É comumente falarmos de Economia e logo estabelecermos a conexão com o dinheiro, cronograma de desembolso ou financiamento de algo ou de alguém. Mas o correto é compreendermos que a Economia é um campo de conhecimento, uma ciência social aplicada e permeada por diversos fatores e de matrizes densas, complexas e abrangentes de análises e ações.
Assim, a Faculdade de Economia e Administração da Universidade Federal de São Paulo apresenta um conceito sobre a mesma, reportando que “Economia é o conjunto de atividades desenvolvidas pelos homens visando a produção, distribuição e o consumo de bens e serviços necessários à sobrevivência e à qualidade de vida”. (FEA USP, 2024)
Mas por que uma política específica para os museus? E o que é essa “Economia dos Museus e Pontos de Memória” ? Em que medida ela se propõe ser mensurada? Essas são as principais questões postas, quando abordamos este termo diretamente ligado a cultura. E é normal este estranhamento, por muito tempo, a economia e a cultura não abriam diálogos, necessários um ao outro, a economia como uso dos recursos e a cultura como modo de vida.
Primeiro, é preciso entender o radical da sua palavra economos, a que ela se refere? e qual sua ligação no setor? E para que se desfaça qualquer noção amiúde de uma mera “mercantilização” de espaços. Partimos então, tendo em vista sua origem etmológica vinda do grego, oikos (casa) e monos (costume ou lei), ou seja, a regra da casa, a gestão do espaço, dos recursos dele advindos e a sua relação com o território. Assim, como bem traduz a Secretaria de Economia Criativa do Ministério da Cultura, Cláudia Leitão (2024) “[…] onde tiver relações humanas, ali haverá relações econômicas. A economia está na vida”.
E não bastasse, essa ligação entre museus e economias, é por meio desse modo de vida, no ambiente, no território, na casa, no lugar, no museu, que se faz com memória e cultura, agregando conhecimento, práticas e saberes-fazeres, que se emerge a criatividade, como potência de vida, como símbolo de pertencimento e identidade moldadas ao seu cotidiano.
O museu, enquanto equipamento cultural, é um dos mais difusos, criativos e constantes na sociedade, tem presença nas cidades, estados e países, possuem um gama de trabalhadores espalhados nas instuituições museológicas, pontos de memória, processos museológicos, empresas do setor, universidades, governos e outras atividades correlatas. E por isso só, já caberia e como cabe uma série de políticas ao setor e ao seu desenvolvimento.
Mas se compreendemos que não há cultura sem criatividade, sem essa compreensão e a capacidade de imaginar, produzir, inventar, vivenciar e experenciar a realidade e os seus recursos, entendemos então, que há sim uma economia criativa, que deve apoiar e estimular essas dinâmicas do viver. Como bem traz o conceito apresentado nas Diretrizes da Política Nacional de Economia Criativa:
A Economia Criativa se refere às dinâmicas de criação, produção, difusão/distribuição e consumo/fruição de bens e serviços culturais/criativos e aos princípios que garantem a qualidade dos seus impactos econômicos, sociais, ambientais, culturais e políticos nos territórios. (BRASIL CRIATIVO, 2024)
É nesta atividade dinâmica e criativa que a cultura entende e consolida os seus arranjos produtivos por meio de processos que gerem experiências, bens e serviços a sociedade, oportunizando a partir da gestão do ambiente e/ou do território, esse local comum e interseccionado junto a economia. Portanto a Economia dos Museus e Pontos de Memória, está lincada a um local, aos lugares da memória, da salvaguarda da lembrança frente ao esquecimento, dos acervos que constituem a materialidade humana, mas principalmente da memória como direito humano e social das nossas comunidades ao longo do tempo.
E baseado nesses entendimentos, que o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), tem um Departamento de Difusão, Fomento e Economia dos Museus (DDFEM) para pensar estratégias e possibilidades de implementação de ações que fortaleçam as instituições museológicas como agentes de desenvolvimento e produziu no âmbito de sua Coordenação de Economia e Sustentabilidade (CES), baseado em uma série de pesquisas e estudos, o seguinte conceito:
É o campo que abarca sistemas e redes produtivas em uma estratégia financeira e econômica do setor museal, bem como a gestão, o financiamento e o impacto socioeconômico dos museus. Também são objetos desse ramo da economia a análise de geração de (i) impactos econômicos diretos; (ii) impactos econômicos indiretos; e das (iii) externalidades. A Economia de Museus se concretiza na análise dessas atividades econômicas, de modo a se consolidar numa agenda de desenvolvimento das diversas economias existentes. (CES/DDFEM/Ibram)
Assim, o objetivo é reconhecer e reforçar o processo criativo da cultura, de criar, de produzir, de difundir/distribuir e consumir/fluir, e na qual é inerente a todas as áreas, linguagens e ofícios, na formulação dos seu trabalhos. E sobre esta perspectiva, os museus, projetam-se como um setor que tem sua especificidade, a partir das suas ações e atividades, a diretrizes a serem medidas na forma da análise dos impactos e da sua externalidade.
Os impactos medidos de forma direta, sejam ações realizadas efetivamente no ambinete museu, e indiretas atividades próximas ou correlatas as unidades museológicas e também pelas externalidades, experiências e posicionamentos que geram custos ou benefícios a uma instituição. Destarte assim, as possibilidade de mensurar como os museus e pontos de memória agem na economia, e como a economia atua neles.
Por isso, uma Política de Economia de Museus e Pontos de Memória é necessária!
*Joel Santana da Gama é diretor de Difusão, Fomento e Economia dos Museus do Instituto Brasileiro de Museus
**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.
Referências Bibliográficas
BRASIL CRIATIVO. Diretrizes Para uma Economia Criativa. Seminário Internacional “Políticas para Economia Criativa: G20 + Ibero-América”. Rio de Janeiro. 2024.
FEA USP. O que é Economia? Acesso em 01 de novembro de 2024. Diponível neste link.
LEITÃO, Cláudia. Fala Sobre Economia Criativa. Audiência Pública Sobre a Política de Economia de Museus. Realizada em 17 de outubro de 2024. Disponível neste link.