Vivemos um tempo em que a mentira ganhou asas digitais. Ela nasce em uma tela, se multiplica em segundos e, muitas vezes, termina em tragédia. A disseminação de informações falsas, calúnias e boatos nas redes sociais deixou de ser um problema apenas de reputação. Tornou-se uma questão de vida e morte.
Em 2014, Fabiane Maria de Jesus, moradora do Guarujá, foi espancada até a morte por vizinhos que acreditaram em um boato nas redes sociais: diziam que ela sequestrava crianças para rituais. A história era completamente falsa, mas o estrago foi real. A multidão, tomada pelo pânico e pelo ódio, fez justiça com as próprias mãos. Os agressores foram condenados, mas ninguém foi punido por criar ou espalhar a mentira que iniciou tudo.
Anos depois, em 2023, o país chorou outra perda: Jéssica Vitória Canedo, jovem mineira de 22 anos, tirou a própria vida após ser alvo de boatos sobre um suposto relacionamento com uma figura pública. As postagens falsas se espalharam em páginas de fofoca e perfis de alto alcance. A avalanche de comentários cruéis e risadas virtuais empurrou Jéssica para o desespero fatal do suicídio.
A tragédia mostrou que o ódio digital tem corpo, rosto e consequências.
Casos como esses revelam uma verdade desconfortável: as redes sociais se tornaram terreno fértil para a violência. O que começa como uma piada, “suspeita” ou “opinião” online pode evoluir para agressão, linchamento, assassinato ou suicídio. A arquitetura de negócio das plataformas que premia o conteúdo mais polêmico e emocional transforma a mentira em um produto de alto valor. Quanto mais raiva, mais engajamento. E quanto mais engajamento, mais lucro.
Mas há também uma dimensão humana e cotidiana nesse problema. A cultura da fofoca — aquela curiosidade disfarçada de conversa inocente — tornou-se combustível da crueldade moderna. Quando alguém espalha mentiras sobre a vida alheia, não está apenas “comentando”: está participando de uma cadeia de destruição de vidas.
É preciso dizer com todas as letras: fofoca mentirosa é violência.
Ela humilha, isola e fere. E quem a pratica conscientemente, seja em grupo de mensagens ou em rede social, não merece ser visto como “divertido”, mas como alguém perigoso. Devemos nos afastar desse tipo de comportamento, e dessas pessoas, com a mesma firmeza com que rejeitamos qualquer forma de agressão.
O problema, portanto, não é só individual nem apenas digital. É também estrutural e cultural. As grandes empresas de tecnologia lucram com a viralização do ódio, enquanto a sociedade banaliza a crueldade. A ausência de regulação efetiva e a dificuldade de responsabilizar os disseminadores originais de fake news criam um cenário de impunidade que se repete. E que pode destruir qualquer vida, inclusive a sua ou a minha.
Mas ainda há escolha. A ética digital começa com um gesto simples: duvidar antes de clicar, pensar antes de compartilhar ou falar, calar antes de ferir.
O Brasil precisa, com urgência, avançar em políticas e leis que coíbam a desinformação e protejam a dignidade humana. Mas nenhuma lei substituirá o que falta de empatia e de honra das pessoas que fazem isso.
Por trás de cada perfil existe alguém de carne, osso e alma — e, às vezes, uma vida em risco. Rezo para que o próximo clique, ou a próxima “fofoca”, não seja o primeiro passo de uma nova tragédia.
*Danilo Tavares (@danilotavaressol) é produtor cultural, funcionário público municipal e secretário de comunicação do PSOL de São Vicente, além de membro do Conselho de Economia Solidária de São Vicente e do Fórum de Economia Solidária da Baixada Santista.
**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.