Ao longo dos anos, nós, população quilombola, temos nos qualificado, nos organizado e ocupado, com legitimidade e coragem, os espaços de decisão e de fala que historicamente nos foram negados. Aprendemos, construímos e reafirmamos diariamente nossa identidade, nossos saberes, nossa história e nossa autonomia.
Por muito tempo outros falaram por nós. Interpretaram nossas dores, narraram nossas lutas e tentaram conduzir nossos caminhos. Hoje afirmamos, com firmeza: não aceitaremos mais que falem em nosso nome. Temos nossas vozes, nossas lideranças, nossas intelectuais, nossos mestres e mestras da ancestralidade, nossas juventudes pensadoras, nossas mulheres e homens que constroem política, ciência, cultura e transformação social a partir de nossos territórios.
Queremos e valorizamos parcerias, mas parcerias verdadeiras — aquelas que respeitam nossa autonomia, fortalecem nossa capacidade de decisão e reconhecem que a luta quilombola pertence ao povo quilombola. Parceiros não estão acima de nós, não substituem nossa fala, não conduzem nossas pautas e não se apropriam das nossas conquistas. Parceiro que caminha com quilombola é aquele que nos fortalece e não aquele que tenta se apropriar da nossa luta.
Estamos no mês da Consciência Negra, mas nossa luta é diária e ancestral. E hoje reafirmamos: quilombola fala sobre quilombola. Nossa história, nossa dor, nossa resistência e nosso futuro são narrados por nós. Não aceitaremos mais a apropriação indevida de nossas narrativas, de nossos projetos e de nossas vitórias.
Seguimos firmes, com ancestralidade, sabedoria e coragem. Somos quilombo ontem, hoje e amanhã. E a nossa voz — coletiva, forte e legítima — jamais será calada, substituída ou apropriada.
A luta é nossa. A palavra é nossa. O futuro é nosso.
*Bia Nunes é presidente da Associação das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro.
**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.