Você assiste a filmes só pelo título? A 44ª Mostra de SP continua no ar, por Filippo Pitanga

"Meu coração só vai bater se você pedir" e "Isso não é um enterro, é uma ressurreição": Alguns dos filmes da 44ª Mostra Internacional de Cinema, que continua em sua segunda semana com 198 obras de 71 países, até o dia 04 de novembro.

Este poderia ser um belíssimo poema de autoria desconhecida… Mas, na verdade, é uma compilação poética de títulos de filmes brasileiros. Nossa língua é extremamente lírica e ideal para expressar versos e refrões naturais da gramática do dia a dia. Não à toa, temos alguns dos maiores poetas do planeta. Até nossa música é reconhecida internacionalmente por seus compositores, seja em letras ou acordes, como a dupla Tom Jobim e Vinicius de Moraes, com o exemplo de “Garota de Ipanema”, uma das recordistas em trilhas sonoras no mundo, presente desde Woody Allen (“Desconstruindo Harry”, de 1998) a Scorsese (“A Cor de Dinheiro”, de 1986), além de Caetano Veloso, cuja canção “Cucurrucucú Paloma” está em mestres como Almodóvar (“Fale Com Ela”, 2002), Wong Kar-Wai (“Felizes Juntos”, de 1997) e Barry Jenkins (“Moonlight”, de 2016).

E você, já assistiu a algum filme apenas pelo título? Há famosas traduções de filmes estrangeiros para nossa língua que muitas vezes ficaram até mais belas do que o original. Noutras vezes, ganham mais camadas de significado perante nossa tabula referencial… como por nossas riquezas naturais, a complexidade sociocultural ou mesmo nossas controvérsias políticas. Pois há vários destes exemplares poéticos, que já lhe atraem pelo próprio nome, presentes na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que segue online para aluguel nas plataformas digitais até o dia 04 de novembro (lembrando que ao alugar um longa-metragem, você terá até três dias para assistir, estendendo as possibilidades até o dia 07 de novembro).

Um dos maiores exemplos disso, e bastante procurado pelos cinéfilos, é “Isso não é um enterro, é uma ressurreição”, de Lemohang Jeremiah Mosese (2019) – primeira produção na história da Mostra de SP representante de Lesoto, país da África austral, encravado na África do Sul. Reino ancestral que foi uma das inspirações para a criação da fictícia Wakanda nas histórias do personagem Pantera Negra. Nesta obra, somos guiados por um narrador diegético, representando um griot (aquele que transmite a história e canções de seu povo), a conhecer a inabalável personagem de Mantoa (soberba na pele de Mary Twala). Ela é uma viúva em luto que acaba de perder o último filho ainda vivo, não possuindo mais nada além das covas de sua família, numa cidade que em breve deverá ser desalojada para virar uma represa inundada.

Se já não bastasse o pungente título do filme, o texto narrado e declamado é extremamente poético. Vide diálogos como o que nomeia o longa: “Eu vi com meus próprios olhos, os mortos enterrando seus próprios mortos. Mas isto não é uma marcha fúnebre, nem um enterro, isto é uma ressurreição. Uma Gênese”. E mais:

“A noite longa chegou. Descanse nos braços de Morfeu, e que você morra durante o sono. Enfeite seu corpo com este vestido. Esta oferenda de amor que seu marido lhe deu. Vá para a cama e invoque sua morte. Outorgue-a a você e reze pelo descanso eterno. O vento uiva com o pernicioso vento da noite. Mas a morte não vem. Lamente. Lamente, velha viúva. Chore. Chore. Pois a morte lhe esqueceu” – recita oniricamente o griot, com a voz em off sobre as imagens em tom chiaroscuro da protagonista, deitada sob um dossel da cama de cortinas azuis caindo sobre o forte vermelho dos lençóis.

Numa extrema noção de quadro e de cinema na tela grande, o diretor Lemohang Mosese consegue emoldurar a história com o contraste entre as nuvens e montanhas, ou mesmo dos campos floridos, como se materializasse a tensão dos versos encapsulada no tempo. A autoconsciência espacial nas filmagens é tão grande que, mesmo se dedicando na projeção aos planos abertos ou panorâmicos, facilitadores do deslumbre pela beleza natural das grandes altitudes de Lesoto, ele encerra o nosso olhar a partir da oposição de movimentos e forças em pequenos detalhes. Desde a procissão de corpos descendo a montanha e guiadas pela protagonista que afunila o foco do nosso olhar na base da imagem, à junção e combinação de movimentos que passam pela tela como se nos forçassem a piscar e lembrar da mise-en-scène dramatúrgica para além da pictórica.

A história pode lembrar um pouco filmes bastante conhecidos, como “Lemon Tree”, de Eran Riklis (2008), onde a ancestralidade da família palestina da protagonista era representada pelo limoeiro do título, pivô do conflito que o antagonista israelense desejava derrubar… Bem como alude ao nosso brasileiro “Narradores de Javé”, de Eliane Caffé (2003), onde a cidade também seria inundada para a construção de uma hidrelétrica até que decidem escrever a história de seu povo para não deixar com que fossem apagados do mapa. Aliás, deste filme há, inclusive, um enquadramento idêntico, com todos ao redor da mesa para narrar o seu passado para o único ali que domina a escrita. Ou mesmo, imageticamente, podemos pensar na plasticidade quase estática com grandes monólogos no extracampo, quase um griot, que servem de tableau vivant para Pedro Costa criar obras-primas como “Cavalo Dinheiro” (2014).

Porém, “Isso não é um enterro, é uma ressurreição” é tudo isso e ao mesmo tempo algo completamente novo, pela junção de fatores. E aquela resistência da anciã da vila se torna resistência para todo os seus conterrâneos não se deixarem apagar, nem esquecer. Uma performance digna de prêmios. E um filme inesquecível, ainda mais para a pluralidade diversa das seleções anuais da Mostra de SP, como foi quando a joia rara “A Ilha do Milharal”, de George Ovashvili, se revelou na contenda para o Oscar de filme internacional entre os pré-candidatos como representante inesperado da Geórgia, país também diminuto, entre a  Rússia e a Armênia. Pois será que teremos desta vez um representante de Lesoto ano que vem nas premiações? Pelo grande número de prêmios que este filme já acumula, é bem possível.

Outro exemplar digno de nota é “Meu coração só irá bater se você pedir”, de Jonathan Cuartas (2020). Um título extremamente poético, mas ironicamente utilizado para representar um filme de terror. Talvez a premissa lembre o Cult sueco “Deixe Ela Entrar”, de Tomas Alfredson (2008), sem querer dar nenhum spoiler. Basta dizer que um casal de irmãos cuida do terceiro acometido por uma doença rara, que lhe faz precisar de sangue humano para sobreviver (existem de fato diagnósticos reais para isso). Ou seja, não há um tom fantástico na história, pois há raízes clínicas utilizadas aqui afora do misticismo de se beber sangue como os vampiros. Porém, os limites éticos do que a família é obrigada a fazer na sua sobrevivência, de fato, são realçados aqui.

Esteticamente, o filme é um primor de oposições entre o sépia e tons mais sombrios, apenas iluminando as personagens passíveis de sair na rua (pois o irmão adoecido também é fotossensível, ferindo-se com a luz intensa). Neste sentido, por termos alguns conceitos do vampirismo aplicados à extrema fragilidade humana, retirando-o da potência que costumamos admirar, nos dá até novas empatias pela ligação existente entre nosso fascínio pelo mito e encarar nossa própria mortalidade.

Os artistas também seguram firme as rédeas do ritmo mais lento, interiorizado. Até o agora mais maduro e calejado ator Patrick Fugit (o eterno rapaz jornalista de “Quase Famosos”, 2000) equilibra a trama um pouco vitimizadora que o coloca como principal perspectiva a nos guiar, vilanizando em excesso a única mulher da família como irmã no lugar de matriarca, na pele de Ingrid Sophie Schram (de “Trama Fantasma”, 2017). Este lugar de que a mulher é sempre obrigada a tomar uma liderança incômoda ante uma condescendência com a imaturidade dos eternos Peter Pan pode soar decerto incômoda, especialmente se perdoa personagens masculinas por suas omissões, como se não possuíssem vontade própria… Porém, se encararmos o ponto de vista do irmão doente como referencial, mesmo que o filme o oculte um pouco para manter o suspense, ao menos as motivações dos outros dois se tornam um pouco mais palatável. Um bom filme, mas cujo maior problema é o protagonismo para uma já desgastada jornada do herói falho que toda a trama passa a mão na cabeça.

Além destes dois títulos incríveis, vale ressaltar mais dicas, como “As Órbitas da Água”, de Frederico Machado, uma poética brasileira da filmografia maranhense que vai desenvolver melhor a problemática que acabo de colocar acima, sobre a perspectiva da falibilidade masculina como foco principal, porém aqui assumindo estas falhas como elemento narrativo de desconstrução. A partir de um tom quase fabular sobre o eterno retorno ao lar, seguimos pelos olhos da dupla Rejane Arruda e Antonio Saboia (que já trabalhou antes com o diretor no belíssimo “Lamparina da Aurora”, de 2017, e está no Cult “Bacurau”, de 2019). Este regresso será pontuado de encontros e prestações de conta que testarão a lealdade, a conexão com a terra e a descendência familiar se transformando aos poucos numa tragédia grega.

Frederico Machado possui uma verve poética e autoral no meio do realismo sobrenatural com rara força no cinema contemporâneo. Sua fotografia possui uma iluminação e cores bastante pictóricas, num assumido flerte com o cinema de gênero. Algo que o naturalismo de fluxo e observacional a evocar outras representações da realidade em voga no nosso momento cinematográfico talvez eclipsem um pouco no circuito. Mais controverso que seu filme anterior, especialmente por abordar as raízes da masculinidade tóxica herdada estruturalmente de nossos pais (um tema bastante delicado hoje em dia, mas necessário), ele nem sempre acerta nas representações femininas, porém acerta bastante em dar vida ao conflito através dos manguezais maranhenses. Alude, assim, à gênese milenar do homem que advém da água, da lama e do lodo. Um lugar extremamente difícil de filmar, mas que é tensionado com nuances de erotismo e olhar crítico, valorizando nossas belezas naturais. Vale harmonizar “As Órbitas da Água” com outro exemplar já comentado nesta coluna, “Lua Vermelha”de Lois Patiño (leia aqui), sobre o qual também tracei correlações com “O Barco”, de Petrus Cariry (em breve nos cinemas) e “Evolução”, de Luciele Hadzihalilovic – todos estes fabulando uma dramaturgia a partir de vilarejos remotos e transbordados apenas pelas águas do tempo como metáfora da origem das espécies.

Por fim, porém não menos importante, há títulos memoráveis na história do cinema também de uma só palavra, misteriosa o suficiente para conter toda a atração pelo filme, que vão de “Topkapi”, de Jules Dassin (1964), “Topázio”, de Alfred Hitchcock (1969), aos recentes “Guaxuma”, de Nara Normande (2018), e “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (2019). Entretando, na Mostra de SP, você também poderá encontrar alguns filmes assim, como o grego “Winona”, de Alexandros Voulgaris (2019), um dos filmes disponíveis gratuitamente na parceria com a plataforma Sesc Digital. A própria sinopse já é intrigante: quatro jovens mulheres se divertem o dia inteiro numa praia deserta, mas nenhuma delas se chama Winona… Então, de onde vem este nome? A única coisa que se sabe é que um carro ocupado por pessoas cuja identidade ainda é uma incógnita se encontra estacionado no alto da praia, sempre a observarem as jovens, bem como uma imponente construção se eleva sobre suas cabeças ao final dos montes que cercam aquele pequeno paraíso, mas cuja propriedade é igualmente desconhecida.

Num desenrolar lúdico, entre a brincadeira inocente e algumas camadas dolorosas escondidas entre as cenas de cura, é evidente que existe algum trauma ali a ser tratado. As quatro atrizes estão ótimas, e vão sendo desveladas por uma fotografia sutil de Simos Sarketzis, que não as exotifica nem as demove de agência própria. Muito pelo contrário, elas fotografam a si mesmas várias vezes, evocando subjetividades e autonomia sobre seus movimentos e corpos. Existe uma dor muito grande sobre estas ensolaradas expressões que vão desde cantarem à beira da água, a disputarem conhecimentos sobre filmes de Woody Allen numa das cenas marcantes da projeção. Mas é em seu desfecho que você saberá o sujeito oculto desta equação, e interligará os pontinhos – ainda mais com as cenas que rolam durante os créditos finais que aludem à força do tempo e da apropriação daquela praia contra as memórias pessoais e eternas dos indivíduos. Agridoce e sensível.

Vale ressaltar outros filmes da 44° Mostra de SP gratuitos em plataformas parceiras:

– SP Cine Play (Gratuito):

A Arte de Derrubar

A Vida na Estrada

Candango: Memórias do Festival

Colômbia Era Nossa

DAU. Degeneração

EEB ALLAY OOO!

Entre o Céu e a Terra

Gatilho

La Planta

O Paraíso da Serpente

O Pequeno Refugiado

Pilatos

Poppie Nongena

Samba de Santo – Resistência Afro-baiana

Solo

– SESC Digital (Gratuito):

1986, de Lothar Herzog

A HERDADE, de Tiago Guedes

CRACOLÂNDIA, de Edu Felistoque

LUZ ACESA, de Guilherme Coelho

NIMBY, de Teemu Nikki

O CAMINHO PARA MOSCOU, de Micha Lewinsky

SEM CABEÇA, de Kaveh Sajjadi Hosseini

SEM SOM, de Behrang Dezfoulizadeh

SOBRADINHO, de Marília Hughes, Cláudio Marques

UIVOS SÃO OUVIDOS, de Julio Hernández Cordón

VENCIDOS DA VIDA, de Rodrigo Areias

WINONA, de Alexandros Voulgaris

Homenagem a Fernando Coni Campos:

VIAGEM AO FIM DO MUNDO

LADRÕES DE CINEMA

O MÁGICO E O DELEGADO

– Belas Artes:

Casa de Antiguidades

*TODOS OS OUTROS: Mostraplay

Com exceção de Casa de Antiguidades no Petra Belas Artes à La Carte.

Lista de filmes nas outras plataformas:

https://44.mostra.org/jornal-da-mostra/mostra-exibe-filmes-31-gratuitos-nas-plataformas-sesc-digital-e-spcine-play-confira-a-lista-de-titulos

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Filippo Pitanga

Jornalista e advogado, crítico, curador e professor de cinema