OPINIÃO

Enchentes em São Paulo, antenas HAARP e Ricardo Nunes - Por Mateus Muradas

Por mais um ano consecutivo, a cidade de São Paulo entra no período chuvoso e as enchentes castigam a população periférica. Enquanto isso, a mídia tradicional, que tem protegido Ricardo Nunes, culpa São Pedro, as mudanças climáticas, e até os piscinões acabam sendo os vilões

Enchente na rua Dr. Gabriel Piza, zona norte de São Paulo, em 2009.Enchentes em São Paulo, antenas HAARP e Ricardo Nunes - Por Mateus MuradasCréditos: Nathalie Gutierrez/Flickr
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O governo Ricardo Nunes é a continuação piorada dos governos Doria-Covas, disso todo mundo já sabe. Mas o problema central, novamente, são as enchentes. Por mais um ano consecutivo, a cidade de São Paulo entra no período chuvoso e as enchentes castigam a população periférica. Enquanto isso, a mídia tradicional, que tem protegido Ricardo Nunes, culpa São Pedro, as mudanças climáticas, e até os piscinões construídos a 20 anos atrás acabam sendo os vilões. Sem novidades na mídia paulistana, que adora trazer o famoso meme "E o PT, hein?! E o Lula?!" até no caso das enchentes.

Não é novidade, que em governos neoliberais a questão das enchentes não é tratada com lisura pela mídia. Ocultam a inércia dos governantes, sobrando até para as antenas Haarp dos tresloucados Bolsominions. Pra quem não lembra, em dezembro de 2022, os terroristas de porta de quartel culpavam as tais antenas, uma tecnologia da Nasa para criar chuvas artificiais, por elas estarem, supostamente, sendo usadas para gerarem chuvas nos quartéis e atrapalharem os planos terroristas... Querem usar esse mesmo argumento imbecil pro caso de São Paulo. Falando sério, afinal, por que por mais um ano consecutivo sofremos com enchentes?

São Paulo é vítima de planos urbanísticos que privilegiaram as grandes avenidas e a canalização de seus córregos e rios. Isso também não é novidade, o assunto foi amplamente debatido na elaboração do atual Plano Diretor Estratégico. Em essência, o PDE trata de desincentivar a ocupação urbana das áreas verdes remanescentes nas periferias, trata também da proteção das nascentes e da implementação de 167 parques em áreas de fundo de Vale.

Pois bem, este é o centro do problema. Mesmo o governo tendo quase 30 bilhões em caixa, foram construídos apenas 10 parques urbanos, passaram a boiada nas áreas verdes remanescentes com a permissividade em relação aos loteamentos clandestinos, e nossas nascentes continuam impermeabilizadas. Mas o que isso tem haver com enchentes?

Vamos puxar um pouco pela história. O nome original de nossa cidade é São Paulo dos campos de Piratininga, palavra tupi que quer dizer peixe seco. Vejam só, nas beiras do Rio Tamanduateí e do Vale do Anhangabaú surgia um vilarejo acostumado com enchentes, em que até nossos povos originários já observavam o fenômeno das enchentes e os tais peixes secos apodrecendo nos campos alagados. Nossa primeira enchente em área urbana foi noticiada em 1850. De lá para cá, o tema sempre foi amplamente debatido, e o combate a enchentes acabou se tornando uma indústria de escoamento de dinheiro público, sem solução definitiva. Jornais ganham dinheiro por noticiar, políticos ganham voto pelo assistencialismo barato, e a indústria de zeladoria da cidade escoa dinheiro público, ano após ano... Certo, e porque o problema não é resolvido e vem se ampliando?

Vejam o desdém que o governo Ricardo Nunes tratou a revisão do PDE. Apesar de formalmente terem feito audiências públicas sobre o PDE, não houve um incentivo e uma publicidade capaz de atrair a população a participar da revisão do PDE, que está em fase final de discussão. Nunes foi absolutamente protocolar sobre este assunto. Pergunta-se:

Cadê os 167 parques urbanos previstos no plano? Cadê a proteção das áreas verdes remanescentes e de mananciais? Cadê a proteção das nascentes de nossos rios e córregos? Nunes ignora estas diretrizes do PDE e mais que isso, nossas áreas verdes tem sido vítimas do loteamento clandestino de imóveis, nossos atuais os parques urbanos estão precarizados e a implementação de novos parques esbarra na falta de funcionários públicos para coordenar licitações de grande vulto. Mas o que as árvores tem a ver com as chuvas?

Parques urbanos idealmente devem ser implantados nas chamadas "áreas de fundo de Vale", ou seja,  entre um morro e outro, onde de fato há enchentes. Por isso, nos parques vemos lagos, que são instrumentos para frear a vazão das águas pluviais, em momentos de chuva intensa. As árvores são reguladores do clima, controlam a temperatura da cidade e "represam" o escoamento das águas. Numa ilha de calor como é São Paulo, árvores são as salvadoras desta situação degradante que vivemos com as enchentes.

Basta de deixar a solução do problema para depois. De um lado, olham para o ambientalismo como custo impeditivo do progresso e gerador de ineficiência. Querem neste caso, atender as empreiteiras e incorporadoras da cidade, dinheiro acima da vida. Por outro lado, pensam que ambientalistas não se preocupam com a pobreza e a desigualdade social. Tratam ambientalismo como pautas lúdicas, só para tratar do debate internacional sobre Amazônia,  tratam como algo irracional, coisa de lunático, abraçador de árvore.

Irracional é o mercado imobiliário, boçal que destrói a vida do paulistano, encarece nosso custo de vida, nos joga para moradias precárias nas periferias e ainda são gratificados com prefeitos e governantes canalhas! Boçais são estes governantes que jogam para as periferias aterros sanitários, como em São Mateus, e permitem a devastação total das áreas mananciais da Zona Sul. Não tem uma mísera árvore ou pracinha no extremo leste da cidade, pode isso?

Só quem já perdeu tudo numa enchente sabe quão importante é o cuidado com meio ambiente. Só quem tem um pingo de honestidade intelectual consegue enxergar que estamos gastando bilhões anualmente com a "despoluição" do Tietê e com gastos emergenciais para enchentes. Bilhões de reais, anualmente indo pro esgoto, literalmente! Basta de enxugar gelo,  é necessário mudar o modelo de governança da cidade.

Governante após governante não levam a sério os planos urbanísticos da cidade. Os planos tem servido apenas para treino de desenho técnico dos alunos da USP. Não dá mais para brincar com problemas reais. Infelizmente, até no CMPU, conselho municipal de políticas urbanas, que deveria debater os problemas reais da cidade, o que se discute são tecnocracias e os PIUs (projetos de intervenção urbana) que são pautados pelas incorporadoras e o mercado imobiliário. De novo, dinheiro acima da vida. Quando vamos discutir as enchentes, que fazem parte da primazia fundante de São Paulo "dos campos de Piratininga"?

Precisamos levar nossas universidades a sério. O problema não é falta de dinheiro público, temos R$30 bilhões em caixa, os fundos municipais estão bem supridos. O problema é nosso modelo de cidade. Qual cidade queremos, a cidade dos PIUs e do interesse do mercado imobiliário, ou uma cidade que cuida do interesse do paulistano, sendo que um deles é o combate a enchentes?

Resta saber se teremos uma cidade símbolo da qualidade de vida humana ou escrava dos interesses de cartéis, máfias de licitação e especuladores imobiliários. A cidade cinza grita para se tornar verde! O problema definitivamente não são as antenas Haarp dos terroristas de Bolsonaro, muito menos de São Pedro, o problema é a covardia política do atual governante. Cadê a implementação do PDE, Sr. Ricardo Nunes?!

*Mateus Muradas é contador formado pela FEA-USP, integrante do Fórum Social da Zona Leste e Conselheiro Municipal de Políticas Urbanas

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.