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25 de maio de 2020, 17h13

Luciana Sérvulo da Cunha fala sobre arte, engajamento e as “Mulheres à Frente da Tropa”

A diretora do novo clipe da banda Ira!, que homenageia Marielle Franco, Dandara e Preta Ferreira, conta sobre a realização do filme que tem entre seus maiores méritos não parecer um videoclipe

Foto: Reprodução

Acaba de ser lançado o clipe da canção da banda Ira! “Mulheres à Frente da Tropa”, composição do guitarrista Edgard Scandurra que homenageia, entre outras, as brasileiras Marielle Franco, Dandara e Preta Ferreira.

Em uma sucessão de imagens mágicas e engajadas, quase todas feitas na Ocupação 9 de Julho, no centro de São Paulo, o clipe tem vários méritos. Um deles, talvez um dos maiores, é não ter a menor cara de videoclipe.

A mulher à frente da empreitada é a diretora Luciana Sérvulo da Cunha, autora, entre outros, do longa “Hijos de La Revolución”. Uma artista singular que, como ela mesma faz questão de revelar, se entrega de corpo e alma às suas três paixões: a arte, a militância e a espiritualidade.

Aqui, ela conta para a Fórum sobre todo o processo de feitura do clipe, o primeiro de sua vida, e também um tanto sobre a sua obra.

Fórum – Como foi o início do projeto do clipe da canção da banda Ira!, “Mulheres à frente da tropa”?

Luciana Sérvulo da Cunha – Eu e o Edgard (Scandurra) somos amigos de batalhas desde a luta pelo Parque Augusta, em São Paulo. Ele também fez a trilha do meu filme “Hijos de Lá Revolución”. Nós fazemos parte de um mesmo grupo de artistas e um dia ele compartilhou a canção e falou: ‘olha, acabei de compor e dedico a vocês, a mulherada guerreira desse grupo’. E todas ficaram loucas. Quando eu ouvi, já conseguia visualizar várias coisas. E nós falamos sobre a música. Ele já havia dito no grupo que queria fazer um clipe. Aí eu falei: “pronto!” E aí eu estava no Rio de Janeiro, morando lá e vim pra São Paulo e nós fomos tomar um café e conversamos sobre o clipe e foi muito engraçado, porque ele começou a viajar e eu ria muito. Pra ele só faltava uma câmera no cosmos, filmar as galáxias e eu perguntei: “quantos milhões a gente têm pra fazer?” E ele disse: “não, não temos nada”.

Fórum – E como foi resolvido isso?

Luciana Sérvulo da Cunha – Ah, ele me disse: “eu vou passar um chapéu entre os músicos da banda, vamos ver se a gente junta um dinheiro e vamos fazer, você topa?” E eu topei. Achava que era muito relevante nesse momento em que as minorias estão sendo massacradas, os jovens negros das periferias, os trans, os homossexuais e as mulheres negras e brancas. Um momento em que você tem um presidente que fala pra uma deputada que ela só não merece ser estuprada porque ela é feia e, com esse exemplo, desde então, com esse incentivo, esse estímulo, os números de estupros e feminicídios aumentaram muito no país e continuam aumentando. Então a gente considerou muito necessário esse projeto e daí resolvemos fazer.

Fórum – E como foi daí em diante?

Luciana Sérvulo da Cunha – Eu comecei a juntar uma turma da pesada pra colaborar, participar e foi tudo do zero. Foi o meu primeiro trabalho em São Paulo, eu tava no Rio há muitos anos. Todas as pessoas que trabalharam ganharam um cachê simbólico, inclusive eu. E muitos fizeram como voluntários, sem ganhar absolutamente nada. Todos trabalharam pela relevância do projeto e pela lindeza da música.

Foto: Reprodução

Fórum – Você já tinha feito algum videoclipe?

Luciana Sérvulo da Cunha – Não, é meu primeiro.

Fórum – Nesse clipe você assina o roteiro com o Edgard, né? Como foi isso?

Luciana Sérvulo da Cunha – Quando nós conversamos e foi resolvido fazer o clipe eu disse a ele: “olha, eu não gosto de clipe” (risos). Ele ficou desesperado e me disse que é um clipemaníaco. Aí eu disse que não gosto do formato tradicional de videoclipe. Não gosto quando aparecem os cantores cantando, eu acho que fica um pouco artificial e me parece que o clipe quer contar a música em imagem. E a música, pra mim fala por si, ela se basta. Então eu falei pra ele que gostaria de fazer no formato de um curta metragem, de um filme, que é o que eu faço, o que eu gosto. Ele ficou um pouco inseguro, mas nessa altura do campeonato eu já tava começando a formar uma equipe de mulheres, só mulheres. Então nós fizemos uma reunião na casa dele que só tinha mulher, ele era o único homem e falou: “olha, eu vou deixar vocês ai, decidam o que quiserem e eu coloquei essa ideia e todo mundo gostou. E então ele escreveu um esboço das ideias que ele tinha. Eu peguei as ideias dele e comecei a escrever um roteiro. E foi o meu primeiro roteiro de ficção.

Fórum – Aparecem alguns painéis e gravuras ao longo do clipe. Eles já existiam, já estavam lá ou foram feitos pro clipe?

Luciana Sérvulo da Cunha – O painel da Marielle já existia, fica na Consolação, em São Paulo. Inclusive ele foi pichado em cima e refizeram. É um grafite. Os retratos que a gente tá utilizando, um deles, da Dr. Nise da Silveira, que foi uma das nossas maiores mulheres à frente da tropa, o primeiro que a adolescente pendura no varal durante o clipe, esse e outros que aparecem, foram pintados por um artista chamado Paolozzi, que por acaso é meu irmão. Tem a Leila Diniz, a Pagu, a Preta Ferreira, a Dandara entre outras.

Fórum – Na gravação da canção o único integrante do Ira! que aparece é o Edgard. Por que?

Luciana Sérvulo da Cunha – Essa canção faz parte do álbum que a banda acabou de lançar e ele só chamou mulheres. Ele faz a voz principal e ele quis chamar um coro de mulheres. Ele não queria que ela fosse cantada por homens.

Fórum – Ele tava incomodado com o lugar de fala?

Luciana Sérvulo da Cunha – Tava sim, ele questionou isso, tava com muitas dúvidas de como isso seria interpretado. Eu coloquei o áudio da música em um grupo de lideranças feministas de todo o país perguntando. Eu achei que fosse ter muitas críticas, mas pelo contrário. Ficou muito claro que é uma homenagem que ele tá fazendo às mulheres, e a canção foi muito acolhida, com bastante calor, foi muito bem-vinda.

Foto: Reprodução

Fórum – E aquele voo que aparece no final, conta como foi feito aquilo?

Luciana Sérvulo da Cunha – Ah, é muito lindo. Esse foi uma das coisas que ele falava assim: “eu queria bailarinas voando”. E eu pensava: “meu Deus do céu” (risos). Então ele falou que tem uma amiga que voa, e não é que ele tinha mesmo. E então ele chamou a Mia (Sandra Myazawa), que é descendente de japoneses e ela é bailarina e faz isso já há um tempo, ela faz acrobacias, ela dança no céu. Então, ela topou participar gratuitamente pela beleza do projeto e pela amizade que ela tem com o Edgard. Ela voa com um guindaste imenso, que trabalha sempre com ela, porque ela não pode voar com qualquer pessoa por uma questão de segurança. Ela já tem uma parceria com esse motorista desse guindaste, que sabe como tem que ser, o tanto que a corda de aço tem que estar apertada. Teve uma logística complicada, aquelas imagens dela voando eu fiz com o drone, que saiu de dentro de um apartamento e encontrou com ela. Tudo isso foi calculado. Ela já teve um acidente com um drone onde ela se machucou. Então foi tudo calculado e feito em um take só. Nós fizemos mais de 25 cenas em três dias, incluindo toda a logística do drone e do voo.

Fórum – E a ideia de fazer na Ocupação 9 de Julho, como foi essa aproximação?

Luciana Sérvulo da Cunha – O Edgard colabora muito com a ocupação. A 9 de Julho virou um centro cultural. Além de uma programação riquíssima, ela tem uma galeria de arte que é uma das mais bonitas e incríveis que eu já conheci. Tem obras de moradores que ocupam lá e de outros artistas. Tem um brechó onde se pode comprar roupas e objetos usados.  

Fórum – Vamos falar um pouco da sua trajetória. Uma coincidência que tem entre esse clipe e o seu longa “Hijos de lá Revolución” é que além dos dois tratarem de música, de arte, tem a política sempre por perto, a militância.

Luciana Sérvulo da Cunha – Eu sou uma ativista de berço. Eu tenho um legado que eu herdei dos meus pais, principalmente do meu pai, eu gosto de política, pra mim a política não e diferente da vida e eu também acho que nós estamos aqui nesse mundo pra tentar melhorá-lo. Eu acho que faz parte lutar pelas coisas que você acredita, não só pelo teu interesse próprio, mas pra gente viver em uma sociedade melhor. Isso faz parte da minha formação e, consequentemente, sempre teve presente na minha carreira, em tudo o que eu fiz. O meu primeiro documentário se chama “Bastidores da Vitória”, que é sobre a vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O meu segundo, chamado “A Rua dos Meninos”, é um média-metragem que foi pra Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, era sobre os moradores de rua do centro do Rio de Janeiro. Então, eu procuro juntar as minhas três paixões na vida, a arte, política e espiritualidade.

Veja abaixo o clipe de “Mulheres à frente da Tropa”:

Veja abaixo “A Rua dos Meninos”:


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