terça-feira, 27 out 2020
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Sem livros editados no Brasil, Louise Glück é a vencedora do prêmio Nobel de Literatura

Com ela, o Prêmio Nobel já tem quatro mulheres laureadas neste ano

A poeta americana Louise Glück é a vencedora do prêmio Nobel de Literatura deste ano. Apesar de já ter vencido prêmios importantes, como o Pulitzer, o National Book Award e a Medalha Nacional de Humanidades, ela é considerada uma surpresa, pois teve o nome pouco cotado nas apostas para o troféu.

Glück tem 77 anos e é professora da Universidade Yale, nos Estados Unidos. Seus avós eram judeus que emigraram da Hungria, e ela foi a primeira de sua família a nascer no país americano.

Segundo o Comitê, a escritora foi laureada por “sua inconfundível voz poética que, com beleza austera, torna universal a existência individual”. 

Sem livros publicados no Brasil, Glück é conhecida pela precisão técnica, sensibilidade e uma obra sobre solidão, relações familiares, divórcio e morte. Os temas de seus livros giram em torno de amores fracassados, encontros familiares desastrosos, além de questões de desespero existencial. 

A Academia destacou na premiação sua coleção literária publicada em 2006, “Averno”, considerada como “magistral” e “uma interpretação visionária do mito da descida de Perséfone ao inferno no cativeiro de Hades, o deus da morte”.

Com Glück, o Prêmio Nobel já tem quatro mulheres laureadas neste ano. A vencedora recebeu uma medalha de ouro e dividem 10 milhões de coroas suecas, cerca de R$ 6 milhões.

Leia abaixo dois poemas de Louise Glück:

“A íris selvagem”, Louise Glück

“No final do meu sofrimento
havia uma saída.

Me ouça bem: aquilo que você chama de morte
eu me recordo.

Mais acima, ruídos, ramos de um pinheiro se movendo.
Então, nada. O sol fraco
cintilando sobre a superfície seca.

É terrível sobreviver
como consciência,
enterrada na terra escura.

Então tudo acabou: aquilo que você teme,
se tornando
uma alma e incapaz
de falar, encerrando abruptamente, a terra dura
se inclinando um pouco. E o que pensei serem
pássaros lançando-se em arbustos baixos.

Você que não se lembra
da passagem de outro mundo
eu te digo poderia repetir: aquilo que
retorna do esquecimento retorna
para encontrar uma voz:

do centro de minha vida veio
uma vasta fonte, azul profundo
sombras na água do mar azul. “

“Confissão”, Louise Glück

“Dizer eu não sinto medo –
Não seria honesto.
Sinto medo da doença, da humilhação.
Como todo mundo, tenho os meus sonhos.
Mas aprendi a escondê-los,
Para me proteger
Da realização: toda felicidade
Atrai a fúria das Sinas.
Elas são irmãs, selvagens –
No final, não há
Emoção, mas inveja.”

Julinho Bittencourt
Julinho Bittencourt
Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.