No rastro do óleo do Nordeste
10 de setembro de 2019, 22h38

O adeus a Elton Medeiros, um autor imprescindível

Julinho Bittencourt: “Cantou até praticamente o fim. Nunca deixou de viajar, mostrar seus sambas e encantar plateias com as suas interpretações inesquecíveis”

Foto: Reprodução

“Eu não sou famoso, eu sou manjado. Famoso mesmo é o Paulinho da Viola”. Com esta frase, dita como um chiste diante de uma plateia lotada, ao revelar o seu mais fino humor, o cantor e compositor Elton Medeiros talvez tenha dado a melhor definição de si mesmo. O que, talvez por pura modéstia, ele tenha esquecido de dizer é que os seus sambas, para além de “manjados”, estes sim sempre foram muito conhecidos.

Suas melodias têm um viés único que o diferencia de todos os sambistas de sua convivência, alguns um tanto mais velhos e outros mais novos, como Zé Keti, Wilson Moreira, Nei Lopes, Candeias, o próprio Paulinho da Viola entre diversos outros.

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Elton aprendeu ainda bem jovem a tocar saxofone e trombone, traço que foi marcante para a elaboração de suas composições. Ao contrário da maioria dos sambistas, que estruturam suas canções nas harmonias do violão e do cavaco, que traz em si um instinto percussivo, Elton pensava suas frases a partir dos sopros, sobretudo o trombone, seus breques e contrapontos.

Isto talvez explique a beleza e a riqueza melódica, por exemplo, do samba “Pressentimento”, com letra de Hermínio Belo de Carvalho. Construído sobre acordes menores, a canção segue com progressões em crescendo, revelando uma sofisticação pouco comum, mesmo entre os maiores compositores da época.

Uma curiosidade sobre “Pressentimento” é que ela ficou em terceiro lugar na Bienal do Samba de 1968, perdendo para “Lapinha”, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, em primeiro e “Bom Tempo”, de Chico Buarque, em segundo.

A qualidade dos sambas daquele festival pode ainda ser medida pelas que vieram depois. Em quarto lugar ficou “Canto Chorado”, de Billy Blanco, seguida por, nada mais nada menos que “Tive Sim”, de Cartola, e, como se não bastasse, “Coisas do Mundo, Minha Nega”, de Paulinho da Viola.

Esta Bienal do Samba nos revela o óbvio, ou seja, desde o seu aparecimento, Elton Medeiros sempre esteve entre os maiores da nossa canção de todos os tempos. Manteve-se “manjado” ao invés de “famoso” por pura imposição da indústria. Seus sambas sempre decolaram em outras vozes e ouvir um álbum seu é uma surpresa atrás da outra. Tanto pela qualidade das composições, quase sempre bem conhecidas, quanto pela sua malemolência, verve e perspicácia nas interpretações.

Elton Medeiros nos deixou na primeira semana de setembro, aos 89 anos. Cantou até praticamente o fim. Nunca deixou de viajar, mostrar seus sambas e encantar plateias com as suas interpretações inesquecíveis.

Por uma dessas coincidências inexplicáveis, no momento em que nos deixa, “O Sol Nascerá”, uma das canções mais conhecidas e belas de Elton, feita em parceria com Cartola, abre todas as noites a novela “Bom Sucesso”, da Rede Globo. Mais uma vez, não é ele quem canta, mas sim Tereza Cristina e Zeca Pagodinho.

Tudo bem, está bonito e vale pelo banho de otimismo que ela nos deixa.

Ao fim e ao cabo, pouco importa se Elton Medeiros era “manjado” ou “famoso”. Ele sempre foi, e isso é para muito poucos, imprescindível.


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