CRÔNICA

O Pequeno Príncipe

Da Praia Brava às entranhas da Lava Jato, Eduardo Appio reconstrói o período em que a estrutura da 13ª Vara Federal de Curitiba se voltou para derrubá-lo ainda na decolagem

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A maresia da Praia Brava tem cheiro de acerto. Mal dou dois passos e minhas pernas começam a pensar. Então corro, e o ar salgado deste oásis catarinense, que acertou em tudo que Balneário Camboriú errou, me dá o único ar verdadeiramente puro que provei em meses. O ritmo da corrida e o som das ondas abrem uma porta na minha memória. 

E o que vaza dela não é mais mar, é querosene.

Lembro daquela passagem. Quatro meses na 13ª Vara Federal de Curitiba.

Sentei-me no trono de juízes que se quiseram reis. Mas que, para mim, significou um pesadelo aeronáutico.

Acostumado a pilotar o Teco-Teco da justiça comum – algo previsível e burocrático – de repente assumi o comando de um 747 em plena viagem transatlântica.

O 747, a saber, a própria Vara da Lava Jato. Um colosso de processos, poder, política e egos, deixado no hangar por seus antigos pilotos-chefes. À testa, Sergio Moro, eleito o Pequeno Príncipe pela grande imprensa.

Mas eu, como novo comandante, descobri tarde demais que não era avião – era uma armadilha, Bino.

Eu estava na cabine, sim, mas sem equipe alguma.

O problema do avião tem nome e endereço: era o então Presidente do TRF4 hoje aposentado, um dos que sabotaram meu voo antes da decolagem. Foi o então Presidente do TRF-4, afinal, que tirou os seis assessores, não como um remanejamento administrativo, mas como uma quebra de ossos.

Desci o olhar e minhas pernas estavam quebradas.

O painel de controle era apenas uma tela negra. Sem radar, sem torre de controle.

E o verdadeiro terror não estava fora do avião. Estava na cabine: como copilota, Gabriela.

A juíza Gabriela Hardt, que já havia ocupado aquela mesma cadeira de comando que me sustinha, trocou o manche por um luminoso punhal...

Que esfaqueava pelas costas.

Enquanto a cabine inteira se amotinava. Os comissários de bordo estocavam fortemente minhas costelas. Os servidores da Vara, o staff histórico daquela aeronave, não estavam ali para servir café, mas para garantir que o novo piloto caísse da aeronave.

Eu, absolutamente sozinho. Evitando a loucura.

Não fui silencioso em minha queda. Disparei meu Mayday: em ofício para o Ministro Salomão.

O gigante ministro Luis Felipe Salomão, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Foi o homem que, meses depois, de fato realizaria uma ampla correição na Vara e no TRF-4, encontrando o que chamou de "gestão caótica" e expondo os bastidores daquele voo. Eu avisara o Ministro Salomão que a Vara estava em colapso.

E eu sabia que a imprensa cobria o caso. O "Kakay" (o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro) e o "Lauro Jardim" (o colunista de O Globo) já haviam noticiado o caos.

Mas o aviso não me salvou. A lembrança amarga é a do diretor do foro cortando quase todas as gratificações dos meus servidores. Era o golpe final: isolar o piloto, quebrar suas pernas e, por fim, cortar seu oxigênio.

A corrida na Praia Brava vai terminar. Paro, ofegante talvez, mas a falta de ar não advinha do esforço físico. Vinha da medonha memória de um voo cego, a 30 mil pés de altitude, trancado em uma cabine de cortantes punhais, enquanto o avião mais pesado da Justiça brasileira caía... em espiral.

Uma pena.

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