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11 de junho de 2018, 17h23

Marcos Sacramento e Luiz Flavio Alcofra reinventam Aracy de Almeida

As notas do violonista são econômicas, criam a cama para que o cantor se deite sobre as canções como se tivesse nascido com elas impregnadas

Luiz Flavio Alcofra e Marcos Sacramento. Foto: Netinho Albuquerque/Divulgação

Marcos Sacramento é um dos maiores intérpretes contemporâneos do nosso samba. Poucos cantam com a sua malemolência, verve, malandragem, suingue e afinação. É um craque testado e aprovado em seus diversos discos e shows. Não bastasse isso, resolveu abraçar, atendendo ao chamado de Hermínio Bello de Carvalho, a homenagem aos 30 anos da partida de Aracy de Almeida, uma joia do nosso samba.

Como talento pouco é bobagem, juntou-se aos dois, Sacramento e Aracy, o violão de Luiz Flavio Alcofra. O resultado, para espanto geral dos que ainda cultivam o bom gosto, é o lindo disco “Aracy de Almeida – A rainha dos parangolés”.

O álbum é basicamente isto. Além do violão e da voz, aparece uma cuíca na abertura e ponto. Tamanha ousadia faz com que o ouvinte, tanto o já experimentado em Aracy de Almeida quanto o novato, fiquem de queixo caído diante da expressão da mais fina cultura popular carioca.

Aracy, é bom que se lembre, foi consagrada entre 1935 e 1957 como uma das grandes intérpretes da nossa música, se destacando com louvor com o repertório de Noel Rosa. Daí em diante virou, por puro instinto de sobrevivência, a jurada mal humorada dos programas de Sílvio Santos. Mas, até chegar ali, a dama do encantado já carregava uma obra de respeito.

E é justamente este rosário magnífico de canções que Sacramento e Alcofra nos mostram de maneira ousada, partindo para o mínimo, sem grandes orquestras, ritmistas, apenas violão e voz. Em alguns momentos o disco lembra um tanto as versões lançadas em compacto triplo em 1966 por Maria Bethânia para seis canções de Noel, acompanhada apenas pelo violão, segundo consta dos registros, por Carlos Castilho.

Se, naquele momento, Bethânia partia para a modernização que aquelas canções tanto pediam, Marcos Sacramento virou a história do avesso para renovar não só isso, mas também as lições da intérprete original. Sem, em momento algum tentar imitar Aracy, Sacramento nos indica com seu canto o tanto que ela nos deixou, o seu legado na bossa e nas intenções de ritmo e interpretação.

O resultado são releituras vibrantes para clássicos, alguns nem tão óbvios, e muito atuais, como “O orvalho vem caindo” (Noel Rosa e Kid Pepe), “Camisa amarela” (Ari Barroso), “Quando tu passas por mim” (Antonio Maria e Vinicius de Moraes), “Filosofia”, “São coisas nossas” (ambas do Noel), “Onde está a honestidade?” (Noel Rosa e Francisco Alves), e “Ganha-se pouco mas é divertido” (Wilson Batista).

Violão e voz se integram em forma e conteúdo. Sem trocadilho, os sambas se descobrem em feitio de oração, tamanha a integração de intérprete e instrumentista. Tudo se conecta de maneira íntima, fácil, como se viessem do mesmo tempo e espaço. As notas de Alcofra são econômicas, criam a cama para que Sacramento se deite sobre as canções como se tivesse nascido com elas impregnadas.

No final, o ouvinte fica com um sentido amplo de ressignificações tanto das obras quanto, como disse acima, do legado de Aracy de Almeida.

“Aracy de Almeida – A rainha dos parangolés” é, como toda grande obra, carregado de histórias que não se encerram em si próprias e nos levam para ainda mais adiante.


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