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30 de agosto de 2018, 16h06

Tomaz Amorim Izabel, colunista da Fórum, lança livro de poesia nesta sexta-feira em São Paulo

Tomaz Amorim Izabel, colunista da Revista Fórum, lança nesta sexta-feira, dia 31 de agosto, seu primeiro livro de poesia: “Plástico pluma”, pela Editora Urutau. Confira três poemas inéditos do livro!

Capa do Livro Plástico Pluma. Foto: Divulgação

Tomaz Amorim Izabel, colunista da Revista Fórum, lança nesta sexta-feira, dia 31 de agosto, seu primeiro livro de poesia: “Plástico pluma”, pela Editora Urutau. Ele já havia publicado na mesma editora traduções de obras de Franz Kafka e Walt Whitman. O livro conta com posfácio de Rafael Zacca, doutorando em Letras pela UFRJ, que caracterizou o livro da seguinte maneira:

 

“A quem se destina um livro de poesias? Quando Odisseu retornou à casa depois de tanto sofrer (e gozar) em Troia e nos mares e ilhas no caminho do regresso, mal pôde ser reconhecido por Penélope. Rimbaud fabulava uma viagem da qual retornaria brutal e com outros traços. As mitologias estão cheias de personagens que se transformaram permanentemente após uma viagem iniciática – como é o caso da marca de Hefesto. Depois de abandonar a vida miserável nos sertões, a população de Canudos parece ter perdido as feições “brasileiras” da nova nação – senão, de que outro modo se explica que a própria nação tenha destinado quatro expedições, entre elas a maior das já realizadas em território nacional, para massacrar adultos, velhos e crianças? Plástico Pluma traz imagens de uma geração que se tornou irreconhecível na Terra, frequentemente irreconhecível entre seus próprios membros. A quem se destina esse livro de poemas?”

O livro conta ainda com orelha do poeta André Nogueira, mestre em Letras pela USP, que descreveu “Plástico pluma” como:

“O prazer de, num mar de plástico-bolha, afundar. A glória de, sobre asas de plástico-pluma, voar. É este o desafio, um deles, o maior deles, de Tomaz Amorim Izabel: sacar, ao torvelinho da liqüidação global, um resíduo sólido de linguagem, baphywave, com o qual construir uma poesia, Plástico Pluma, que dê ao mundo pós-bug do milênio uma nova anunciação e esperança. A matéria deste livro, o que os sobreviventes da guerrilha urbana logo notam, sem afãs de distopia, é muito concreta: de Ramala, esfumaçante de véus, ao vale do Anhangabaú, por cujas ruas vamos nós, com nossas raças, lutas e amores. Erguendo, para o imenso corpo de sucata e ultra-tecnologia da capital, um golpe nu de capoeira. Revivendo os fósseis que há no combustível que move a modernidade, o sangue ancestral que ferve ao som de atabaques. O vôo de Plástico Pluma traz à literatura de nosso país um impulso potente e nova alegria, a certeza que temos, ao ler um grande poeta, de que a tudo observam, sobre o plano de ruínas, os sábios olhos da águia”.

O lançamento contará com leitura de poemas pelo autor e por poetas convidados. Abaixo, três poemas inéditos do livro.

Quando: 31 de Agosto, sexta-feira

Que horas: 19h!

Onde: Patuscada, Bar e Livraria – R. Luís Murat, 40 – São Paulo.

 

*

 

panapaná

 

revoadas de enxames de manadas aladas

manteiga borbulhando caramelizada

creme açucarado, e suave, amarelo dourado

bolinhas vermelhas no nascer do sol

do seu vestido branco de pregas

o rosto da matriarca desaparecendo em borboletas e covinhas

panapaná, jeito doido de sorrir

 

nevasca de cinzas nucleares, invernal

e a pele nua, desfolhada em carne-viva

lascas de pastos e morros planificados

urro abafado da chuva de meteoros sem órbita própria

pinacoteca de asas envernizadas

folhas, cílios, unhas, decaimento dos mundos em covas

panapaná, jeito doido de sumir

 

*

 

sinos

 

cachos e novelos sobre o rosto

me aninho junto ao peito do carneiro

e ouço correr seu sangue grosso

 

seu coração bate gentil mas vigoroso

se há vento frio nas costas das mãos

e um escuro adstringente, contaminante

 

teço alianças de lã nos meus dez dedos

e ouço o eco tímido do seu balido

esvoaçante pelos terrenos, reabrindo

 

a nossa coragem como sinos

avisando à onça e à noite

que seguimos vivos.

 

*

 

o brasil é um país

 

o brasil é um país

em que os manos escrevem

in memoriam jhonattan

na parede da escola

como perdoar

você que nos proíbe — embrutece

mundão cinicizante

mas não

eu te amo(, corinthians)

é só o que sou, só assim saberei me relacionar contigo

seios doloridos e tendo que explicar pra minha mãe

porque vou chegar tarde sendo que meu irmão não nem

lava a louça e fez curso de computação enquanto eu não

porque

desce canoa verde pelo rio guaió

uma índia pescadora de tintura vermelha

nas bochechas vermelhas e nos bicos mordidos dos peitos

as três meninas brincam com a flhotinha de gata pintada

na proa

de repente:

um barulho súbito, dois buracos

súbitos na água dos dois lados da canoa

da superfície agora agitada

duas piranhas gigantes saltam

as escamas brilhando como luas de júpiter

as caninas desejosas de cravar

chocando-se ósseas armas amantes

sob o meio-dia, sobre a gargalhada santa das meninas

e o esturro de criança da onça.


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