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Por que Ibaneis Rocha (MDB-DF) queria tanto comprar o Banco Master? — por Jean Moreira Rodrigues

Os problemas e o histórico de suspeitas envolvendo o Banco Master já eram conhecidos. Por que, então, Ibaneis Rocha insistia tanto na aquisição do banco?

Créditos: Renato Alves/Agência Brasília
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Em meados de 2025, o governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), fez um esforço descomunal para adquirir o Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro. Do ponto de vista técnico, a operação não fazia muito sentido — nem mesmo as razões alegadas pelo governador, de alavancar a carteira de crédito do banco regional e posicioná-lo como um dos maiores players do mercado.

Em mais de uma ocasião, Ibaneis defendeu o negócio com o argumento de que a operação projetaria o BRB nacionalmente e renderia ao banco dividendos bilionários ao DF.

À medida que as investigações da Polícia Federal avançam, vamos descobrindo os reais motivos que quase levaram o BRB a realizar um negócio cujas consequências seriam desastrosas para os clientes do banco, para a população de Brasília e para o próprio BRB.

Segundo a Polícia Federal, com base em documentos já apreendidos, o BRB injetou R$ 16,7 bilhões no Master entre 2024 e 2025. Desse montante, pelo menos R$ 12 bilhões envolvem operações em que há fortes indícios de fraude. Ainda segundo a Polícia Federal, há fortes indícios de que “o BRB buscou amparar o Banco Master em sua crise de liquidez”.

Como o Banco Master operava, com a ajuda do BRB?

  • O Banco Master emitiu R$ 50 bilhões em certificados de depósito bancário (CDBs, um tipo de título financeiro), prometendo juros acima das taxas de mercado e sem comprovar que tinha liquidez, ou seja, que conseguiria pagar esses títulos no futuro;
  • Para reforçar essa impressão de liquidez, o Master aplicou parte do dinheiro dos CDBs em ativos que não existem, comprando créditos de uma empresa chamada Tirreno;
  • O Master não pagou nada por essa compra, mas logo em seguida vendeu esses mesmos créditos ao BRB — que pagou R$ 12,2 bilhões, sem documentação, para “socar” o caixa do Banco Master;
  • Essas transações aconteceram no mesmo período em que o BRB tentava comprar o próprio Banco Master — e convencer os órgãos de fiscalização de que a transação era viável e não geraria risco aos acionistas do BRB, incluindo o governo do DF;
  • O BRB só decidiu desfazer o negócio depois que os R$ 12,2 bilhões já tinham sido transferidos. E, mesmo assim, seguiu transferindo recursos para o Banco Master por conta de outros créditos bancários.

“Importa registrar que, consoante resumo de operações realizadas entre Master e BRB, apenas entre os meses de julho de 2024 e 3/10/2025 foram transferidos ao grupo Master o correspondente a R$ 16.717.138.715,05 pelo BRB”, diz o MPF no documento que subsidiou a operação da Polícia Federal.

Por que Ibaneis insistia tanto em adquirir o Banco Master?

Os problemas e o histórico de suspeitas envolvendo o Banco Master já eram conhecidos. Por que, então, Ibaneis Rocha insistia tanto na aquisição do banco? Com base no que já foi divulgado até agora pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, uma linha de investigação é que o governador poderia estar tentando “esquentar” ou legalizar recursos provenientes de atividades ilícitas, como, por exemplo, ligadas ao PCC (Primeiro Comando da Capital).

Outra possibilidade é que, ciente dos investimentos fraudulentos já realizados pelo BRB, o governador tenha enxergado, como “salvação da lavoura”, a aquisição do Banco Master. Uma vez adquirido e internalizadas as operações, o BRB poderia alegar depois que alguns investimentos não deram certo, contabilizá-los como prejuízos e jogar a conta para o contribuinte, encobrindo, assim, as operações fraudulentas do Master.

Somente uma Comissão Parlamentar de Inquérito, com a ajuda da Polícia Federal e do Ministério Público, poderá elucidar o que de fato ocorreu e as razões que levaram o governador Ibaneis a quase destruir o BRB.

*Jean Moreira Rodrigues é mestre em Gestão Empresarial pela FGV/EBAPE (RJ), economista e historiador. Foi funcionário do Banco do Brasil por 35 anos.

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