“Tragédia” anunciada: em abril, trabalhadores da Cinemateca alertaram governo sobre risco de incêndio

Em manifesto, trabalhadores do órgão vinculado à secretaria de Cultura já tinham denunciado o abandono do governo Bolsonaro

Um dos galpões da Cinemateca Brasileira, na Zona Oeste de São Paulo (SP), arde em chamas na noite desta quinta-feira (29).

O Corpo de Bombeiros está no local tentando conter as chamas com nove viaturas. Não há informações sobre vítimas e a causa do incêndio ainda é desconhecida. Estima-se que 4 toneladas de documentos estejam sendo consumidas pelas chamas.

O mesmo galpão já havia sido atingido por um incêndio em 2016 e, na ocasião, cerca de 500 obras foram destruídas pelas chamas. A sede principal do órgão, que fica na Vila Mariana, não foi atingida.

O incêndio não foi por falta de aviso. Responsável pelo maior acervo audiovisual da América Latina, a Cinemateca Brasileira é um órgão vinculado à secretaria de Cultura do governo federal, comandada por Mário Frias, e responsável preserva a memória do audiovisual no Brasil. Em seus galpões, armazena mais de 250 mil rolos de filmes e um milhão de documentos.

Abandono

O órgão, no entanto, atravessa uma severa crise financeira e foi abandonado pelo governo Bolsonaro. Em agosto de 2020, a mando do presidente, a Polícia Federal foi à sede da Cinemateca e tomou as chaves da instituição. Desde então, o local está fechado e sem funcionários trabalhando.

No fim do mesmo ano, o secretário especial de Cultura, Mário Frias, disse que seria publicado um edital para que uma Organização Social (OS) assumisse os trabalhos do órgão, o que até agora não foi feito.

Em abril de 2021, então, trabalhadores da Cinemateca divulgaram um manifesto em que denunciavam o descaso do governo Bolsonaro e alertavam sobre o risco de incêndios.

“A Cinemateca Brasileira segue fechada desde agosto de 2020, quando representantes do Ministério do Turismo retomaram as chaves da Organização Social que a geria. Desde então, não há corpo técnico contratado, o acervo segue desacompanhado e não há qualquer informação sobre suas condições. Por esse motivo, lançamos um alerta acerca dos riscos que correm o acervo, os equipamentos, as bases de dados e a edificação da instituição”, diz um trecho do documento, citando que “o risco de um novo incêndio é real”.

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“Hoje, após quase oito meses sem treinamento das equipes de limpeza, segurança e bombeiros, sem técnicos especializados para acompanhamento do acervo, vivemos uma tragédia: a morte silenciosa de milhares de documentos únicos, filmes domésticos, cinejornais, telejornais, obras do cinema e da televisão. Tememos pela morte da memória social, histórica, cultural, cinematográfica e audiovisual brasileiras. A Cinemateca Brasileira é uma instituição complexa, que demanda constância de recursos e atuação de sua equipe técnica especializada. Perante o quadro atual, pleiteamos o imediato retorno dos trabalhadores a seus respectivos postos de trabalho, cuja experiência é crucial para a recuperação da instituição”, prosseguiram os trabalhadores à época.

Leia, abaixo, a íntegra do manifesto

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Ivan Longo

Jornalista, editor de Política, desde 2014 na revista Fórum. Formado pela Faculdade Cásper Líbero (SP). Twitter @ivanlongo_

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