Grupo musical narra Beatles em cordel ao som do forró

O grupo Beatles em Cordel consegue uma divertida e bem elaborada mistura da música do famoso quarteto de Liverpool com a cultura nordestina

Quem achava que não havia mais nada para inventar em torno do repertório dos Beatles, errou redondamente. O grupo Beatles Cordel acaba de unir duas paixões: o forró e, é claro, o famoso quarteto inglês. Mas a coisa não fica por aí. O espetáculo, concebido, dirigido e interpretado pelo cantor e percussionista Rafael Beibi, como o próprio nome indica, é todo ponteado por um lindo enredo contado em versos de cordel.

“…Descobri um forró novo / Meu radinho endoidô / Aqui nesse fim de mundo / Ninguém nunca encontrô / Uma estação em inglês / Mas eu já conto pra vcs / O que meu radinho tocô. Tem um tal de João Eleno / Vocalista dos bendito / Paulo Macarti, Jórgi Réro / E por último um nome esquisito / Chama Ringo o ritmista / E esses são os 4 artista / Desse grupo chamado: Os Brito!…”, descreve trecho do cordel de seu Quité, interpretado pelo ator Giovani Bruno.

Bruno é parceiro de Beibe nos textos do espetáculo. O personagem seu Quité é um poeta matuto de tempos longínquos que é arrebatado por esse som estrangeiro que vem de umas terras “mais longe que Sum Paulo”. Ele ponteia o espetáculo, dando significados ao sentimento das músicas através de poesias a causos.

A banda, composta por excelentes músicos, conta com Rafael Beibi (Vocal, backing vocals, zabumba, ganzá, mineiro, cowbell, blocks, reco-reco); Rafael Virgolino (filho de Enok Virgolino), que é sanfoneiro de berço, compositor, produtor musical e músico com experiência de muitos palcos; o baixista e violonista Matheus Tagliatti, co-fundador da banda Zaíra e músico há 18 anos; o também violonista Alysson Salvador, que trabalha com forró e música brasileira há 20 anos e Guegué Medeiros, percussionista, produtor e educador musical.

O repertório do álbum e espetáculo, que foi viabilizado pelo Edital de Música da Lei Aldir, conta com, pela ordem, Radinho de pilha, Seu Quité, Day tripper, Um help de Dona Socorro, Help, A venda da Leonor (part. Zé Pitoco), Love me do, Aprendi a palavra Lóvi (part. Lucy Alves), All you need is love, Aboio de João Eleno (Part. Sapopemba), Strawberry fields, Juntança, Come Together, O Assum preto e o Blackbird (Part. Bruno Lins), Blackbird, Os Brito, Get Back e Pilha palito.

As canções dos Beatles sãotodas de autoria de John Lennon e Paul MacCartney.

Os textos são extremamente fluidos, engraçados e bem estruturados. Um verdadeiro cordel em ritmo de espetáculo, que conduz o ouvinte de maneira irrecusável pelas aventuras do narrador através das canções.

Os arranjos e interpretações das canções encontraram um excelente meio termo, que talvez seja dos grandes acertos do álbum. O grupo consegue não se distanciar das gravações originais dos Beatles e, ao mesmo tempo, imprimir uma forte marca brasileira, nordestina às canções. Trocando em miúdos, o que se ouve é Beatles, mas também é forró.

Quem puder assistir ao espetáculo, leva vantagem sobre o álbum. A postura cênica, o bom-humor e a excelente atuação de Giovani Bruno colaboram e muito para o todo. Beatles Cordel consegue o feito de ser extremamente original a partir de uma manifestação ancestral, o forró, e de outra que já conta com bem mais de meio século.

Um achado muito bem realizado.

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Julinho Bittencourt

Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.