Leoni conversa com a Fórum sobre nova parceria com Zélia Duncan

Canção “Sobre Esses Dias” é um belo e cáustico retrato sobre a pandemia que tem a produção de seu filho, Antônio Leoni

O cantor e compositor Leoni lançou, nesta sexta-feira (28), em todas as plataformas por demanda, o single “Sobre Esses Dias”, em parceria com Zélia Duncan. Com um clima um tanto sombrio, em tradução perfeita destes tempos de pandemia e recolhimento, letra e melodia se encaixam em uma beleza rara e incomum.

Leoni contou, com exclusividade à Fórum, que “a canção foi composta na subida da primeira onda, entre maio e junho do ano passado. A gente não podia imaginar que fosse acontecer toda essa loucura. Então ela tem um tom mais melancólico, um pouco de raiva, de esperança, aquela perplexidade de não saber o que tava acontecendo”.

O compositor considera ainda que a letra seria outra se ele e a Zélia pudessem adivinhar o que viria. “Se soubesse que ia ser essa violência do governo, esse negacionismo violento, essa politização da morte, a gente teria feito outra canção. Ainda bem que a gente não sabia e pôde compor a música do jeito que ela ficou, que era só aquela coisa de olhar pela janela e não ver nada. Só as pessoas dentro de casa. Se tivesse continuado assim tinha sido outra situação do Brasil”.

Composta a partir de mensagens trocadas por Leoni e Zélia Duncan em abril de 2020, a canção oscila entre o otimismo e a desolação. O belo verso: “Nada pra segurar, só o amor pra nos salvar do caos, um abrigo pra resistir e aprender a começar do fim” é arrematada pelo pequeno refrão que faz uso duplo da palavra “sobre”: “Mas o sol sobre esses dias, sobre nós”.

A produção, assinada por Antônio Leoni, filho de Leoni que também fez a mixagem e masterização, é quase uma parceria que veste os versos de Zélia com exatidão. O mesmo para a capa de Laura Chaves. Um lindo desenho que nos coloca enredados dentro do próprio isolamento.

Capa de Laura Chaves

A massa sonora formada por teclado, guitarra e as programações do produtor também oscilam, ao lado das palavras e melodia, entre o bem-estar, o aconchego e a solidão. Um final falso, meio beatle, parece querer dar à tensão da canção o sentido do recomeço ou, o que ainda é pior, o horror da segunda onda, como define o próprio autor.

Leoni afirma que acha “bacana que essa subida no instrumental, depois de tudo, que tem o fade out e o fade in, que entra o instrumental, mas é mais violento, é quase como se fosse uma premonição dessa segunda onda, que a gente não sabia na época, que ia rolar. Mas isso foi acrescentado depois, na hora de fazer o arranjo, então a gente já sabia um pouco disso”.

Ao final, confessa sua preferência por certos trechos da letra: “tem uma coisa da letra que eu gosto particularmente é que, hoje, se o futuro passou, que junta: ‘hoje já não tem mais futuro’, não dá pra programar nada, né? É o fim do futuro. E acho que essa talvez seja a coisa mais agoniada, mais desesperadora. É que além de ser tudo muito trágico, de dar muito medo, a gente não tem ideia do que é o futuro”, explica. “Não dá pra ter esperança no futuro, então acho que a música fala um pouco da esperança que a gente sempre tem, mas por outro lado nada na realidade dá indícios de que essa esperança tenha algum fundamento”, encerra.

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Julinho Bittencourt

Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.