ANÁLISE

Consciência Negra não é feriado: é ferida que ainda sangra – Por Danilo Tavares

Mutilação simbólica da memória negra persiste enquanto o país trata a escravidão como rodapé da história

Imagem Ilustrativa.Créditos: Pixabay
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No Dia da Consciência Negra, o Brasil nos oferece mais uma oportunidade para dizer que a escravidão não terminou: ela apenas mudou de forma. Nesta semana, quatro policiais militares armados entraram na EMEI Antônio Bento, escola infantil do Butantã, após a queixa de um pai que se indignou com um desenho da filha retratando uma orixá. Um trabalho pedagógico sobre cultura africana — previsto em lei — foi interpretado como “doutrinação”. O pai, segundo relatos, havia rasgado desenhos no mural no dia anterior. A diretora precisou explicar, sob o peso das armas, que ensinar ancestralidade não é crime.

Quando uma aula de cultura africana aciona a força policial, revela-se o óbvio: a existência negra continua tratada como ameaça.

Achille Mbembe chama de necropolítica os regimes que decidem quem merece proteção e quem pode ser exposto à violência. No Brasil, essa lógica se atualiza não apenas nas estatísticas de mortes de jovens negros, mas também na esfera simbólica — quando a polícia é acionada para “corrigir” uma narrativa escolar que afirma a presença negra.

Frantz Fanon dizia que o colonialismo sobrevive quando seus valores seguem estruturando a vida social. É exatamente isso que vemos: a ancestralidade africana ainda precisa se justificar, se defender, se explicar. Já a ignorância racializada anda armada e de cabeça erguida.

Sueli Carneiro chama esse processo de epistemicídio: a tentativa de matar, não apenas corpos, mas saberes, memórias e formas de existir. O que ocorreu na EMEI é epistemicídio institucionalizado, é a recusa violenta de reconhecer a legitimidade da cultura afro-brasileira, mesmo em ambiente escolar.

E aqui está uma ferida que dói ainda mais: a hierarquia social da dor.

Quando falamos do Holocausto, há museus, políticas de memória, solenidade pública. Quando lembramos de Hiroshima, há respeito internacional pela tragédia japonesa. Mas quando mencionamos a escravidão brasileira — o maior sistema escravista das Américas, mais de 350 anos de violência organizada — a resposta é frequentemente: “isso é passado”, “vitimismo”, “mimimi”.

A diferença não é acaso. É política.

Imagem: Reprodução

A dor negra é sistematicamente minimizada porque reconhecer sua profundidade exigiria rever privilégios, reparar danos e encarar o fato de que a democracia brasileira sempre foi seletiva e racista.

A invasão armada de uma escola para silenciar uma orixá não é um desvio: é sintoma. Sintoma de um país que teme a cultura negra mais do que teme a violência. Sintoma de um Estado que naturaliza suspeitas, intervenções e humilhações quando a identidade negra entra pela porta da frente, até mesmo na forma de um desenho infantil.

No Dia da Consciência Negra, não basta celebrar a resistência e fazer atos de solidariedade. É preciso também fazer diagnóstico. E o diagnóstico é duro: a ferida continua aberta porque o país se recusa a tratá-la. Prefere militarizar salas de aula a assumir sua história.

O que sangra hoje não é apenas o passado.

É o presente que insiste em reproduzi-lo.

*Danilo Tavares (@danilotavaressol) é produtor cultural, funcionário público municipal e secretário de comunicação do PSOL de São Vicente, além de membro do Conselho de Economia Solidária de São Vicente e do Fórum de Economia Solidária da Baixada Santista.

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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