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20 de julho de 2018, 17h49

Laert Sarrumor, do Língua de Trapo: ‘Humor é irreverência, não é agressão”

Laert fala sobre a sua carreira e dos 'haters' da nova geração de humoristas brasileiros. Um grupo que, segundo ele, além de imitar uma tendência americana, não faz humor, mas sim uma violência gratuita e absurda.

Laert Sarrumor. Foto: Divulgação

Laert Sarrumor é o cantor e um dos compositores do Língua de Trapo, grupo musical com um fino repertório de humor e crítica social que surgiu no final da década de 70, na chamada vanguarda paulistana, e segue em atividade até hoje.

Além do Língua, Laert tem diversas outras atividades, sempre ligadas ao humor, como livros, jornais e programas de rádio. Acompanha atentamente a vida nacional, e até mesmo por conta disso, com um faro certeiro e rapidez de raciocínio, conversou com a Fórum sobre a sua carreira, a trajetória do Língua e o fenômeno do surgimento dos disseminadores de ódio da nova geração de humoristas brasileiros. Um grupo que, segundo ele, além de imitar uma tendência americana, não faz humor, mas sim uma violência gratuita e absurda.

O Língua de Trapo reciclado. Foto: Divulgação

Fórum – O Língua de Trapo resgatou, ao lado do grupo Premeditando o Breque, o humor na música brasileira no início da década de 80. Conta um pouco como foi.

Laert Sarrumor – É uma história que eu sempre conto, que é a da nobre linhagem do humor com música ou vice e versa. Isso existe desde que tem música no Brasil. Os primeiros sambas do Donga, Sinhô, já tinham esse espírito jocoso, engraçado, malandro de se colocar. Aí vem o Noel Rosa, as marchinhas do Lamartine Babo, Almirante, Jararaca e Ratinho, Moreira da Silva, Adoniram Barbosa e vem vindo. Todos já tinham esse viés do humor. Tinham as coisas mais dramáticas, como o Vicente Celestino, e tinham as coisas engraçadas. Aí, nos anos 70 você já tem Raul Seixas com algumas coisas engraçadas, a Rita Lee. E aí têm dois que são nossos tios, que nós nos espelhamos muito neles, que são o Joelho de Porco e os Mutantes. São duas bandas emblemáticas que assumiram mesmo o humor no trabalho, principalmente o Joelho.

Fórum – E aí vocês aparecem.

Laert Sarrumor – O que diferencia o Língua e o Premê é, como a gente veio nesse bolo da chamada vanguarda paulistana, que tinha Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Rumo, a gente era a parte engraçadinha da turma. Então, dessa efervescência cultural que teve aí nesse período do finalzinho dos anos 70 pro começo dos 80, foi essa coisa de abrir pra todos os ritmos. O Noel era engraçado, mas era sambista, o Joelho de Porco era rock, Alvarenga e Ranchinho era música caipira e, quando chegou na gente abriu esse leque de possibilidades musicais. Isso foi uma coisa que começou a partir da gente. Você pega um LP da gente e tem desde música caipira até disco music.

Fórum – E tinha a performance de vocês, né?

Laert Sarrumor – Isso. Outro elemento que a gente acrescentou forte foi a teatralidade. A gente trocava de figurinos nas apresentações, os sets humorísticos entre as músicas e a multilinguagem que a gente adotou. A gente usava rádio, vídeo, o jornal Matraca, a gente tem até hoje um programa de rádio, que é a Rádio Matraca, a gente é um grupo multimídia de humor.

Fórum – Vocês faziam também a sátira política, mas com relação ao que se faz hoje é uma coisa menos agressiva.

Laert Sarrumor – O fato da gente fazer a sátira política se deveu muito à gente ter nascido nos corredores de uma faculdade de jornalismo, a Cásper Líbero, em São Paulo, no apagar das luzes da ditadura e na abertura política. Foi quando começou a se poder falar as coisas, que até então não se podia falar nada, na distensão do governo Figueiredo. Como a gente era muito jovem, não tinha vivido na carne a ditadura, a gente chegou chegando. A gente ia até o limite.

Fórum – Vocês tiveram problema com a censura?

Laert Sarrumor – Sim, muito. A gente teve muitas músicas censuradas. Quase tudo (risos). E a gente teve problemas com a TFP (Tradição, Família e Propriedade). A gente tinha o samba enredo da TRP, que tava na cara que era TFP e os caras vieram tirar satisfação, passava um carro e jogava ovos nas filas dos shows da gente. A gente acredita que era esse pessoal de direita. Mas nada muito grave.

Fórum – Foram muitas canções com esse tema, né?

Laert Sarrumor – No primeiro disco, o azul, os temas eram basicamente políticos. Tinha “O Que é Isso, Companheiro”, sobre a volta dos exilados e o livro do Gabeira, o “Xote Bandeiroso”, que é a história do Lula, “Romance em Angra”, que fala das usinas nucleares, “Xingu Disco”, que fala sobre a questão dos índios, é um disco bem político.

O disco azul do Língua. Foto: Divulgação

Fórum – Vocês faziam uma sátira à esquerda. Hoje você tem uma sátira à direita também, que faz coisas preconceituosas, racistas, misóginas. O que você acha desse pessoal novo?

Laert Sarrumor – Olha, você não pode confundir irreverência com agressão. Você não pode confundir deboche, humor ácido, cáustico com grossura, agressão, preconceito, mau-gosto, ofensa. É uma linha tênue, você pode resvalar de um lado pro outro, você fica meio na corda bamba, trabalhando com humor mais irreverente você pode resvalar pra uma coisa que soe preconceituosa, mas a intenção sempre vai ser de questionamento nas pessoas. O humor nunca é a favor. Ele sempre vai é contra. Se você faz uma caricatura de alguém, ela vai ressaltar se a pessoa é nariguda, orelhudo, careca. Vai ressaltar um defeito e não uma qualidade. A lente do humor amplia as mazelas. Mas se você faz isso com uma postura do bem, com um viés mais consciente, com conteúdo, é uma coisa. Se você faz pra esculhambar, pra tirar sarro de preto ou de pobre ou de judeu aí você está sendo leviano, vulgar. Aí reside a linha que separa as duas coisas. Não existe assunto tabu. Você pode falar de negro, machismo, você pode falar de tudo, mas como você aborda o assunto e fica implícito o que você tá falando, ai é que está a diferença.

Fórum – Vocês alguma vez perceberam ou foram chamados à atenção que passaram desse limite?

Laert Sarrumor – A gente teve um problema sério com uns paraguaios. Era uma música do César Brunetti, que já faleceu, que a gente cantava que chama “Tudo para o Paraguai” e, de repente, um grupo de paraguaios viu um vídeo e desceu a lenha, de uma forma muito agressiva.

Fórum – Mas a música era preconceituosa, você hoje faz um mea culpa?

Laert Sarrumor – Nada que tinha na letra era mentira (risos). Mas os caras se morderam. Dizia assim: “Um vídeo de 4 cabeças você encontra no Paraguai, Um Ballantines 12 anos é feito num mês só no Paraguai, Carros roubados são encontrados lá no Paraguai, Nada existe mais falso que um brasileiro cantando em paraguaio”, é uma guarânia e aí tem um refrão: “Contrabando vem, Contrabando vai, A gente vai levando, carregando tudo, Lá do Paraguai” (Risos).

Fórum – Mas não tem preconceito aí.

Laert Sarrumor – Não, é uma sátira aos sacoleiros e não à nação paraguaia.

O Língua canta “Tudo para o Paraguai” no programa da Hebe Camargo, em 1996

Fórum – Olha, eu sei que no Língua tem tudo o que é vertente política entre os componentes da banda. Essa discussão existe dentro da banda?

Laert Sarrumor – A gente tem caras de direita mesmo na banda, desses que ficam brigando na internet (risos). Mas, na hora de subir no palco é o Língua. Eles não trazem isso pro trabalho. As músicas que eles fazem são inteligentes, pertinentes e não são preconceituosas. E é isso que importa. Eu é que sempre imprimi ideias políticas minhas nas músicas. Eles nunca fizeram e é por isso que a gente convive pacificamente (risos).

Laert em ação. Foto: Divulgação

Fórum – E esses caras que fazem esse tipo de humor preconceituoso, que estão cada vez mais em evidência hoje, o que você acha?

Laert Sarrumor – Olha, esses caras não nasceram ontem. Isso aí uma vertente que, quando a gente começou, eu costumava chamar esse tipo de coisa de humor FM, que se fazia nas rádios FMs, que sempre foi grosseiro, preconceituoso. Era um humor de playboy, de burguês, como esses caras são, que ouvem FM, rádio de sucesso, música de baixa qualidade. O humor que eles produzem era compatível com o veículo. E esse tipo de humor que se fazia, desde os anos 80, com raras e honrosas exceções, como o Serginho Leite, por exemplo, que era um oásis de bom gosto e era muito bom, esse humor era de direita. Isso aí veio vindo. E aí veio essa coisa de stand-up, que a maior crítica que eu faço é que isso é importado dos Estados Unidos. Esse humor agressivo de xingar, de esculhambar com etnia, eu ficava horrorizado quando via isso em filme e aí chegou aqui. Eu acho um humor horrível, eu não gosto. Eles se acham inteligentes, mas isso não me diz nada, é agressivo. Existe uma grande diferença entre você ser agressivo e irreverente.

Fórum – O grande problema é que essas coisas, esses humoristas disseminam ódio, não é?

Laert Sarrumor – Eu acho que o buraco é mais embaixo. Um show, um programa de rádio ou mesmo um programa de TV não teria esse poder todo de disseminar ódio quanto têm as redes sociais. As grandes disseminadoras de ódio são as redes sociais. Isso aí é um barril de pólvora.

O Língua em uma de suas formações. Foto: Divulgação

Fórum – Mas você tá culpando o meio em vez da mensagem e do seu autor.

Laert Sarrumor – Mas o meio neste caso traz certas comodidades, como o anonimato. Eu encontro vários caras que falam mal de mim na internet e quando me encontram dão tapinha nas costas. Eles acham que ali estão protegidos, que na internet se pode tudo, que é liberdade de expressão. É coisa nenhuma, isso não é liberdade de expressão, é disseminação de ódio. É uma violência gratuita e absurda.

 


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