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09 de maio de 2019, 06h00

Fabiana Cozza canta Dona Ivone Lara, homenagem de uma rainha para outra

No álbum "Canto da Noite na Boca do Vento", Fabiana Cozza se atreveu com, além de ousadia e talento, uma criatividade sem fim, onde propôs releituras ao mesmo tempo inusitadas e reverentes às obras

(Foto: Divulgação)

O grande lançamento do ano até aqui por essas plagas é, sem dúvida alguma, o álbum “Canto da Noite na Boca do Vento”, onde a cantora Fabiana Cozza canta canções de Dona Ivone Lara. Logo ela, que acabou desistindo de interpretar a compositora e intérprete no musical “Um Sorriso Negro”, após ser acusada de não ser preta o suficiente.

Foto: Divulgação

Desde que foi escolhida, ativistas do movimento negro vinham criticando o fato de Fabiana, como parda, ter aceitado o papel. “Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar ‘branca’ aos olhos de tantos irmãos”, afirmou, em carta publicada em sua página no Facebook.

O fato é que se não era “suficiente” para o papel, Fabiana sobrou no álbum em todos os sentidos. Dona Ivone Lara já foi gravada e regravada o bastante, além de magistralmente por ela mesma, por outros grandes nomes, para virar um grande risco qualquer atrevimento a quem se atira sobre sua obra, sobretudo em um álbum inteiro.

Fabiana Cozza se atreveu com, além de ousadia e talento, uma criatividade sem fim, onde propôs releituras ao mesmo tempo inusitadas e reverentes às obras. Quase nada soa como nos acostumamos a ouvir nos sambas de Dona Ivone. Ao mesmo tempo, estão todos ali, intactos e lindos, de cara nova.

Alguns poucos instrumentos de percussão e a predominância do violão de Alessandro Penezzi, deixam os sambas quase que por conta da cantora, que reina absoluta. Sua voz está mais precisa do que nunca. Algumas poucas canções conhecidas e diversas pérolas redescobertas cobrem o álbum de beleza e novidades.

A própria “Alguém me Avisou”, uma das mais famosas, ganhou uma bela desconstrução onde, ao lado de Maria Bethânia, numa delicadeza sem fim e grande requinte instrumental, o samba de roda se espalha de maneira sutil e íntima entre as lindas vozes.

O desfiar de belezas não para. Outro dueto, desta vez com o cantor Péricles, faz que quase cai no samba e permanece assim mesmo, pequenino e imenso, quase tímido na composição feita em parceria com Arlindo Cruz. Outra linda e elegante participação ficou por conta do saxofone de Nailor Proveta, em “A Dama Dourada”, de Dona Ivone e Hermínio Bello de Carvalho.

O álbum segue de maneira tal que o ouvinte incauto é capaz de sentir, a princípio, uma certa frustração por não ouvir o sambão tradicional a que sempre foi ligada a compositora. Qual nada. Assim que se deixa levar pela imensa beleza e reverência com que as composições foram tratadas, tudo vira encanto.

Mas tudo bem. Uma quase recompensa chega ao final, com o surdo, tamborim e cavaco na introdução do clássico “Os Cinco Bailes Da História Do Rio”, parceria com Silas de Oliveira e Bacalhau. O trio segue só, até o final, ao lado da divina interpretação de Fabiana Cozza. Algo de perder o fôlego.

A cantora se despede em alto estilo com “Bodas de Ouro”, parceria com Paulo César Pinheiro: “O samba me deu muito mais do que eu quis/O samba me fez bastante feliz/Até Bodas de Ouro com o samba eu já fiz”.

“Canto da Noite na Boca do Vento” é homenagem de uma rainha para outra.


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