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03 de julho de 2019, 06h00

Primeira mulher a gravar álbum de samba-enredo: “instrumento de resistência à extrema-direita”

Ana Guanabara acaba de lançar na França, onde vive há mais de 20 anos, o álbum “Sambas Enredos”, gênero que acredita ser uma ferramenta de resistência nesses tempos de regressão democrática e de repressão popular no Brasil

Foto: Divulgação

Por Erika Campelo*

“A cantora brasileira Ana Guanabara, radicada na França há mais de 20 anos, acaba de lançar o álbum “Sambas Enredos”, onde resgata a fase de ouro do gênero que inclui a atinge seu ápice na década de 70, segundo ela.”

Ana Guanabara é a primeira intérprete feminina a fazer um disco totalmente dedicado ao gênero. “Me dei conta disso fazendo o disco, no Rio, gravando, com o Cláudio Jorge que é o arranjador, que dividiu comigo essa realização. Alguns artistas homens fizeram discos regravando sambas-enredo, como Martinho da Vila, Dudu Nobre, Mestre Marçal e Jamelão”, diz.

Ela expressa sua admiração pela cultura afro-brasileira e pelos valores que ela defende, convencida de que essa cultura pode ser uma ferramenta de resistência nesses tempos de regressão democrática e de repressão popular no Brasil. Para a cantora, quando o presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) difama o carnaval ‘depravado’, “trata-se de um ataque frontal à diversidade social e cultural do povo brasileiro”.

Para a cantora, “o samba demonstra mais uma vez o quanto pode ser uma ferramenta de resistência incisiva e irreverente com muita criatividade, como vimos desde o contestado impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016”.

Ela lembra que “os carnavais de 2018 e 2019 foram particularmente politizados, expressando uma crítica social direta à grande crise que atingiu o Brasil. E esse meio de expressão é muito poderoso, já que essa grande festa é repercutida pelas mídias do mundo todo”, adverte.

Patrimônio musical brasileiro

Ana nasceu e cresceu no Rio de Janeiro. “E essa homenagem é inseparável da qualidade artística daquele período”, ressalta a cantora, que destaca “a riqueza melódica e poética de um gênero musical reconhecido primeiramente por sua exuberância percussiva.”

Para ela, o samba enredo é um patrimônio musical e uma verdadeira joia da cultura popular afro-brasileira. “No entanto, ele é pouco conhecido e muito pouco explorado pela indústria fonográfica. O repertório do meu disco inclui várias músicas que iluminaram minha infância, numa década de 1970 que assistiu a uma profusão de sambas-enredos extremamente ricos do ponto de vista melódico e poético”, afirma.

A cantora chama a atenção, nas quatorze canções do disco, três sambas que, para ela, “são representativos desta cultura afro-brasileira da qual quero perpetuar o brilho: ‘Mar baiano em noite de gala’, apresentado pela escola Unidos de Lucas em 1976 e que fala da festa de Iemanjá. Em seguida, ‘Solano, poeta negro’, uma homenagem a Solano Trindade, poeta, pintor e ativista pelos direitos dos negros no Brasil, apresentado pela escola Quilombo, em 1981. E finalmente, ‘Kizomba, festa da raça’, o samba-enredo que deu a vitória à Vila Isabel em 1988, ano do centenário da abolição da escravidão no Brasil”, conta.

Serviço:

Ana Guanabara fará, na próxima quinta-feira, 4 de julho, show de lançamento do álbum “Sambas Enredos”, no Centro Cultural Paul B, na cidade de Massy (grande Paris) na França

(*) Erika Campelo é jornalista, cientista política e radicada em Paris há mais de 20 anos. É uma das fundadoras da ONG Autres Brésils, que traduz do português para o francês conteúdo jornalístico produzido pela mídia livre brasileira


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