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13 de fevereiro de 2019, 22h56

Saída da Petrobras, mais um duro golpe na já combalida estrutura de produção cultural

A saída da Petrobras é só o começo. Num governo onde ministros parecem se orgulhar da própria ignorância, filmes e peças de teatro são vistos como desnecessários

Foto: Petrobras

Por Marcelo Lyra*

O anúncio de que a Petrobras irá rever os contratos de patrocínios destinados a cinema e teatro é mais um duro golpe na já combalida estrutura de produção cultural. É mais uma etapa do processo de desmanche que inclui a nomeação de Pedro Henrique Peixoto para Secretaria do Audiovisual, órgão que administra as principais ações de fomento do cinema brasileiro. Para se ter uma ideia, o principal feito cultural de Peixoto foi escrever a biografia do ator pornô e deputado bolsonarista Alexandre Frota, o que num governo sério, o credenciaria no máximo ao posto de ascensorista do elevador da secretaria a que foi designado para comandar.

O impacto do futuro corte de verbas só não é pior porque a estatal de petróleo já há alguns anos vinha efetuando cortes de patrocínios a festivais de cinema e editais que permitiam a realização de longas metragens.

É triste quando se pensa que a Petrobras foi, em meados dos anos 90 e início dos anos 2000, o principal alicerce da chamada Retomada do cinema brasileiro, estimulando a produção de longas e curtas metragens e a criação de festivais de cinema em dezenas de cidades pelo Brasil. Vale lembrar: em 1991 o então presidente Collor acabou com a Embrafilme e a produção de cinema nacional caiu para cerca de dois a três filmes por ano. Em 1993 o então presidente Itamar Franco criou da Lei do Audiovisual, que permite a qualquer empresa investir até 3% do Imposto de Renda devido à União em produções audiovisuais, em troca da exibição de sua logomarca nas produções.

A lei possibilitou à Petrobras e outras estatais como Banco do Brasil, investirem na produção e distribuição de filmes nacionais. Assim, ao longo de duas décadas a produção nacional de filmes foi crescendo gradualmente até chegar ao redor de 150 filmes por ano, gerando milhares de empregos e milhões em impostos para governos federal, estaduais e municipais. Não por acaso, no atual festival de cinema de Berlim há diversos filmes brasileiros selecionados por sua qualidade, aumentando o prestígio internacional do Brasil.

Os eventos mais ameaçados pelo fim do apoio da Petrobras são a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e a Mostra do Rio, além do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, simplesmente os três principais eventos de formação de público e divulgação de cinema do Brasil.

A saída da Petrobras é só o começo. Num governo onde ministros parecem se orgulhar da própria ignorância, filmes e peças de teatro são vistos como desnecessários. Os vídeos e notícias que circulam pelo WhatsApp parecem mais que suficientes para satisfazer os anseios culturais dos eleitores bolsonaristas.

*Professor, crítico de cinema e jornalista. Formado em jornalismo pela PUC-SP em 1989, cursou as disciplinas de roteiro, montagem, crítica de cinema e de história da crítica, na Escola de Comunicação e Artes da USP. Passou por quase todas as editorias de jornais até chegar, em 1999, ao Caderno 2 do Jornal O Estado de S. Paulo, quando tornou-se repórter de cinema e eventualmente assinava a coluna de Filmes na TV. Foi crítico de cinema do Jornal da Tarde e colaborador de inúmeras publicações, sempre na área de cinema. Atualmente escreve para o jornal Valor Econômico, além de ministrar regularmente cursos sobre crítica de cinema, história do cinema, cinema brasileiro e outros. É autor do livro “Cinema Como Razão de Viver”, publicado em 2003. Em 1993 foi vencedor do prêmio Abic de melhor reportagem.


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