De Anitta a Jojo Todynho: O que foi reality em 2020?, por Filippo Pitanga

A dororidade de Jojo Todynho no castelo de cartas de A Fazenda 12 e o Império de Anitta Contra-Ataca.

Talvez algumas pessoas estranhem que falemos do reality show “A Fazenda”, da emissora Record, aqui nesta coluna sobre cinema e audiovisual… Ou mesmo da nova série da Netflix “Anitta: Made in Honório”. No entanto, de fato, esses programas se tratam de obras audiovisuais, mesmo que voltados para o consumo escapista de entretenimento circunstancial. TV ao vivo ou de aspiração parcialmente documental. Depois, o que fica destas empreitadas atualmente são… os memes! No máximo dos máximos, quando alcançam a rara chance de produzir algo que de fato faça a diferença, acontece uma catarse ímpar como a de Babu Santana e Thelma Assis no “Big Brother Brasil 20”, numa lição de humanidade e consciência racial em face desta sociedade estruturalmente intolerante (leia mais aqui e aqui). Mas será que a participação recente das idolatradas cantoras e compositoras Jojo Todynho ou Anitta em programas de TV conseguiram chegar perto disso?

Para alcançar uma façanha deste nível, que se comunique com o público deste modo, é necessária a convergência de alguns fatores únicos – mesmo para um tipo de programa cuja dramaturgia se faça em cima de cálculos e previsões de todos os resultados alternativos possíveis. Ou seja, ainda que a produção estivesse na capacidade de estimar todas as condições pra reproduzir a conexão mágica obtida no primeiro semestre com recordes históricos de audiência e votos no Guinness Book (mais de 1,5 bilhão), ainda assim operam alguns quesitos de imprevisibilidade e acaso importantes.

A começar pela quarentena, que mudou de face e de aplicação durante a pandemia, sendo relativizada por algumas questões negacionistas e outras por pura sobrevivência. Algumas pessoas trabalham longe de casa e não têm o privilégio do home office (sim, lembremos que é um privilégio e agradecimentos são devidos). Sem o espírito gerado pela primeira paralisação total, não temos aquela sensação de espelhamento que nos criou uma identificação amplificada com a estética do confinamento de reality shows como “BBB” e “A Fazenda”. E sem esta projeção, o grau de identificação também decresce, ainda mais se a intenção fosse incutir uma interiorização do que é visto na tela, a adentrar as casas de todos os brasileiros como se fosse um estudo de nós mesmos.

E não que “A Fazenda” não tenha tentado reproduzir desde o princípio alguns dos méritos da última edição da emissora concorrente, a Rede Globo, de vestir seus participantes masculinos com roupas de mulheres, logo no primeiro episódio (mérito original das meninas do “BBB” que fizeram isso com o único homem restante da casa, Babu, renomeando o programa de ‘Big Sister Brasil’) a botar pra tocar o hit “Don’t Start Now”, de Dua Lipa, com direito à coreografia inventada pela sister Manu Gavassi no primeiro semestre.

Não só, pois “A Fazenda” também trouxe outros dois elementos a complexificar a trama, emprestados dos ‘hermanos’. O primeiro foi a questão racial, conseguindo compor um elenco plural com até mais participantes que se identificam como não brancos do que praticamente qualquer outro reality – uma vitória ainda pequena, mas significativa, na direção de se tentar alcançar uma paridade social. O segundo, porém, talvez seja mais delicado, que foi a condição clínica de alguns participantes. Se na Rede Globo o participante Daniel Lenhardt foi o ponto de ebulição com os demais confinados, que se frustravam tanto quanto o público pelas mancadas do rapaz, aparentemente inconsequentes, sem que ninguém soubesse que ele de fato sofresse de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade), agora o buraco foi mais embaixo. Não só pelas necessidades médicas de pressão de Jojo Todynho, que ainda precisava enfrentar duras provas extremamente físicas para não ser eliminada (diferente do “BBB” que alterna de modo mais justo esse tipo de prova de esforço com as de sorte, de resistência e de cognição), ainda tivemos a modelo Raissa Barbosa com Síndrome de Borderline, que levantou questões sobre a ética do programa em colocá-la diante de situações limítrofes e extenuantes do confinamento.

O fato é que esses reality shows sabem exatamente o que estão fazendo. E a emissora Record não teria sutilezas nem papas na língua, até porque sabe que possui alguns públicos em comum e outras tantas tribos diferentes. Esse prazer culposo de sintonizar numa emissora que, inclusive, abertamente, defende uma linha ideológica e partidária oposta à da Rede Globo, de fato torna a estética e a ética do programa voltada para alvos diversos, mas o que não deixa de ser entretenimento – apenas exigindo um olhar opositivo bastante forte para desconstruir algumas coisas com que o espectador pudesse não concordar ou mesmo fruir de outras. Como esta própria edição se definiu (a temporada dos ‘cancelados’), com pessoas que passaram chamuscadas pela cultura do cancelamento, como Biel e Lipe Ribeiro. Ou, como brincavam já no final, com os ‘ex-cancelados’, após a jornada de anti-heróis construída pela montagem ou narração do apresentador Marcos Mion (o qual, surpreendentemente, de fato fez um excelente trabalho, quase dirigindo ele próprio o programa ao vivo e nas redes sociais, extremamente antenado com o clamor público).

Contudo, mesmo com o canal pay-per-view Play Plus, onde os espectadores podiam acompanhar 24 horas os participantes dentro da casa, não éramos nós que comandávamos a narrativa de suas personagens e o foco não parecia querer tridimensionalizar ninguém, pois quase nunca era permitido acompanhar conversas casuais ou íntimas que não fossem sobre o jogo. Muitos dos diálogos citados na edição jamais foram mostrados nem na transmissão ao vivo. Sem a possibilidade de alternar as câmeras e assistir ao que bem se desejasse, como no “BBB”, aqui o interesse confesso do programa era apenas descortinar o máximo número de tretas por minuto, apostando no superlativo e na audiência de explosão, como com Luiza Ambiel e MC Mirella.

Decerto, ao menos neste quesito, eles despertaram um dragão adormecido na boca do estômago das pessoas confinadas pela pandemia e talvez a briga que elas vissem na telinha projetasse todos os seus anseios e angústias de modo a não brigar em casa (num tipo de projeção psicanalítica invertida). Talvez as brigas de “A Fazenda” tenham queimado endorfina e evitado muitas mais desavenças caseiras num ano em que todos tiveram sua vida social consideravelmente reduzida em suas alternativas saudáveis para desopilar.

Então, como foi que para muito além das tretas descartáveis por doce de leite, feijão ou pelo ofurô, com zero tentativa de criar dramaturgia mais profunda, ainda assim conseguiram criar uma conexão tão profunda com o público? Se dependesse da vontade da emissora, de forma até um pouco cega e desperdiçada, a combustão espontânea por si só bastaria, sem nenhuma visão de longo prazo… Mas existiram formas de hackear o sistema que ninguém esperava. E muitas delas vieram de Jojo Todynho e… Lidiane Rafaela Lisboa.

Existe toda uma dimensão de interseccionalidade falando sobre gênero, raça e classe que as duas protagonizaram de formas bastante diversas entre si. Jojo, diminutivo carinhoso de Jordana Gleise de Jesus Menezes, falava com absoluta razão de sua origem humilde em Bangu, já que muitas pessoas têm memória curta, e que isso talvez tenha trazido essa autenticidade que alguns participantes não ‘digeriam’, pois com ela era sempre papo reto e sem engolir sapos… Enquanto que Lidi, como era apelidada, teve muita dificuldade de se adaptar ao confinamento e a socializar com os demais. Mesmo já acostumada aos holofotes, e com carreira consolidada como atriz, só foi se tornar protagonista de novelas quando chegou à Record (“Jezabel”), pois, antes, na Rede Globo, ainda lhe eram oferecidas apenas personagens mais subalternizadas, como babá ou empregada em “Cheias de Charme” e “Império” (dois pesos duas medidas das respectivas emissoras).

Ao mesmo tempo em que isso tudo multiplicava o olhar sobre identidades plurais femininas, deixava um gostinho amargo na boca, indagando sobre o porquê a mise-en-scène audiovisual ainda precisa colocar essas mesmas existências, tão ricas, umas contra as outras, em competição. Inclusive, vale lembrar, com coisas importantes em comum, pois ambas foram criadas por suas avós… Evidente que elas não eram obrigadas a se gostar, pois as pessoas têm o direito de serem livres, porém, tudo ali era construído para que constantemente se batessem de frente. E é curioso também que o maior esteio de ambas fosse os homens da casa, e não necessariamente outras mulheres (apenas transitórias), demonstrando o quanto a presença cênica predominante em nossos imaginários hegemônicos ainda não é a favor da sororidade.

No demais, independente da ‘vitória’ de Jojo e ‘derrota’ de Lidi, que nem cruzaram o olhar na grande final, ambas saíram protagonistas da temporada, certamente com alguns contratos para suas respectivas linhas de trabalho, já que o povo não vai cansar de vê-las tão cedo… E tomara que não, pois ainda bem que reality shows como esse ainda servem para equalizar a visibilidade mal distribuída de reconhecimento no mundo do entretenimento, demasiado branco e de elite.

Num espectro similar, sobre reviravoltas na carreira, e ainda com linguagem entre o reality e o documental, com toques de devaneio de outro tipo de fazenda, a do saudoso programa “The Simple Life”, que firmava no chão os pés das milionárias Paris Hilton e Nicole Richie, a hoje internacionalmente famosa cantora e compositora Anitta chegou à Netflix com “Made in Honório”. Com produção da Conspiração, direção artística e Andrucha Waddington e direção de Pedro Waddington, esta série poderia facilmente ser um longa-metragem como “AmarElo – É Tudo Pra Ontem”, de Fred Ouro Preto sobre o artista Emicida, mas, em vez disso, decidiram dividir em seis episódios o tempo de projeção, alongando algumas narrativas e descentralizando outras – talvez para bancar financeiramente o acompanhamento das viagens e peripécias que dão ares de alto valor de produção, como as férias em Aspen.

Com direito a participação especial de Jojo Todynho a Mariah Carey, a narrativa se subdivide em temas e recortes específicos para cada episódio, como família, negócios e bastidores. O roteiro tenta explicar que a figura a se apresentar toda noite nos palcos do mundo é uma criação não apenas de performance artística, mas, segundo ela própria, funcionando também como uma persona empoderadora. A presença de Anitta seria uma couraça para compensar e fortalecer toda uma vida dupla de Larissa de Macedo Machado (verdadeiro nome da artista), especialmente ao relatar bastante emocionada um caso antigo de abuso que lhe fez jurar jamais se ver numa situação vulnerável outra vez. Ela explica ter criado um alter ego, tipo uma super heroína, para lidar com as injustiças que a sociedade ainda impõe e discrimina em opressões como as de gênero.

Com certeza irá interessar muito aos que já são fãs e talvez obter o respeito até daqueles que não são. Porém, há de se levantar algumas questões bastante densas. Uma delas é justamente fundir numa coisa só o lado pessoal com o profissional, o que, ao invés de humanizá-la, talvez mesmo sem querer, acabe apelando para a mitificação ainda maior de um factóide. Uma falácia. Pelo tom confessional que a câmera a segue poderia até parecer deslize captado inadvertidamente. Todavia, em nenhum momento algo passa sem sua anuência, muito pelo contrário, demonstrando controle absoluto sobre tudo, quase a codirigir o programa (apesar de não assinar como tal). E não como um objeto-título sobre o qual a obra versa, mas sim como sujeito com todo o controle e agenciamento sobre todas as decisões executivas. Dentro e fora da personagem, em atitudes às vezes questionáveis, como se provou o levante da internet sobre como repreende seus funcionários, o que poderia ser confundido com reprodução de um padrão tóxico (leia aqui).

Evidente, é inegável haver ali contido um exemplo positivo em se ver uma figura feminina tão forte e inabalável nas diversas posições de poder deste nível, como chefe de inovação da AMBEV – mas o que também levanta questões de até onde esta sociedade do espetáculo, nas palavras de Guy Debord, estaria exaltando a auto-ingerência absoluta da vida como um produto… Uma mercadoria vendável apenas por seu preço de mercado, num individualismo burguês, e não mais focado na valorização do coletivo e de novas situações e paixões em comum a todos. E essa zona cinzenta é complicada na representação de sua família, por exemplo, que sob um ponto de vista parece seu alicerce emocional, e noutra extremidade, parecem seus funcionários, subalternizados, com algum olhar crítico sobre a cadeia hierárquica que isso ocasiona… (não necessariamente por culpa de Anitta, mas das próprias exigências sociais).

Esta questão do comum, da partilha do sensível, talvez apenas seja resgatada de forma mais nobre ao final, ao invés de ficar querendo fazer close e shade de riqueza (o que não deixa de entreter, assim como as tretas de “A Fazenda”). É aí que a série faz jus ao estranho título em neologismo de reapropriação do estrangeirismo na expressão “Made in Honório”, que, traduzida ao pé da letra, ficaria “Feita em Honório Gurgel” (bairro da Zona Norte do Rio). É apenas nesta parte que todo o sucesso mundial alcançado em parcerias como com Madonna, Iggy Azalea, Snoop Dogg, dentre outros, tem o olhar finalmente voltado para suas raízes, reproduzindo o mega show do Rock In Rio 2019, totalmente gratuito, no seu bairro de origem, e privilegiando as fronteiras vizinhas com Rocha Miranda, Marechal Hermes, Bento Ribeiro, Coelho Neto, Guadalupe e Barros Filho.

Esta parte alcança uma catarse genuína e faz com que todos os participantes em frente (e atrás) das câmeras se debulhem em lágrimas verdadeiras – e não de crocodilo, sem trocadilho com os jacarés dos quais anda se falando muito nas redes esta semana… Tanto é que sobra até para quem está assistindo, como este que vos escreve, não podendo negar a emoção coletiva com que todos do lado de cá se juntaram ao choro. Talvez esta seja a verdadeira metáfora que se desejava alcançar desde o princípio. Portanto, não estou maluco na minha tese, e a série consegue sustentar a sua gracinha, parafraseando Jojo Todynho.

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Filippo Pitanga

Jornalista e advogado, crítico, curador e professor de cinema

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