O voo de “Bolsonícaro”

Na Fórum Folia de hoje, Estevan Mazzuia relembra o desfile da Tradição de 1994 e o antigo sonho do homem de voar como um pássaro

Na semana em que se celebram os 148 anos do nascimento de Santos Dumont e os 99 anos de sua morte, rever o desfile da Tradição em 1994 pode indicar que o sonho de Bolsonaro voar para a reeleição se aproxima do destino de Ícaro no Mar Egeu.

“Eu me detinha horas e horas a contemplar o belo céu brasileiro e a admirar a facilidade com que as aves, com suas longas asas abertas, atingiam as grandes alturas. Assim meditando sobre a exploração do grande oceano celeste, por minha vez eu criava aeronaves e inventava máquinas. Tais devaneios eu os guardava comigo”.

Com essa mensagem, atribuída a Alberto Santos Dumont, mineiro de Palmira (cidade que hoje recebe o nome de seu filho mais ilustre), nascido a 20 de julho de 1873, a Tradição, escola de samba dissidente da tradicionalíssima Portela, apresentava seu enredo para o carnaval de 1994: “Passarinho, passarola, quero ver voar”, desenvolvido por Lícia Lacerda.

Após uma ascensão meteórica, na qual chegou ao grupo principal em apenas quatro anos de existência, a escola tentava se firmar no grupo especial, depois de dois rebaixamentos, em 1989 e 1992. Campeã do grupo de acesso em 1993, era a segunda a desfilar na Sapucaí, na noite de 14 de fevereiro de 1994, segunda-feira de carnaval.

Abordando, ao longo da história da humanidade, o sonho de voar, o desfile foi dividido em quatro partes: o desejo de alcançar os céus, moradas dos deuses, a partir da observação dos pássaros na natureza; os primeiros projetos e invenções de máquinas voadoras; de Bartolomeu de Gusmão a Santos Dumont, as primeiras realizações; e a busca pela conquista espacial.

Ao som de “Disputa de Poder”, canção eternizada na gravação de Simone, a agremiação de Campinho fez um profético “esquenta”, na concentração:

“Isso aqui tá brincadeira / Ou será que não está?
Brasileiro, brasileira / Tá na hora de gritar!”

Está mesmo. Mais do que na hora.

Íris Lettieri, locutora oficial do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, deu o grito de guerra, convocando todos para embarcarem, pelo portão Sapucaí, no voo 1994 da Tradição.

O delicioso samba composto por Jajá Maravilha, Aniceto, Tonho, Sandro Maneca, Jurandir da Tradição, Jorge Makumba e Loutenço embalou os 3500 componentes, na voz de Edminton Tradição:

“Vou voar de asa delta / O céu do meu Rio de Janeiro vou voar
Delirar com a natureza / Refletir no espelho azul do mar”

Nas alegorias pequenas e funcionais, e nas fantasias simples, mas criativas, predominaram as cores da escola: azul turquesa, azul royal, ouro, branco e prata.

Aviões, pipas, balões, paraquedas, helicópteros e até tapetes voadores foram lembrados. João Nogueira vinha à frente de uma ala, e Hortência, a Rainha do Basquete, na última alegoria, que trazia a Praia do Pepino, com suas asas-deltas. O cantor Magal vinha logo abaixo da atleta.

De capacetes, as baianas espaciais lembravam as que Fernando Pinto apresentou na Mocidade Independente de Padre Miguel em 1985.

Luma de Oliveira vinha à frente dos 300 integrantes da bateria de Mestre Dacopê, e Danielle, filha de Wilma Nascimento, uma das maiores porta-bandeiras da história, conduzia o primeiro pavilhão da escola, protegida por Julinho, o mestre-sala.

Foi um desfile leve e bastante agradável, que levantou as arquibancadas. Ouviram-se até gritos de “é campeã!”. Acabou conquistando um honroso sexto lugar, o melhor na história da escola, que vive hoje seus piores momentos, desde 2015 afastada do palco principal das escolas de samba do Rio de Janeiro. Em 2007, o enredo foi reeditado, no grupo de acesso, quase que “quadro-a-quadro”, mas a escola amargou um nono lugar, e acabou rebaixada para o terceiro grupo.

De volta a 2020, enquanto Paulo “Tchuchuca” Guedes finge acreditar numa iminente decolagem da economia brasileira, um teco-teco em frangalhos, JB, o piloto da nação (apertem os cintos, senhores!), teve uma semana bastante complicada.

Sua “vida secreta” foi escancarada por Juliana Dal Piva, em uma reportagem para o portal UOL, que provocou a ira não apenas da “Famiglia”, mas de seu “adevogado” Frederick Wassef, que sugeriu que a jornalista poderia ser assassinada, se tivesse feito algo semelhante na China.

Enquanto a economia escorrega pela pista, nossa paciência é que tem ido pelos ares… A Funarte vetou o acesso à Lei Rouanet pela organização do Festival de Jazz do Capão, na Bahia, com justificativas absurdamente pautadas em fundamentos religiosos. Na verdade, o que incomodou Mário Frias, o ator que, de tão meia boca, faz figuração até nessa patuscada que é o desgoverno federal, foi o fato de o evento declarar-se antifascista nas redes sociais. Respondam em uníssono, leitores: quem é que se incomoda com antifascistas?

Paralelamente, o Ministério da Saúde reconhecia a ineficácia do kit-Covid e usava uma suposta dificuldade com a língua de Shakespeare para justificar o atraso na negociação para a compra de vacinas. Sim, o Ministério da Saúde da República Federativa (ou seria Idiocrática?) do Brasil justificou um atraso na compra de vacinas alegando que ninguém ali era capaz de compreender os documentos em inglês. Ninguém. Inglês. Ministério da Saúde. Do Brasil. Vacinas. Atraso. Mortes.

Mas a bomba da semana foi a revelação de que Eduardo Pazuello, o ex-ministro da Saúde e ainda capacho de JB, teria negociado, com intermediários pra lá de suspeitos, a compra de vacinas Coronavac por US$ 28 a dose, enquanto a mesma vacina podia ser adquirida por US$ 10 a dose, diretamente com o governo de São Paulo. Com o devido registro em vídeo, da tal negociação. “The mamata never ends”, meu povo!

Como se tudo isso não bastasse, JB vê-se agora diante de um grande dilema: o Congresso aprovou o Orçamento para 2022, triplicando o valor do fundo eleitoral. JB pode vetar, o que o colocaria numa saia-justa com a turma dos que têm vergonha de assumir que são de direita, também conhecida como “centrão”. Não vetando, ele desagrada seus torcedores e comparsas, que andam surpresinhos com as revelações da farra com dinheiro público, mas não perdem a fé em seu mito.

Que ironia! Com suas hostes e o “centrão”, JB acreditava possuir asas resistentes para voar tranquilamente rumo à reeleição, em 2022. Com sua popularidade derretendo como cera, pode acabar tendo destino semelhante ao de Ícaro e da reedição de “Passarinho, passarola…”, em 2007.

Especialista em terceirizar responsabilidades, e revisitando a boa, velha, e jamais comprovada fraude nas urnas eletrônicas, JB já anda até falando em não concorrer à reeleição, evitando a possibilidade de levar uma surra nas urnas, o que poderia ser o início de seu “Mar Egeu”.

A ver.

P. S. Alberto Santos Dumont suicidou-se em 23 de julho de 1932, perturbado após assistir aviões de combate sobrevoarem a cidade de Guarujá, durante a Revolução Constitucionalista. A ele, dedico a coluna de hoje.

*Estevan Mazzuia, o Tuta do Uirapuru, é biólogo formado pela USP, bacharel em Direito, servidor público e compositor de sambas-enredo, um apaixonado pelo carnaval.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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