O cenário de guerra que tomou conta da Zona Norte do Rio, no último dia 28, tornando-se a operação policial mais letal da história do estado, ganhou as manchetes internacionais. Foram mais de cem mortos, sendo quatro policiais. E, paralelamente ao caos que parou a cidade, vieram também muitas teorias sobre os responsáveis pelo Rio ter chegado a esse ponto.
A direita não perdeu tempo em apontar o "culpado": "Brizola não permitia que a polícia subisse as favelas", inferindo que, por culpa dos dois governos do trabalhista Leonel Brizola, a situação fugiu do controle. Mas nada melhor do que recorrer à história para elucidar o presente.
No início do governo de Brizola, ainda em 1983, o Rio tinha centenas de crianças sem frequentar salas de aula e uma polícia ainda nos extertores da ditadura militar, com carta branca para torturar e matar.
Ao assumir o governo, Brizola iniciou mudanças e a principal e que mais desagradou aos poderosos da época: queria que o poder público tratasse o pobre favelado como cidadão. O favelado, sempre desrespeitado, deixaria de ser combatido para ser acolhido.
No âmbito da segurança pública, o governo Brizola modificou profundamente o direcionamento das políticas do estado, o que gerou muita polêmica - até hoje.
A principal delas foi tornar o lar dos moradores de favelas como inviolável, assim como sempre foi no asfalto. Foi uma decisão política do governador, muito antes das garantias da Constituição de 1988.
O que também revoltou as elites foi que Brizola conjugou o investimento em educação, sobretudo na infância, com o enfrentamento à criminalidade marcado pelo aperfeiçoamento do trabalho policial.
Enquanto construía CIEPs massivamente, uma verdadeira fábrica de escolas, ele nomeou o Coronel Nazareth Cerqueira, o primeiro comandante-geral negro da Polícia Militar. O que mudou foi que não se podia mais enfiar o pé na porta ou disparar primeiro para perguntar depois. E isso revolta as elites até hoje.
Se Brizola ainda estivesse vivo, certamente questionaria por que uma ação tão sangrenta no Complexo da Penha, com mais de cem mortos, enquanto na Faria Lima, endereço nobre do empresariado de São Paulo, uma operação de inteligência contra o crime organizado não deu sequer um tiro, não teve helicópteros, nem uma gota de sangue.
E o que dizer de um governador como Cláudio Castro, que sempre foi contra a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) da Segurança Pública, justamente a proposta que visa integrar melhor as forças federais e estaduais, de forma a fortalecer a segurança pública em todo território nacional, dando maior autonomia às corregedorias e ouvidorias, o que evita abusos e corrige erros?
Então, será que a culpa é do Brizola? Ou será que a real responsabilidade é dos governadores que vieram depois e sucatearam os CIEPs, a ponto de desconstruir a educação pública integral de qualidade?
Darcy Ribeiro, idealizador do projeto dos CIEPs ao lado de Brizola, já nos alertava: “Se os governadores não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios". E foi assim, com a destruição dos brizolões e o abandono da educação dos nossos jovens, que chegamos até aqui.
Então, de quem é a culpa?
*Leo Lupi é subsecretário de Assistência Social do município do Rio de Janeiro e presidente da Fundação Leonel Brizola.
**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.