domingo, 27 set 2020
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Glauber Rocha não pousará no aeroporto que leva seu nome

Glauber Rocha não pousará no aeroporto que leva seu nome. Ao menos por enquanto. Ao menos enquanto o prefeito da cidade onde nasceu e passou parte da infância for Herzem Gusmão (MDB), o aliado do presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) que mandou, por pura mesquinharia, arrancar o outdoor de divulgação da inauguração da obra, realizada pelo governo do estado em parceria com o governo federal.

Caminhão retira outdoor em Vitória da Conquista (Reprodução)

Glauber jamais pousará de volta em seu primeiro solo enquanto a burrice e a avareza sondarem o local. Enquanto um presidente descontrolado e preconceituoso estiver por lá, acuado entre tapumes para que não carregue de volta pra casa o eco das vaias retumbantes dos conterrâneos do cineasta.

Nem nas mais delirantes alegorias de Glauber ao retratar a chacina de Canudos em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, tampouco nas idas e vindas da política na fictícia República de Eldorado, de “Terra em Transe”, Glauber poderia supor tamanha demência, enorme avareza.

Terra em Transe, de Glauber Rocha. Foto: Divulgação

Ninguém, absolutamente ninguém da parte de Glauber, desde a sua filha Paloma até o governador da Bahia, Rui Costa (PT), nem os vereadores da brava cidadela encravada entre a caatinga e a zona da mata pousarão no local. Ao menos por ora.

O voo de Glauber é muito mais alto e altaneiro. Seu nome carrega um outro país, orgulhoso de si. Um Brasil irrequieto e transformador que, por este breve e triste momento da sua turbulenta história, se desconhece.

Glauber Rocha poderia, neste exato instante, quase 40 anos depois da sua morte, pousar em qualquer parte do planeta. A comissão de frente de sua obra, com seus parangolés, orixás, bachianas e violeiros, o receberia em festa mundo afora.

Qualquer lugar, menos o Brasil de Bolsonaro. O Brasil da demência desmedida. O país mesquinho e avaro que se desconhece e se divorcia de suas obras maiores através de um presidente que, acaso tomasse conhecimento delas, teria horror em tocá-las.

Nada mais irônico do que imaginar o mandatário da meia dúzia de verbos, piadas tolas e mamadeiras de piroca diante de cinco minutos do “Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”. O tempo de Glauber, ícone da primeira metade do século passado, já incendiava o presente e rasgava o futuro, enquanto o Brasil de Bolsonaro nos devolve ao pré-iluminismo escravocrata.

Mas não há de ser nada. O branco e preto fulgurante do solo dos sertões sonhado por Glauber nas lentes de Waldemar Lima já sobrevoou décadas a atropelar a história e seus déspotas. Os imbecis, mais uma vez e sempre, serão varridos do solo agreste do nosso tempo.

Neste dia, pousaremos de mãos dadas com Glauber na pista iluminada de seu aeroporto brilhante.

Julinho Bittencourt
Julinho Bittencourt
Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.