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12 de fevereiro de 2020, 20h59

Vitória de Parasita no Oscar é fruto de investimento pesado em cultura do governo da Coreia do Sul

Do K-pop ao K-cine, o sucesso da indústria coreana do entretenimento, que pode se tornar ainda maior no futuro, dependendo das consequências do Oscar, só foram possíveis graças a um fortíssimo investimento público, e um projeto cuidadoso para que essa cultura cruzasse a fronteira e fosse difundida em todo o mundo.

O elenco de Parasita, com as estatuetas do Oscar conquistadas pelo filme (foto: Los Angeles Times)

Para os que enxergam o mundo através da ótica bolsonarista, ou do liberalismo tipicamente brasileiro, é possível odiar o filme “Parasita” por várias coisas da história: a luta de classes escancarada entre as três famílias retratadas no filme, a crítica também evidente ao mito da meritocracia, entre outros elementos subjetivos.

Porém, há uma questão bastante objetivo acerca da obra que tem o poder de derrubar ainda mais fortemente um mito da direita brasileira: o de que cultura é um gasto desnecessário para o Estado.

Neste domingo (9), todo o mundo viu a Coreia do Sul fazer história, porque pela primeira vez um filme não falado em idioma inglês venceu o Oscar de Melhor Filme.

Dizer que por trás dessa façanha há bilhões de dólares investidos em cultura não é uma informação que surpreenda, mas por se tratar de um país que ainda vive completamente sob a dinâmica da Guerra Fria, o mais fácil é supor que ao se tratar da Coreia capitalista, essa grana é toda ela fruto da suposta eficiência e visão do mercado… mas não!

Foi nos Anos 90 que o governo da Coreia do Sul viu na cultura uma forma de buscar recursos e contornar a crise asiática, e acertou em cheio. O país criou, primeiro um departamento especial de fomento à indústria do entretenimento, cujo objetivo era promover e vender os produtos culturais coreanos para o mundo inteiro.

E onde começaram a obter os primeiros resultados, como bem se sabe, é na música: em 2005, os coreanos já percebiam que as bandas locais eram capazes de produzir excelente material mesclando música pop e ritmos tradicionais orientais, e criou um fundo de mais de 1 bilhão de dólares para apoiar a internacionalização de seus artistas.

Foi graças a esse dinheiro público que nomes como Psy, BTS e outros passaram a ser sucesso em todo o mundo, e não só em seu país. E não dá para dizer que não foram recursos bem investidos, já que, atualmente, o fenômeno o K-pop movimenta quase 60 bilhões de dólares por ano, e é febre na maioria dos países do mundo, incluindo o Brasil, especialmente entre os adolescentes – ou seja, o país está formando uma geração inteira de pessoas jovens que crescerão consumindo cultura coreana.

Claro que, para ser um fenômeno mundial, também investiram internamente. Para projetar seus artistas como grandes astros internacionais, o país construiu arenas em várias cidades, para que as bandas de K-pop pudessem se mostrar para o mundo como capazes de ter grandes casas lotadas. E isso que eles não têm uma festa nacional nem parecida ao carnaval – e se tivessem, em um projeto cultural desses, certamente ninguém seria a favor do corte de verbas públicas a ela, muito pelo contrário.

Além disso, o retorno ao país desse investimento em cultura não se dá somente através das vendas de discos e shows, ou de camisetas e outras bugigangas com as marcas dos artistas. O K-pop levou o turismo na Coreia a triplicar seus números entre 2002 e 2017, e também fez aumentar significativamente a venda de produtos da indústria coreana em todo o mundo.

A vitória de “Parasita” é só mais uma das muitíssimas conquistas do governo coreano, e pode se tornar um novo pote de ouro para o país. E esse país, com tamanha estrutura para trabalhar a exportação de seus produtos culturais, certamente sabe que o K-cine é uma imensa oportunidade.

Mesmo ser ter ainda um departamento especial para isso, como no caso da música, o governo da Coreia do Sul entregou todos os recursos solicitados pela produtora do filme para fazer os lobbies necessários para conquistar os dois prêmios mais importantes do cinema mundial: sim, “Parasita” tem a Palma de Ouro de Cannes e o Oscar de Melhor Filme, além do de Melhor Filme Estrangeiro. No caso do Oscar, o financiamento estatal permitiu que a equipe do filme ficasse em Los Angeles durante os últimos 4 meses, participando de todos os eventos promocionais possíveis.

Outra coisa que chama a atenção é que, diferente do que pensa o governo Bolsonaro com respeito às produções dos artistas brasileiros, as autoridades coreanas não execraram ou boicotaram “Parasita”, mesmo sendo onde a família que protagoniza a história mostra a miséria e a desigualdade social que existe no país.

Longe disso, os resultados favoráveis dessa aposta coreana na sua cultura não estão só nas cifras concretas do bilionário retorno desse investimento como também no crescimento do “soft power” a favor do país. Ou seja, independente da realidade que um filme mostra nas telas, o fato é que o sucesso do K-pop, e salto que “Parasita” pode dar ao K-cine, ajudam a Coreia a passar para o mundo a imagem de país simpático e atraente.

O número de pessoas que procuram escolas para aprender o idioma coreano é cada vez maior, e pode aumentar depois do gesto do diretor Bong Joon-ho na cerimônia deste domingo, de insistir em discursar em coreano, e não em inglês. Aliás, o governo da Coreia oferece muitas bolsas de estudos para difusão do seu idioma.

Enfim, todo esse sucesso da indústria coreana do entretenimento, que pode se tornar ainda maior no futuro, dependendo das consequências do Oscar deste domingo, só foram possíveis graças a um fortíssimo investimento público e um projeto cuidadoso para que essa cultura cruzasse a fronteira e fosse difundida em todo o mundo.

Portanto, quando você estiver vendo “Parasita”, ou ouvindo BTS, pense novamente antes de acreditar naquelas bobagens que recebe no grupo de whatsapp sobre Lei Rouanet, ou outros mitos infundados sobre gasto público com cultura.


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