Manoel Herzog

10 de maio de 2019, 06h00

Os Sertões

Uma nota curiosa sobre Lula & Canudos: um dos juízes que convalidou a absurda sentença condenatória é descendente direto de um dos generais que comandou o massacre de Canudos

Pintura retratando a comunidade de Canudos antes da guerra. Foto: Reprodução

Há uma história de genocídio tão infame no Brasil, entre tantas histórias infames de genocídio no Brasil que, ainda contada por sujeitos notadamente lombrosianos, antipopulares, de uma concepção histórica e política incompatível com sua arte, se faz ler sob a perspectiva da injustiça contra o povo explorado.

Dentre as leituras que o presidente Lula tem oportunidade de fazer desde o irreal cárcere a que a justiça burguesa local o lançou, num processo fraudulento, está uma tal “verdadeira história de Canudos”. Fico pensando em como será a análise de um historiador de esquerda ao comentar aqueles fatos históricos, se os ultradireitistas já o narram como um massacre contra os pobres. Uma nota curiosa sobre Lula & Canudos: um dos juízes que convalidou a absurda sentença condenatória é descendente direto de um dos generais que comandou o massacre de Canudos.

Euclydes da Cunha, homenageado da Flip deste ano, escreveu Os Sertões, um dos maiores monumentos da literatura brasileira. Este autor defendia que o cruzamento de raças desembocou numa aberração feito o sertanejo, um primitivo impossível de civilizar, um erro genético, biológico e histórico. Euclydes também dizia que a única salvação para a Amazônia era desmatar aquilo tudo. Há alegações de misoginia sobre referido autor, segundo estudiosos. Fato é que a esposa o trocou por um jovem tenente, que acabou por matá-lo, aos imberbes 43 anos, num duelo pela honra.

Mario Vargas Llosa, escritor peruano neoliberal, discípulo declarado de Euclydes, escreveu outro monumento literário, A guerra do fim do mundo, sobre o mesmo tema, o massacre de Canudos. Llosa faz parte da elite política que levou o Peru ao caos econômico neoliberal, é grande amigo de FHC, um seu paralelo brasileiro, só que sem o talento literário, e considera Sergio Moro, um juiz de primeira instância de um rincão agrícola dos sertões, que condenou Lula em troca de um cargo de ministro num governo fascista, o brasileiro mais notável da atualidade. O talento literário de Moro vai até a pronúncia de palavras como Massachutis, conge, rugas etc, e Don Llosa o incensa desta maneira surreal.

De tudo isto podemos concluir:

  1. a) O gênio independe do caráter;
  2. b) Pode-se pregar a mentira que for, mas pra fazer Literatura só falando a Verdade. Por mais se a chame ficção.

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