A “famiglia” Bolsonaro e Angra dos Reis: a agonia de um paraíso natural

Celebrando o Dia de Reis, e o 520º aniversário de Angra dos Reis, a Fórum Folia relembra o desfile da Renascer de Jacarepaguá em 2002

Por Estevan Mazzuia *

6 de janeiro de 1502. Guaianás, Tupinambás. Tamoios e Carijós são incomodados pelos invasores portugueses, liderados por Gonçalo Coelho. Aliados de piratas franceses e ingleses que extraíam o pau-brasil, os índios resistiram aos portugueses até que, em 1556, estes passam a colonizar a região, a partir do que inicialmente se denominou Vila Velha, depois Paróquia dos Santos Reis Magos e, finalmente, Angra (sinônimo de “baía”) dos Reis (por ser Dia de Reis).

A cidade, uma das mais antigas do Brasil, cresceu como rota de exportação de produtos oriundos de Minas Gerais e São Paulo, sendo o Engenho de Bracuhy, cujas ruínas ainda podem ser contempladas, uma das testemunhas desse tempo profícuo.

Após um período de ostracismo, o comércio de café e banana voltou a movimentar seu porto. Na esteira do progresso vieram o Estaleiro Verolme, as Usinas Nucleares, o Terminal da Petrobrás e a rodovia BR-101, ligando Santos e Rio de Janeiro.

Hoje, a cidade tem uma das mais antigas Festas do Divino Espírito do Santo no Brasil, com a Dança das Jardineiras, a Dança dos Velhos, a Dança dos Lanceiros e a Dança dos Marujos, e um carnaval agitado por blocos tradicionais e escolas de samba. Outras importantes celebrações e lendas compõem o folclore local: o jongo, as pastorinhas, a quadrilha junina, a cana-verde portuguesa, o moçambique, o cateretê, a tonta, o caranguejo, a ciranda, o boitatá, o saci-pererê, o São Longuinho, a mãe-do-ouro, a mula-sem-cabeça e o lobisomem…

São 365 ilhas, uma para cada dia do ano, com duas mil praias, e uma vegetação de Mata Atlântica rica em madeira de lei, como o jacarandá.

A história, a cultura e a beleza de Angra dos Reis, em seu quinto centenário, foram tema da Renascer de Jacarepaguá no carnaval de 2002. Com o enredo “Dos dias de reis, aos contos históricos dos 500 anos de Angra”, desenvolvido pelo carnavalesco Sandro Gomes, a agremiação da zona oeste carioca foi a sétima a desfilar na noite de 12 de fevereiro, terça-feira gorda de carnaval, pelo grupo B, equivalente à terceira divisão.

Composto por Melo, Gilmar, Gilberto e Ricardo, e puxado por Antônio Carlos, o refrão do samba dizia:

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“Sacode, balança, quero amar você / Teu clima me faz ‘Renascer’

Parabéns, parabéns / 500 anos de puro lazer”

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Com 192,2 pontos, a escola terminou apenas em 8º lugar, em meio a 12 concorrentes. O sonhado acesso ao segundo grupo era adiado, e viria somente em 2004.

Fundada em 2 de agosto de 1992, a escola teve Paulo Barros como carnavalesco, e chegou a desfilar no grupo especial em 2012, homenageando Romero Brito, mas acabou amargando o último lugar e retornou ao grupo de acesso, no qual permaneceu até 2020, quando, após mais um rebaixamento, voltou à terceira divisão, atualmente denominada Série Prata.

Passados 20 anos daquele desfile, Angra chega ao seu 520º aniversário vendo ser constantemente ameaçado o que lhe resta de belezas naturais. Jair Bolsonaro, o entreguista, sonha em fazer do local uma espécie de “Cancún” brasileira e, de quebra, valorizar seu humilde sobrado na Vila Histórica de Mambucaba.

De suas andanças por Dubai, o “desprezidente” trouxe a suposta promessa de um xeique investir R$ 1 bilhão para transformar a cidade em uma atração turística internacional.

Para tanto, Bolsonaro, que já foi multado por pescar irregularmente na cidade, luta contra as leis de proteção ambiental que, na sua retrógrada e parca concepção de mundo, são um obstáculo ao progresso. O fiscal que o multou foi exonerado em 2019, pouco depois de Jair assumir a Presidência da República.

Seu filho 01, o Flávio, conhecido por promover rachadinhas em seu gabinete e por ser proprietário de uma loja que chocolates que fatura como nenhuma outra, em dinheiro vivo, pretende flexibilizar os parâmetros da Estação Ecológica de Tamoios, na baía de Ilha Grande, que proíbem atividades como mergulho, navegação e pesca na região, rica em espécies ameaçadas de extinção. A “famiglia” também trabalha para conseguir ampliar o aeroporto local.

A relação da “famiglia” Bolsonaro com a cidade de Angra conta com uma inesquecível personagem, a “Wal do Açaí”, funcionária-fantasma do gabinete de Jair, na Câmara dos Deputados. Candidata à vereadora, com apoio de JB, nas eleições de 2020, Wal teve apenas 266 votos, e sequer conseguiu a suplência.

O Brasil poderia ser um grande polo de turismo ecológico mundial. Aliás, o Brasil poderia ser um grande polo turístico mundial, se fosse governado com um pouco mais de seriedade.

Jair tem ódio a absolutamente tudo que não possa ser convertido em dinheiro fácil. Se não fosse tão desprovido intelectualmente, perceberia que tem uma mina de ouro em suas mãos, e que a preservação ambiental poderia ser usada a favor de seus próprios interesses.

É esperar muito de um ser que só expele ódio e ignorância por suas ventas.

Vida longa a Angra dos Reis e à Estação Ecológica de Tamoios.

Vai passar.

P.S. a Fórum Folia desta semana é dedicada às vítimas das chuvas no sul da Bahia e norte de Minas Gerais.

*Estevan Mazzuia, o Tuta do Uirapuru, é biólogo formado pela USP, bacharel em Direito, servidor público e compositor de sambas-enredo, um apaixonado pelo carnaval.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.