domingo, 20 set 2020
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O Brasil arrogante, enfadonho e ultrapassado de Nana Caymmi e Jair Bolsonaro

Nana Caymmi, como ela mesma afirma com orgulho, é filha de Dorival Caymmi, um gênio imprescindível da nossa música. A despeito dos seus irmãos, estes sim com notável talento, sobretudo Dori, Nana nunca passou de uma cantora mediana, que sempre transitou pelo que, de maneira antipática, se convencionou chamar ‘MPB de qualidade’.

Neste vago balaio se incluiria pretensamente o seu som. Uma sequência repetida de canções, e samba-canções lentos, repletos de acordes e virtuosismos musicais desnecessários. Um tipo de música que passou a reinar em boates e afins a partir da Bossa Nova que nunca chegou nem perto de ter o seu mesmo significado musical, tampouco a sua intensa e vibrante criatividade.

Não há um só disco, em sua extensa obra, que mude uma vírgula na história da nossa música. Ela não canta nem bem nem mal. Há, entre especialistas, quem diga que ela desafina sobremaneira. Não é o caso de discorrer sobre isso aqui. O fato é que ela é e sempre foi, a despeito de seu timbre de voz bonito, uma cantora medíocre. Alguém que, não fosse pelo nome que carrega, provavelmente não teria a carreira que teve.

Apesar disso, assim como qualquer outro profissional, merece todo o respeito. Assim como também o merecem todos os seus colegas, a quem ela cisma, desde sempre, de destratar, desrespeitar, maldizer e esculhambar sem a menor necessidade.

Decadente e rancorosa, Nana chega ao ocaso disposta a destruir gente inegavelmente genial, como o ex-marido Gilberto Gil, Chico Buarque, Elis Regina e Roberto Carlos. Faz isso disparando farpas até mesmo para a sua sobrinha, a inventiva cantora Alice Caymmi, que, com sabedoria, respondeu decidir exigir respeito e “não esconder o que tanto a machucou”. Dela, Nana disse que esperava que ela viesse pro seu caminho.

Graças aos orixás, a menina escolheu o seu próprio e segue firme construindo a sua trajetória de artista.

Quem é do meio musical sabe o que significa essa arrogância que rege o pensamento de Nana Caymmi. Esse que quer todos ‘no seu caminho’. Uma soberba devastadora que destrói toda e qualquer manifestação musical que não seja regida pelos trocentos acordes e a mesma empáfia de sempre. A tal ‘música de qualidade’, que exclui de maneira classista a música pop, manifestações regionais e intuitivas, o samba de raiz das escolas, a canção caipira entre tantas outras riquezas da nossa cultura.

Tudo vira pó no seu discurso. Tudo que não seja filtrado pelo som anódino, jazzificado e empolado que acompanha o uísque paraguaio e a pipoca murcha das boates mal iluminadas a que a cantora passou a vida relegada.

O raciocínio desrespeitoso, destruidor e arrogante de Nana Caymmi não poderia, de forma alguma, se voltar para outro político que não fosse o presidente Jair Bolsonaro, que ela diz ter votado e insiste em apoiar.

Os dois se encontram no mesmo ponto, na mesma marcha à ré da história onde se abrigam os que decidem por conta própria o que é bom ou ruim, certo e errado. E, uma vez feito isso, do alto de suas infinitas desimportâncias, de suas profundas intolerâncias com a diversidade, admitem qualquer prática ou discurso para dizimar o oposto.

 

Julinho Bittencourt
Julinho Bittencourt
Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.