Portela: a onda que arrasta a sambar, o mar que passou em nossas vidas!

Na coluna de hoje, Estevan Mazzuia celebra o Dia Mundial dos Oceanos e relembra a onda portelense que invadiu a Sapucaí em 1981

Por Estevan Mazzuia *

Salve, amigos! Do samba, da política e da vida!

Na semana que se passou, os depoimentos das médicas Nise Yamaguchi e Luana Araújo na CPI da Covid deram o que falar.

A primeira mostrou que seu conceito como oncologista jamais poderia respaldar uma atuação no enfrentamento de uma pandemia. É impressionante como essa gente não faz questão alguma de se informar sobre o que se mete a fazer. Fecha o olho, faz o “uni-duni-tê”, segura na mão de Deus (a que não estiver fazendo “arminha”) e vai.

Mas preciso registrar minha opinião sobre a repercutida investida de Otto Alencar contra a médica cloroquinista. Ficou nítido que ele estava disposto a fazer o que fez, até porque não há consenso sobre o que seja um vírus. Ela não errou ao dizer que protozoários são seres celulares, tampouco falou bobagem sobre os vírus. A pergunta realmente foi básica, tão básica que desnortearia qualquer profissional da área, a ponto de não saber ao certo a resposta esperada pelo questionador. Ela poderia dar uma definição extremamente simplória, como fez, ou dissertar por horas e horas sobre o assunto. Escolheu a primeira opção e deu no que deu. Alencar foi malandro e seu truque colou. Se ela tivesse escolhido a segundo opção, diriam que ela estaria enrolando para responder. Para mim, Nise pode ter todos os defeitos possíveis e imagináveis. Não saber a diferença entre vírus e protozoário, ao meu ver, não está entre eles. Ao menos não ficou claro, como quiseram fazer crer.

Em relação a Luana Araújo, destaco a segurança com que respondeu aos questionamentos. Segurança de quem tem certeza que não fez nenhuma besteira.

Se Nise levou uma montanha de papel, na qual nunca encontrava o que parecia procurar, Luana levou seu conhecimento e sua dignidade. Simples assim. Ainda que a condenem por ser bolsonarista de primeira hora, respeitou seu juramento de Hipócrates, ao menos.

Outro tema que deu pano pra manga foi a vinda da Copa América para o Brasil, aos 40 do segundo tempo. Argentina e Colômbia, em meio ao caos sanitário e político, desistiram de sediar o torneio e JB, o futebolista, não pensou duas vezes em abraçar mais essa grande possibilidade de favorecer seu maior aliado, o Sars-Cov-2.

Enquanto o mundo vai voltando aos poucos para a normalidade, com populações vacinadas, e números de casos e mortes caindo, por aqui seguimos como se o que estivesse caindo fossem uns sete aviões comerciais por dia, lotados. Aliado às constantes alterações do tal “plano de imunização”, sempre reduzindo as expectativas anteriores em relação à vacinação, esse é o normal com o que o brasileiro está resignado, a julgar pelas ruas.

JB, o matemático, se vangloria de o Brasil ter um dos maiores números de recuperados (quando a “opção” desses infelizes teria sido morrer) e de vacinados (esquecendo-se que termos uma das maiores populações não vacinadas, também), mas parece desconhecer comandar uma nação de 213 milhões de pessoas. Talvez, para ele, a população brasileira realmente se resuma àquelas dezenas que deliram a cada devaneio que sai daquela boca (a qual tenho a impressão que exala os mais fétidos odores), às portas do Alvorada. Quando muito, àquelas centenas que, vez por outra, desfilam suas camisas da CBF pela Esplanada dos Ministérios.

Aliás, o que dizer do afastamento de Rogério Caboclo da presidência da CBF, denunciado por assédio sexual? A gente se esforça pra não desenhar estereótipos de bolsonaristas, mas as circunstâncias jogam contra nós, o tempo todo.

Mas, voltando à Copa América… Um forte argumento dos defensores da realização do torneio em solo tupiniquim é que aqui já se realizam campeonatos estaduais, nacionais e até mesmo internacionais. De fato. O que eles omitem, é que os clubes fazem parte de uma cadeia de empregos, não apenas de atletas, mas de funcionários. Não que eu seja a favor da realização de qualquer campeonato. Todos deveriam ser paralisados. Contudo, torneios entre seleções são absolutamente desnecessários. Copa do Mundo, Copa América, Olimpíadas… Esses eventos partem de um conceito festivo, de congraçamento. Não há motivo algum para festejos. Ainda que, para muitos, a morte de quase 500 mil brasileiros o seja. Principalmente quando a grande maioria dessas pessoas representava apenas um “prejuízo” para o INSS e nada mais.

Esse argumento pueril, invocado à exaustão por essa gente que não saiu da quinta série é muito incômodo. Uma irritante mania de apontar o dedo para o outro que está fazendo besteira, para seguir com sua bobagem. Eu sempre lembro da aplicação desse raciocínio na questão da maioridade penal: “ah, se com 16 anos já pode votar, também pode ser preso”. Eu já acho que não têm discernimento pleno para serem presos. Logo, não poderiam votar. Mas ninguém ousa discutir a questão da maturidade civil e isso é tema para outra discussão.

Então, tocamos nossa luta, em meio a esse mar de ignorância que toma conta do país, e vamos em busca de nossas ilhas de felicidade, à procura de um pouco de descanso para que sigamos em meio a essa infindável travessia.

E, por falar em mar, neste 8 de junho é comemorado mais um Dia Mundial dos Oceanos, além do Dia Nacional dos Oceanógrafos e Oceanólogos.

Chegou a hora de falar da Majestade do Samba, vinte e duas vezes campeão do carnaval, a azul-e-branco de Oswaldo Cruz e Madureira, a gloriosa Portela, que foi a sexta escola a entrar na avenida, às 4h de 2 de março de 1981, com o enredo “Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite”, desenvolvido por Viriato Ferreira, e um dos mais memoráveis sambas de sua história, composto por David Corrêa (que puxou o samba na avenida) e Jorge Macedo:

“Deixa-me encantar / Com tudo teu e revelar lá, rá, rá

O que vai acontecer / Nesta noite de esplendor

O mar subiu na linha do horizonte / Desaguando como fonte

Ao vento a ilusão teceu / O mar, oi o mar, por onde andei mareou, mareou

Rolou na dança das ondas / No verso do cantador

Dança quem tá na roda / Roda de brincar

Prosa na boca do tempo / E vem marear

Eis o cortejo irreal / Com as maravilhas do mar

Fazendo o meu carnaval / É a vida a brincar

A luz raiou pra clarear a poesia / Num sentimento que desperta na folia

(Amor! Amor!) Amor sorria, ôôô /Um novo dia despertou

E lá vou eu / Pela imensidão do mar

Esta onda que borda a avenida de espuma

Me arrasta a sambar”

A obra era a mais tocada nas rádios no período pré-carnaval e o título de 1980 (dividido com Beija-flor e Imperatriz) deixava a escola, sempre favorita, ainda mais cotada para a conquista do campeonato.

Premiada com o Estandarte de Ouro, a comissão de frente trazia “príncipes submarinos” que abriam caminho para a passagem da grande onda azul que bordou a avenida de espuma branca.

Além das cores oficiais da Portela, Viriato usou prata e ouro. Esculturas de animais marinhos decoravam as alegorias. Empolgado, o público invadiu a avenida para se banhar no mar portelense, o que acabou prejudicando a evolução e a harmonia dos 3.200 sambistas, divididos em 38 alas.

Mas, desde aquela onda na Sapucaí, o mar nunca mais foi o mesmo.

Ao final, a escola dividia o favoritismo com as outras duas campeãs de 1980. Desta vez, a águia levou a pior: com 158 pontos, a escola terminou na terceira colocação entre as dez escolas do grupo principal, atrás, justamente, de Imperatriz e Beija-flor.

Que essa tenebrosa onda de ignorância vá embora logo, levando a peste consigo, e que possamos desfrutar do mar, o suave refúgio das mazelas da vida, a doce inspiração dos poetas, em toda a sua plenitude.

E assim, possamos desfrutar de uma nova onda de alegria, de luz, de conhecimento. De amor e respeito ao próximo. De sanidade.

Que assim seja!

*Estevan Mazzuia, o Tuta do Uirapuru, é biólogo formado pela USP, bacharel em Direito, servidor público e compositor de sambas-enredo, um apaixonado pelo carnaval.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.