Manoel Herzog

05 de abril de 2019, 06h00

Sigo ouvindo Nana Caymmi, mas autógrafo é que não peço

A persona de um grande artista é muito, infinitamente maior que sua pessoa física, tão comezinha, tão humana e falha

Foto: Reprodução YouTube

Por Manoel Herzog*

A entrevista de Nana Caymmi, recheada de palavrões, grosserias e boçalidades, não chocou tanto por estes quanto pela defesa do decadente governo Bolsonaro. Deu, sim, o ímpeto de não ouvir mais a voz da diva mas, como, se ela ainda é a maior? Também ouço Fagner de antes dele virar um cantor bregapop, jamais vou deixar de admirar Djavan, e por aí vai. Moleza é ignorar a troupe decadente do rock nacional, os cantores sertanejos, universitários ou de segundo grau profissionalizante, tudo isso que eu já desgostava e que, somado a um posicionamento político estúpido, só convalida o desprezo.

A persona de um grande artista é muito, infinitamente maior que sua pessoa física, tão comezinha, tão humana e falha. Caravaggio matou um homem. Fernando Pessoa era fascista, assim que nem Ezra Pound. Monteiro Lobato, eugenista. Camões botou palavras de um personagem histórico na boca de outro. A Eneida foi escrita para promover o Império Romano, e Virgílio se imortalizou, embora o Império tenha caído. Conta-se que no enterro de Stanley Kubrick o cineasta Roman Polanski, perguntado sobre o defunto, falou: “Talento e caráter não têm absolutamente nada a ver. Ele era um merda talentoso.”

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Foi a Revolução de 1917, engendrada pelos grandes escritores russos, Tolstóis e Dostoiévskis, bem antes de Lênin, que consolidou o conceito de “artista onde o povo está”. Até então o artista era um cortesão, sobrevivia se bajulasse algum poder – mas nem por isso deixou de haver grandes artistas, Rubens e Velásquez o comprovam. Há os que são crentes na ideologia que propagam com sua obra (Brecht, v.g.), e há aqueles que o fazem por pura falta de caráter. Mas caráter, é bom que se reafirme, não é requisito pra ser grande artista. O que vai definir se a obra fica ou não passa ao largo de bom mocismo, sentimentos altruístas etc.

Noves fora, conto uma historinha: o primeiro grande sucesso de Raimundo Fagner foi Canteiros. O poema de Cecília Meireles, musicado magistralmente pelo cearense, estourou. Nessa esteira emplacaria um sucesso atrás do outro. Chegou a musicar soneto de Florbela Espanca, Fanatismo, que tornou-se uma referência na já constelada composição brasileira. Conta-se que ele esqueceu de incluir o nome de Cecília como autora da letra, e vinha mordendo os direitos autorais sozinho até que as filhas da poeta reclamaram. Perdeu a causa nos tribunais, teve de dar aos herdeiros a justa cota.

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Já Martinho da Vila era um compositor consagrado quando gravou Madalena do Jucu, com base numa cantiga de Congo do Espírito Santo. Martinho escreveu a última estrofe e acrescentou à cantiga popular, de autoria anônima. Foi uma das músicas mais executadas no mundo. A Associação de Grupos de Congo de Vitória reclamou direitos autorais de uma música olvidada e que o sambista havia ressuscitado. Ele, imediatamente, doou os direitos autorais inteiros à Associação dos Grupos de Congo, não fazendo conta da co-autoria. Um detalhe: Fagner defende a lava jato e Bolsonaro. Martinho é Lula até a medula.

Sigo ouvindo Nana mas, se encontrar na rua, finjo que nem conheço.

*Manoel Herzog, escritor brasileiro, nasceu em santos em 1964. Formado em Direito, depois do golpe, o único fórum onde tem prazer de entrar é nesta revista


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