REFLEXÃO

Pela vida negra, todos os dias – Por José Virgílio Leal de Figueiredo

Neste 20 de novembro, eu não falo de comemoração. Falo de compromisso

Imagem Ilustrativa.Créditos: Pixabay
Por
Escrito en DEBATES el

20 de novembro não é um feriado qualquer.

É o dia em que o Brasil olha – ou deveria olhar – para o espelho da sua própria história.

E, quando a gente olha com honestidade, vê que a pele preta continua sendo alvo.

Nas últimas semanas, a dor voltou a estampar as manchetes. Em outubro, uma megaoperação policial nas favelas da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, deixou mais de 120 mortos, a maioria pessoas negras, e virou símbolo de uma política de segurança que naturaliza a letalidade.

No Paraná, Alexsandro dos Santos, homem negro, foi morto dentro de casa e o corpo arrastado por policiais militares. Em São Paulo, um jovem negro teve o pescoço atingido pela ponta de um fuzil, em um golpe descrito como tão letal quanto um tiro.

Já em novembro, um menino brasileiro foi brutalmente agredido em uma escola em Portugal, em um caso que autoridades investigam como possível ato de racismo e xenofobia. E, na véspera deste 20 de novembro, uma pesquisa mostrou que mais da metade das pessoas pretas e pardas no país sequer sabe como denunciar um caso de racismo.

Nada disso é acidente. É racismo estrutural.

Os números confirmam o que a periferia sente na pele todos os dias: a chance de uma pessoa negra ser assassinada no Brasil é quase três vezes maior do que a de uma pessoa branca; ano após ano, a juventude negra segue sendo a principal vítima da violência letal. É o que muitos estudiosos chamam de “racismo predatório”: uma engrenagem que transforma corpos negros em alvos e considera algumas vidas descartáveis.

No Dique, a gente conhece essa realidade de perto.

Mas também conhece a força que nasce quando o povo preto se organiza, canta, dança, toca tambor, faz grafite, teatro, cinema, hip hop, educação popular. A cada aula, a cada oficina, a cada criança que descobre que tem direito de sonhar, nós estamos desmontando, aos poucos, essa máquina de desumanização.

Por isso, neste 20 de novembro, eu não falo de comemoração.

Falo de compromisso.

Que a Consciência Negra não caiba apenas num dia do calendário, mas se transforme em prática diária: na escola que acolhe e não expulsa; na polícia que protege e não executa; no emprego que contrata e respeita; na mídia que mostra o povo preto para além da dor; nas políticas públicas que garantem moradia, saneamento, cultura, saúde e trabalho digno.

Que a gente troque o medo pela dignidade, o silêncio pela voz, a indiferença pela responsabilidade.

Que nenhuma mãe preta precise escolher entre o sonho do filho e a sua sobrevivência.

Que cada criança negra possa voltar viva para casa, com um caderno na mochila, um sorriso no rosto e futuro pela frente.

No Dique, na Baixada e em todo o Brasil, o que a gente pede não é favor.

É equidade.

É justiça.

É o direito simples e profundo de existir plenamente.

*José Virgílio Leal de Figueiredo é presidente do Instituto Arte no Dique, em Santos, no litoral paulista.

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Reporte Error
Comunicar erro Encontrou um erro na matéria? Ajude-nos a melhorar