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20 de julho de 2019, 08h59

Os 50 anos da Apollo 11 e as duas luas de Gilberto Gil

Nada mudou com a conquista da lua. A não ser o reconhecimento de que a nossa tamanha capacidade e inteligência por um feito tão extraordinário não consegue se reproduzir com a mesma intensidade em disputas internas e tão comezinhas, aqui mesmo na terra.

Foto: Divulgação/Nasa

Faz 50 anos neste sábado (20) que o homem pisou a primeira vez na lua. É uma daquelas datas onde todo mundo que estava vivo na época lembra exatamente o que fazia no exato momento. O evento foi transmitido ao vivo, em cadeia mundial, para mais de 500 milhões de pessoas. Lembro bem que, apesar da guerra fria e do pai comunista, não se ouvia um zumbido na pequena sala da nossa pequena casa com quintal do bairro do José Menino, em Santos.

A emoção que tomou a todos foi muito poucas vezes revivida como catarse coletiva da mesma maneira, apesar de todos os reveses das últimas décadas, com seus atos institucionais, Copas do Mundo e 11 de setembro.

Lembro bem que, acima de diversas e tantas emoções, me marcou profundamente a premonitória canção “Lunik 9”, de 1967, do então novato cantor e compositor baiano Gilberto Gil. Ele pegava a coisa por um viés que perturbava a alma do menino: “Talvez não tenha mais luar pra clarear minha canção”.

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A sugestão lírica de que o mistério do luar se acabaria no momento em que os astronautas, com seus pesados e invejáveis uniformes, pisariam no satélite, impressionava e causava pesadelos. Imaginava a lua escurecida, até mesmo sumida do espaço, ao bel prazer da tecnologia e das pesquisas interplanetárias.

A canção era profusa, trazia inúmeras alterações rítmicas e um grande poder discursivo. Talvez tenha sido um dos primeiros contatos que tive com a inteligência transbordante, cheia de sentidos, enfim, com a metáfora propriamente dita, que Gil nos oferecia com infinitas doses de ironia.

O mal-estar da chegada do homem à lua foi desfeito décadas depois também pelo próprio Gil, em outra canção primorosa. Em “A gente precisa ver o luar”, de 1981, o cantor, totalmente repaginado pelos anos de exílio e irreverência, chegava com a meia lua pintada de um lado dos cabelos e uma estrela do outro para cantar que a gente, simplesmente, precisava ver o luar.

Com o verbo um tanto mais contido, as cordas e ritmos brasileiros substituídos pela influência universal da canção pop e do r&b, Gil nos permitia desta vez muito mais hedonistas e alheios às grandes transformações, com uma lógica desconcertante: “Uma vez que existe só para ser visto, se a gente não vê, não há”.

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Entre os dois Gilbertos, aquele um bocado preocupado da minha infância e o outro da juventude, um tanto mais atirado e contemplativo, fico com os dois e a mesma lua.

Ouço aqui e acolá as comemorações da chegada da Apolo 11, que tanto marcou meus primeiros anos, entre divertido e emocionado. Assim como Gil nos ensinou e insinuou, nada de fato mudou na nossa relação com o satélite e suas luzes.

Nada mudou mesmo a respeito de nada. A não ser o reconhecimento de que a nossa tamanha capacidade e inteligência por um feito tão extraordinário não consegue se reproduzir com a mesma intensidade em disputas internas e tão comezinhas, aqui mesmo na terra.


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