cores e luzes vão sendo projetadas nelas, do lilás-azulado ao rosa-alaranjado, como se o cosmo pudesse ser fabulado a partir de nosso coração (dois tons não necessariamente opostos, mas complementares entre os espectros do material e o imaterial, como o famoso episódio “San Junipero” de “Black Mirror”) – em interessantes trocas criativas, com a direção de fotografia de Carine Wallauer (leia mais aqui).

Todos estes filmes estarão disponíveis até meia-noite na plataforma da Mostra Play (aqui). E aí, qual encerrará com chave de ouro a sua maratona?

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Filippo Pitanga

Jornalista e advogado, crítico, curador e professor de cinema