Feitiço Mineiro, tradicional boteco de Brasília, sucumbe à pandemia e fecha suas portas

Lembro aqui texto que escrevi na época em que Jorge Ferreira, dono do Feitiço, nos deixou. Uma pequena homenagem aos amigos, a um tempo e a um lugar inesquecíveis

O Feitiço Mineiro, tradicional boteco de Brasília, não aguentou o baque da pandemia e vai fechar suas portas. O local é uma lenda, tanto para os que moraram na capital federal quanto para os que por lá passaram.

O Feitiço conseguiu resistir à morte do Jorge Ferreira, a alma do boteco, em 2013. Durou ainda sete bons anos. A pandemia, no entanto, foi devastadora, e o simpático local da quadra 306 Norte não aguentou.

Lembro aqui texto que escrevi na época em que o Jorjão nos deixou. Uma pequena homenagem aos amigos, a um tempo e a um lugar inesquecíveis. Segue abaixo:

Alguém já disse uma vez que os bares são a alma de uma cidade. E os bares são feitos por gente, logo as gentes são a alma da mesma. As gentes que frequentam suas mesas e cadeiras, amam, bebem e matam a sua sede de esperança. Há, sobretudo e também, aquela gente que inventa os bares, dá cor às suas prateleiras e pratos e promove a sua música. Estes, por bem ou mal, viram um pouco os donos das nossas almas tão entregues.

Em Brasília, capital federal do país, não é tão diferente. Quem chega por lá de bate pronto para descobrir onde a cidade se revela, nem adianta ir tentar em seus lindos palácios governamentais e casas legislativas. O melhor mesmo é mergulhar em seus bares. E, dentre uma variedade imensa deles, assim como os palácios são de Niemeyer, seus grandes bares são do Jorge Ferreira, o Jorjão, como é manjado por todos.

Mineiro, de Cruzília, torcedor roxo do América, poeta, contador de “causos”, apaixonado por música e gastronomia, Jorjão sempre foi o amigão de todos. Participou de 12 bares da cidade, todos eles, à sua maneira, lendários. O mais famoso, sem dúvida alguma, é o Feitiço Mineiro, único com música ao vivo. Por conta disso, dizia que era o seu filho drogado. O que dava mais problemas e prejuízos e que, por isso mesmo, o que lhe tomava mais atenção e carinho.

Ali, no Feitiço, fez mais de dez mil shows de uma grande constelação da música brasileira, além, é claro, da fina flor musical da cidade. Espremeu multidões para ouvir artistas como Beto Guedes, Dércio Marques e Xangai, Noca da Portela, Baden Powel, Tadeu Franco, Dona Yvone Lara, Paulinho Pedra Azul, Tereza Cristina, Nelson Sargento, Elton Medeiros, Naná Vasconcelos, Jards Macalé, Zé Mulato e Cassiano e muitos, mas muitos e muitos outros.

E não pense o leitor que se trata de uma grande casa de shows. O bom é que o Feitiço é um lugar diminuto e simples e, assim como o dono, de coração grande, cheio de ideias, enfim, com alma. A mesma alma da cidade que se fez e formou em pouco mais de 50 anos e em tão pouco tempo foi capaz de abraçar toda a nação.

Num dia sem graça de julho, Jorjão se foi, da mesma forma surpreendente com que sempre chegava. Com a mesma velocidade dos seus sonhos, sempre muito mais rápidos do que a possibilidade de realizá-los, ele partiu com pouco mais de 50 anos e muito ainda por fazer.

Para nós, milhares de viajantes solitários que um dia foram parar na extensa e surpreendente cidade moderna, fica a eterna gratidão pelo abraço, pelo pouso. Jorjão foi o sorriso, a expressão mais amiga de um lugar e um tempo inesquecíveis.

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Julinho Bittencourt

Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.

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