REFLEXÕES

A esquerda distraída e o cancelamento do futuro – Por Daniel Trevisan Samways

A eleição de Javier Milei não foi um raio em céu azul, assim como o avanço da extrema direita em diferentes países também não o é

Cena do filme "Marighella".Créditos: Divulgação
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Dias atrás, resolvi exibir o brilhante filme "Marighella", dirigido por Wagner Moura, para estudantes do ensino médio. Para minha surpresa, o filme de ação do começo ao fim não despertou muita atenção, e a história daqueles jovens que queriam mudar o mundo, liderados pelo inimigo número um da ditadura, se tornou distante demais.

Mais do que um filme sobre Marighella, a obra, baseada no excelente livro de Mário Magalhães, fala sobre uma utopia, uma vontade de construir uma nova sociedade. Milhares de pessoas abraçaram essas utopias e muitos pagaram com a própria vida para defendê-las, vítimas de um Estado assassino e ditatorial.

A principal pergunta que deixamos de fazer é para onde foram as utopias. Alguns podem argumentar que estou sendo injusto e esquecendo das inúmeras formas de resistência, dos protestos, dos grupos organizados, do #ForaBolsonaro e do #ForaPEC (o número da PEC fica a critério do leitor). Talvez, e isso fica como mera suposição, o nosso maior problema esteja realmente nisso. O que chamamos de campo progressista tem atuado de forma meramente reativa nos últimos anos. 

Qual foi a última proposta inovadora e radical defendida e abraçada pelas esquerdas? Por qual razão colocamos pessoas nas ruas, ou tentamos, nos últimos tempos? Quase sempre foi contra uma proposta da extrema direita ou um candidato fascista. As esquerdas perderam a capacidade de propor uma nova sociedade, e os poucos setores que o fazem parecem não ter muita tração na sociedade.

Em "Realismo Capitalista", Mark Fisher produz uma brilhante análise dessa realidade, na qual, emprestando uma frase de Fredric Jameson e Slavoj Žižek, afirma que é “mais fácil imaginar o fim do mundo do que fim do capitalismo”. Fisher analisa como o neoliberalismo capturou a própria esquerda, tornando-a incapaz de propor novos horizontes e impondo as regras do jogo. As esquerdas que chegaram ao poder em diferentes países atuam dentro de regras fiscais e defendem o cumprimento da meta. Sabemos que isso significa menos gastos em serviços públicos e uma crescente precarização da vida. A extrema direita nada de braçadas no mar que ela mesma criou e no qual vem afogando a própria esquerda. 

A eleição de Javier Milei não foi um raio em céu azul, assim como o avanço da extrema direita em diferentes países também não o é. Foi esse campo que se tornou rebelde e que vem pautando o debate, como afirma Pablo Stefanoni em “A rebeldia tornou-se de direita?”

A extrema direita avança não pela ignorância ou burrice do eleitorado, como defendem alguns, mas pela radicalidade de suas propostas e pelo caráter disruptivo de suas campanhas. As esquerdas brasileiras e estrangeiras ainda estão presas a símbolos e estratégias de comunicação do século XIX e XX, repetindo os mesmos gritos de guerra e utilizando as mesmas bandeiras.

Claro que o passado dessas esquerdas deve ser preservado e valorizado, mas cumpre questionar o que determinados símbolos, como uma foice e um martelo, comunicam para a classe trabalhadora atual, que é urbana e digital. Por outro lado, as mesmas esquerdas jogam apenas no campo adversário, defendendo a melhoria de vida pelo ingresso no mundo do consumo, passando pela defesa do carro próprio a bolsas em universidades privadas. É quase uma defesa de que o capitalismo poderia ser bom para todos. Mas, para isso, é necessário respeitar o teto de gastos e impor uma pequena dose de austeridade, pois não há outra saída.

As esquerdas estão amarradas e são incapazes de produzir atos que emanem felicidade e utopia. Se, por um lado, combater o fascismo é urgente e necessário, por outro, ir às ruas com sonhos, promessas de um novo futuro e leveza também é fundamental. Se não atuarmos, seremos embalados no pesadelo da extrema direita.

*Daniel Trevisan Samways é doutor em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM).

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.