O que o brasileiro pensa?
28 de junho de 2020, 11h04

Os Corpos Sem Vida do Bolsonarismo, por Adeilton Lima

Observem-se as posturas de Guedes e Bolsonaro. São corpos travados pelo preconceito. Corpos que não dançam, não celebram, não participam de rituais. Corpos que não gozam, ou, mais precisamente, desconhecem o orgasmo

Foto: Marcos Corrêa/PR

Por Adeilton Lima*

Duas cenas recentes, que circularam nas redes sociais, chamam a atenção por detalhes pouco observáveis pelos meios de comunicação, quase sempre a não destacar a frieza de tais situações, como algo meramente corriqueiro.

A primeira, o abraço duro, frio e pétreo trocado pelo presidente fascista Jair Bolsonaro e o seu capacho-mor Abraham Weintruab, na despedida deste último, em fuga para os EUA, com o aparato do governo, temendo ser preso por racismo e agressões ao STF.

A segunda, ao lado de Paulo Guedes, Bolsonaro faz uma “homenagem” aos mortos por Covid com a participação do presidente da Embratur, Gilson Machado, que toca uma sanfona enquanto cantarola muito mal uma, digamos, versão de Ave Maria. Soou mais como metáfora de sua irresponsabilidade e cinismo no combate à pandemia que algum fiasco de solidariedade aos que tombaram.

Não me cabe analisar aqui alguma inabilidade artística, até porque o objetivo ali era outro, porém, não há como não perceber a total falta de empatia com qualquer coisa que de alguma forma lembre algo artístico mesmo que mal executado. O que se percebe é a falta de contato, primeiramente humano, depois cultural, e, por último, estético, dessa gente.

Observem-se as posturas de Guedes e Bolsonaro, seres meramente brutos e burocráticos. Seus corpos são enrijecidos, sem vida, como múmias perdidas procurando seus sarcófagos de frieza, ignorância e bestialidade. No máximo, quando consomem algo que se pretenda artístico a referência que têm é a do esquemão do mercado fonográfico chamado “sertanejo” que em nada se aproxima da vida rural ou interiorana do Brasil, apenas cópia malfeita e subserviente da cultura country norte-americana que os representantes do agronegócio brasileiro idolatram de forma rastejante como quem vergonhosamente bate continência para a bandeira daquele país, exaltando a alienação política e cultural.

Mas, voltando aos corpos, eles muito denunciam a falta de sensibilidade, contato, troca. São corpos travados pelo preconceito, corpos que não se permitem ao afeto, ao carinho, ao humor, à leveza. Corpos que não dançam, não celebram, não participam de rituais. Corpos que não gozam, ou, mais precisamente, desconhecem o orgasmo. Corpos que ao invés de mudras para a paz fazem arminhas para a guerra, corpos aptos e a postos apenas para a violência, corpos que não beijam, que não fazem amor, corpos que não trepam.

Talvez daí a postura frequente de recalque que esconde nos armários da psique as taras mais alucinantes, a exemplo daquele vereador paulista, aliado desse governo, Ditinho Bueno, do Partido Social Cristão (PSC), cheirando uma calcinha numa sessão pública da Assembleia de Bragança Paulista, durante a fala de uma mulher; as “viagens” alucinadas, porém reprimidas, de Damares Alves, ou as obsessões frequentes por referências fálicas seja de Bolsonaro ou de seus filhos.

O que falta a essas pessoas, refugiadas com frequência na caretice e na ditatorial censura evangélica, velha matrona de repressão cristã dos desejos, é a libertação de seus próprios corpos. Paradoxalmente, com todo o seu conservadorismo, talvez por isso falem tanto em liberdade (mero espelho). Eles não suportam sequer os próprios valores que pregam e precisam mentir constantemente para si mesmos, um oceano de hipocrisia.

Há uma grande distância entre a rua e o sótão… Assim como entre o altar e o bolso de muitos pastores. Ao reprimir o orgasmo alheio, querem se libertar do próprio desejo de também poder gozar, submetendo-se à expiação da culpa cristã. Por isso, a repressão aos ritos tribais, tradicionais ou atuais, em vertentes culturais variadas (chegando mesmo ao universo pop), que liberam o desejo, que libertam o corpo e que celebram a existência, também o medo de encarar as diferenças entre religião e religiosidade.

Por isso, o horror a qualquer manifestação cultural, a qualquer experiência artística e estética, tão potentes e viabilizadoras de tantos orgasmos. Daí a ausência de medidas para o setor de produção de cultura no campo estatal, a destruição total das instituições e dos mecanismos de financiamento para projetos culturais e também de manutenção do patrimônio cultural brasileiro. Uma política que se assenta no recalque e no ódio, nomeando meros serviçais sem propostas para administrar o pouco que ainda resta das ruínas de nossa cultura. Ah, se esses corpos dançassem como sonhava Nietzsche, celebrando Apolo e Dionísio.

*Ator e poeta


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