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15 de fevereiro de 2019, 21h38

Juçara Marçal, onde sempre esteve: na resistência. “Agora ainda mais”

A atriz cantora e compositora, que está em cartaz em São Paulo com a peça “Gota D’Água (Preta)”, de Chico Buarque e Paulo Pontes, no mesmo papel que foi eternizado por Bibi Ferreira, falou com exclusividade à Fórum

Foto: Sérgio Aires

A cantora, compositora e atriz Juçara Marçal é uma artista quase indecifrável. Com múltiplas facetas, foi capaz ao longo de sua carreira de, ao mesmo tempo, interpretar armações vocais harmoniosas com o grupo Vésper, cocos e maracatus com o grupo A Barca e cantar heavy metal com toques de candomblé ou vice e versa no grupo Metá Metá. Tudo isto com uma espantosa e vigorosa veia para a vanguarda, para o novo, a busca e a pesquisa.

Em nova faceta, a de atriz, Juçara acabou de estrear o espetáculo “Gota D’Água (Preta)”, onde vive a Joana, este que foi o grande papel da vida de Bibi Ferreira, por coincidência na mesma semana em que a atriz morreu.

A multiartista, que está em um grande momento da sua carreira, apesar de não parecer nem um pouco preocupada com o sucesso, conversou com a Fórum, contou como foi a estreia, falou sobre o processo de montagem e afirmou que vai continuar onde sempre esteve: na resistência. “Agora ainda mais”.

Foto: Divulgação

Fórum – Como foi a estreia da Gota D’água (Preta)?

Juçara Marçal – Foi muito emocionante. Mostrar o resultado de um trabalho depois de seis meses de ensaio, isso sem contar o tempo em que ficamos estudando, refletindo, nos debruçando sobre o texto e suas várias leituras. Esse estudo aconteceu desde o ano passado. Participava desse grupo inicial o Jé, Salloma, Walter Garcia e eu.

Fórum – Este espetáculo traz vários elementos que entraram na pauta com muito mais frequência hoje do que na época da sua estreia, em 1975, como a questão da mulher e da indústria cultural. Vocês inseriram nesta montagem a questão do racismo. Comenta, por favor, essa mudança.

Juçara Marçal – O que essa montagem evidencia é algo que já está de certa forma dito no texto, mas que nunca havia sido realizado. É de se supor que a “Vila do Meio-Dia” seja um lugar de forte presença negra. Se as personagens são pobres e macumbeiras, será correto e coerente imaginar que serão também pretas, já que são esses os marcadores sociais e históricos da maioria da população brasileira. Então, o fato do nosso elenco ser formado predominantemente por negros faz com que as questões levantadas no texto sejam adensadas. E a nossa montagem, creio, faz isso de maneira muito bela e consistente. Do ponto de vista das contextualizações e também esteticamente. Além disso, a força da mulher negra, sobretudo, está colocada de uma maneira muito vigorosa, proporcionando muitas camadas de reflexão.

Foto: Divulgação

Fórum – Vocês usam na montagem, além da música original de Chico Buarque, outras mais modernas de Hip Hop, como os Racionais, entre outros. Como é o diálogo entre essas duas linguagens?

Juçara Marçal – É um diálogo muito potente. E que dá relevo às referências, diversidades e complexidades relacionadas à música brasileira, colocando Chico pra uma troca riquíssima com a música do povo preto periférico de São Paulo e, é possível dizer, do Brasil.

Foto: Thiago Roma

Fórum – Você interpreta a Joana, papel que foi de Bibi Ferreira, que é considerado um dos maiores triunfos da história do teatro brasileiro. Você sentiu algum desconforto com isso? A propósito, você assistiu a montagem com a Bibi?

Juçara Marçal – Nenhum desconforto. Só honra. Não, não assisti à montagem com a Bibi. E agora que ela se encantou, fico ainda mais honrada com a possibilidade de mergulhar nessa personagem tão intensa feita pra ela e vivida por ela.

Fórum – Por falar nisso, o Chico Buarque já foi ver o espetáculo? Ele teve alguma ingerência em algum momento da realização?

Juçara Marçal – Não. Nenhuma ingerência. Soubemos que ele gostou da proposta da encenação e quer assistir.

Foto: Luan Cardoso

Fórum – Você faz várias coisas ao mesmo tempo e coisas bem distintas. Foi cantora da Barca, grupo voltado para a cultura popular; canta no Metá Metá, que tem chamado bastante a atenção com uma linguagem forte, moderna. Agora está em cartaz com a peça. Como todas as linguagens conversam e se organizam dentro de você?

Juçara Marçal – Uma alimenta a outra. O Metá Metá é um trio formado por mim, Thiago França e Kiko Dinucci.

Fórum – Parece que finalmente a sua carreira decolou, não? Já há alguns anos que você é uma artista reconhecida, com prestígio e respeito. E isso parece que vai se chocar em um momento que tudo está contra. O que te aflige e o que te liberta com relação a isso tudo?

Juçara Marçal – O fato de nunca ter me preocupado em “decolar”. Faço meu trabalho sempre de forma independente, ou seja: livre, no que isso tem de bom e ruim. Vou continuar assim, na resistência. Agora ainda mais.

Serviço: Gota d’Água {Preta} [com interpretação em Libras]
sexta 8 a domingo 17 de fevereiro de 2019
quinta 14 | 20h
sextas 8 e 15 | 20h
sábados 9 e 16 | 20h
domingos 10 e 17 | 19h

[duração aproximada: 150 minutos, com intervalo]
Sala Itaú Cultural (piso térreo) – 224 lugares

Entrada gratuita

distribuição de ingressos
público preferencial: uma hora antes do espetáculo | com direito a um acompanhante – ingressos liberados apenas na presença do preferencial e do acompanhante
público não preferencial: uma hora antes do espetáculo | um ingresso por pessoa

[classificação indicativa: 14 anos]


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