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31 de agosto de 2017, 10h02

Os dias não eram assim

Em “Os dias eram assim”, a canhestra minissérie da Rede Globo, falta lá, no centro de tudo, ela própria como personagem, construindo a narrativa e escondendo a selvageria, o seu plim plim diário, as suas mentiras, o seu apoio.

Em “Os dias eram assim”, a canhestra minissérie da Rede Globo, falta lá, no centro de tudo, a própria emissora como personagem, construindo a narrativa e escondendo a selvageria, o seu plim plim diário, as suas mentiras, o seu apoio.

Por Julinho Bittencourt

Por vezes vem um delírio de que a Rede Globo, numa epifania tanto inesperada quanto irresoluta apresente, naquelas mensagens educativas que encerram a sua minissérie “Os Dias Era Assim” um mea culpa. Logo após a cena em que se descobre um cemitério clandestino, com direito a ossadas aparentes, os leterings anunciam:

“A Rede Globo vem por meio desta pedir desculpas à população brasileira, sobretudo às vítimas e seus familiares, por ter apoiado incondicionalmente a ditadura militar e seus horrores desde a primeira hora.

A Rede Globo de Televisão gostaria de dizer que esta não é uma obra de ficção. O fato que apresentamos aconteceu mesmo, muito provavelmente em várias partes do Brasil. O caso mais famoso é o que ficou conhecido como ‘Cemitério de Perus’, atualmente nomeado ‘Colina de Mártires’. Tem 254m² e foi construído em 1971, pelo então prefeito Paulo Maluf. Estima-se que o local abrigou mais de 1000 sepultamentos clandestinos de desaparecidos políticos da década de 1970.

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Foi graças ao nosso apoio e colaboração, tanto omitindo informações quanto propagando outras falsas, bem como enaltecendo atitudes de assassinos ao longo dos anos que tanto sofrimento foi espalhado através da nossa história recente.”

Qual nada. Ao contrário disto, a Vênus platinada do Jardim Botânico apresenta uma minissérie chinfrim, repleta de clichês insuportáveis e um roteiro canhestro. Nada que se apresenta é tampouco próximo do que um dia poderia ter sido. E quem já frequentou ao menos uma reunião de classes, assembleia ou qualquer outra forma de organização sabe que aquilo jamais se dá daquela forma, com aqueles diálogos e aquela atmosfera falsa, estúpida e repleta de abobrinhas delirantes.

Como se não bastasse, a emissora constrói a trama como se não tivesse feito parte de tudo, tendo sido um de seus grandes artífices. Falta lá, no centro de tudo, construindo a narrativa e escondendo a selvageria, o seu plim plim diário, as suas mentiras, o seu apoio.

Um erro, diga-se de passagem, recorrente. Um erro que persiste no jornalismo da emissora e insiste em se manter sempre ao lado do que há de pior e mais atrasado na política nacional. Um erro mais uma vez determinante, por exemplo, no episódio da eleição de Fernando Collor de Mello, em 1989, promovendo um massacre midiático contra o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva que virou case de comunicação e até documentário no exterior, se colocando, mais uma vez e como sempre, ao lado de criminosos que saqueavam o erário público.

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O mesmo erro que se repetiu na reeleição de Dilma Roussef ao apoiar descaradamente Aécio Neves e, posteriormente, apoiando o trio Temer-Aécio-Cunha – que dispensa comentários – no impeachment da presidenta eleita, sobretudo ao divulgar a malfadada gravação do telefonema entre Dilma e Lula, vazada criminosamente pelo juiz de Curitiba, Sérgio Moro.

Um histórico de erros que nos evoca o saudoso Leonel Brizola e o seu histórico direito de resposta lido por um claudicante Cid Moreira em cadeia nacional.

Um erro, enfim, atrás do outro só para nos lembrar sempre que os dias não eram assim. Eram e sempre foram muito piores.

E assim seguem sendo.

Foto: Reprodução Rede Globo

 


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