OPINIÃO

Antes do crime: ciência e futuro

O debate público não pode seguir preso ao falso dilema entre matar jovens pobres ou encarcerá-los para o resto da vida útil. Temos a obrigação moral e política de chegar antes da arma, antes da facção, antes da perda de futuro

Créditos: Pablo Porciúncula / AFP
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O Brasil, e especialmente o Rio de Janeiro, volta a discutir segurança pública como se estivéssemos presos a um velho disco arranhado: operações letais, ocupações provisórias, mais armas, mais prisões, mais anos de pena. Fala-se do confronto. Fala-se da repressão. Mas quase ninguém pergunta o que realmente importa: o que acontece na comunidade quando a polícia vai embora?

A resposta é dura e conhecida por todos que vivem essa realidade: o tráfico volta, reassume o território e ocupa o vazio deixado pelo Estado — vazio de serviços, de esperança, de oportunidades. É nesse intervalo, sempre ignorado, que a violência se renova. E é justamente aí que está a chave do problema.

Nenhuma estratégia policial — por mais sofisticada, integrada ou ostensiva — será suficiente enquanto continuarmos fabricando um exército inesgotável de jovens sem perspectiva. Adolescentes que cresceram entre a evasão escolar, a fome, a monoparentalidade e a ausência completa de políticas públicas. Gerações inteiras que nunca foram convidadas a sonhar com um futuro possível.

Por isso, tão importante quanto qualquer operação, é a ocupação definitiva desses territórios com políticas de educação, ciência, tecnologia, cultura e trabalho.

Universidades, institutos e escolas técnicas têm uma missão histórica diante de si: levar seus programas de extensão para dentro das comunidades, com equipes formadas também por profissionais locais, oferecendo reforço escolar, oficinas de cultura e esporte, iniciação científica, formação tecnológica, empreendedorismo e profissionalização.

Em muitos casos, será a primeira chance real que essas crianças e jovens terão de imaginar outro destino que não o das facções criminosas.

E não se trata de utopia — é cálculo. Custa muito menos investir em oportunidades do que sustentar o ciclo interminável de operações militares, mortes e encarceramento. Como lembrava Leonel Brizola: “Se não abrirmos escolas hoje, abriremos presídios amanhã.” Ignoramos esse aviso e hoje ostentamos a terceira maior população carcerária do planeta enquanto assistimos, impotentes, ao fracasso das políticas puramente repressivas.

É claro que o crime organizado precisa ser combatido com inteligência, integração federativa e asfixia financeira. Não se trata de esperar resolver todos os problemas sociais para agir. Mas é possível — e urgente — esvaziar o recrutamento das facções oferecendo alternativas reais, duradouras e desejáveis.

O debate público não pode seguir preso ao falso dilema entre matar jovens pobres ou encarcerá-los para o resto da vida útil. Temos a obrigação moral e política de chegar antes. Antes da arma, antes da facção, antes da perda de futuro.

Se o crime organizado é rápido, precisamos ser mais rápidos.

Se ele oferece pertencimento, precisamos oferecer horizonte.

Se ele promete um destino, precisamos entregar outro — melhor, mais seguro e verdadeiramente humano.

Porque segurança pública, antes de tudo, é sobre vida. E vida se constrói com oportunidade, não com abandono.

*Ricardo Lodi é ex-reitor da UERJ, onde é professor associado da Faculdade de Direito.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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