ANÁLISE

A crise Bacellar e o vácuo estrutural da política fluminense

O colapso de Bacellar abre espaço para uma recomposição ainda indefinida das forças fisiológicas e da extrema direita, intensificando a incerteza em torno da sucessão estadual e recolocando a Alerj no centro das negociações políticas

O presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo BacellarCréditos: Thiago Lontra/Alerj
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A prisão de Rodrigo Bacellar não é um episódio isolado, tampouco a queda repentina de uma liderança emergente. Ela revela, com precisão cirúrgica, o colapso de um sistema político incapaz de produzir estabilidade desde a queda do grupo de Sérgio Cabral. Bacellar ascendeu ocupando exatamente o espaço deixado pela implosão da antiga elite dirigente — Cabral preso, Picciani e Paulo Melo fora de cena, MDB enfraquecido, a ausência de um governo incapaz de formar base legislativa, resultando no impeachment de Wilson Witzel — tendo Bacellar como protagonista, e um governador sem trajetória própria consolidada. O vácuo criado por essa recomposição abriu espaço para um operador capaz de articular governo, Assembleia Legislativa e redes municipais em um momento de dispersão de poder.

A trajetória de Rodrigo Bacellar é inseparável de sua origem em uma família tradicional da política de Campos dos Goytacazes, cuja presença no Legislativo municipal e em estruturas administrativas do Norte Fluminense lhe garantiu acesso precoce a redes locais de influência. Antes de se projetar no cenário estadual, Bacellar atuou como advogado e assessor parlamentar, circulando entre gabinetes, prefeituras e órgãos públicos, o que lhe permitiu acumular conhecimento sobre os mecanismos internos do Estado e sobre o funcionamento das máquinas municipais. Seu percurso manteve relação com o grupo dos Garotinho — força dominante da região desde os anos 1990. Essa relação, porém, foi marcada por ambivalência: a família Bacellar manteve relativa autonomia política, evitando subordinação direta às hierarquias do clã e estabelecendo conexões próprias com prefeitos, vereadores e operadores locais, o que por vezes gerou inimizades. De todo modo, é dessa combinação entre capital familiar, experiência profissional nos bastidores da administração pública e, sobretudo, amplo trânsito com as elites fisiológicas territorialmente enraizadas que emerge o capital político que lhe permitiu ocupar, ainda que de maneira precária, o espaço deixado pela antiga elite dirigente fluminense.

Bacellar se projetou como esse operador. Ele se tornou peça central da governabilidade de Cláudio Castro, capturando a pauta legislativa, controlando o ritmo das votações, distribuindo indicações e mediando o acesso de deputados e prefeitos a cargos e contratos. O esquema Ceperj/Uerj Social — que movimentou cerca de R$ 1,3 bilhão em contratações opacas entre 2021 e 2022 — funcionou como o instrumento mais visível desse arranjo, sendo objeto de ação eleitoral que pede a cassação do parlamentar, do governador e seu vice. A eleição com 70 votos para a presidência da Alerj é a expressão institucional desse poder: Bacellar não era um líder político tradicional, mas sim o nó articulador da engrenagem que sustentava o funcionamento cotidiano do governo.

A ascensão meteórica de Bacellar ilustra um fenômeno recorrente no Rio de Janeiro: a política estadual tende a substituir lideranças enfraquecidas por operadores conjunturais que emergem da necessidade de organizar acordos, viabilizar nomeações e distribuir recursos. Não houve, portanto, renovação substantiva. O que se verificou foi uma recomposição geracional que manteve o padrão de funcionamento herdado do ciclo Cabral. A diferença é que, ao contrário do MDB, essa rede passou a operar a partir da presidência da Alerj e de um ecossistema parafiscal cuja opacidade garantiu capilaridade territorial e poder político imediato.

Essa continuidade da lógica fisiológica convivendo com a ascensão da extrema direita altera o contorno ideológico do estado. Embora o método tenha permanecido muito semelhante ao do ciclo Cabral, o ambiente político deslocou-se para a direita — e Bacellar soube dialogar com esse movimento sem se tornar figura orgânica do bolsonarismo. É justamente essa posição híbrida, nem plenamente governista nem completamente inserida no campo radicalizado da direita, que explica como as investigações do Ceperj, embora ruidosas, não interromperam seu ciclo de poder.

A inflexão real ocorre quando o jogo jurídico se torna político. O rompimento com Cláudio Castro, o conflito com a família Reis e o afastamento do bolsonarismo retiram de Bacellar o lugar de articulador quase exclusivo da base governista. De fiador da governabilidade, ele se torna adversário direto de grupos que disputam o comando de redes territoriais estruturadas. A prisão marca o fim desse ciclo e, pela natureza das acusações — relacionadas à interferência em investigação federal e à proteção de estruturas criminosas —, altera qualitativamente a percepção sobre sua viabilidade institucional. Em um contexto de nacionalização da pauta da segurança pública, essas suspeitas produzem impactos políticos mais profundos do que qualquer denúncia anterior.

Essa inflexão inviabiliza qualquer expectativa de candidatura competitiva ao governo do estado, sendo mais um dos possíveis candidatos do governador Cláudio Castro maculado por problemas jurídicos, policiais e de opinião pública. O horizonte de Bacellar deixa de ser eleitoral e passa a ser judicial: preservação de direitos políticos, contenção de danos e gestão de riscos no Supremo Tribunal Federal e no Tribunal Superior Eleitoral. O espaço que ele ocupava tende a ser redistribuído entre novos e antigos atores do campo da extrema direita ideológica e das elites fisiológicas, reabrindo a disputa por quem controlará a engrenagem territorial fluminense.

A reconfiguração das forças da direita após a queda de Bacellar também coloca no centro do tabuleiro o avanço do grupo liderado pelos irmãos Delaroli, que hoje ocupa um dos espaços mais dinâmicos do campo da direita fluminense. Guilherme Delaroli, deputado estadual, consolidou sua posição na Alerj pela combinação de forte inserção territorial no Leste Fluminense e alinhamento sólido com o bolsonarismo. Seu irmão, Marcelo Delaroli, prefeito de Itaboraí, emerge como uma das principais apostas de renovação da direita estadual, especialmente após o desgaste simultâneo de Cláudio Castro e de figuras tradicionais como Washington Reis. Pelo controle de redes municipais, pela sintonia com setores evangélicos e pela capacidade de mobilização em áreas estratégicas, Marcelo já é tratado como nome competitivo para disputar o governo em 2026 — ou, ao menos, como figura capaz de influenciar decisivamente a coalizão oposicionista. O avanço do grupo Delaroli ilustra a tendência estrutural do momento: a substituição de operadores fisiológicos tradicionais por lideranças ancoradas em bases locais e conectadas organicamente ao bolsonarismo, num cenário em que a fragmentação do centro-direita abre espaço para novas hierarquias e novos polos de poder.

A crise Bacellar ilumina, ainda, uma fragilidade estrutural da política do Rio: a linha de sucessão. A possibilidade de renúncia de Cláudio Castro expõe um sistema em que a transição de poder abre simultaneamente duas disputas — o governo e a presidência da Alerj. Isto porque o estado do Rio de Janeiro não conta com a figura de um vice-governador, uma vez que o então vice eleito, Thiago Pampolha (MDB), assumiu o cargo de conselheiro no TCE-RJ, fazendo com que Bacellar, quando presidente da ALERJ, fosse o primeiro da linha sucessória. Um presidente interino, para disputar o governo em 2026, teria de abandonar a Assembleia antes de 2027, renunciando ao comando de um dos centros de poder mais importantes do estado. Essa sobreposição de cálculos produz a sensação de “salada mista”: em vez de projetos estáveis ou estratégias de médio prazo, a política fluminense funciona sob lógica de curto prazo, guiada por riscos jurídicos, por disputas por orçamento e por redes territoriais fragmentadas.

No fundo, o episódio Bacellar revela que o Rio de Janeiro continua sem uma elite dirigente capaz de produzir estabilidade institucional. Desde a queda de Cabral, o estado opera com mecanismos de substituição ad hoc, em que operadores são alçados rapidamente e descartados com a mesma velocidade quando o sistema entra em crise. O resultado é um ambiente político marcado por improvisação, dependência de arranjos conjunturais e fragilidade programática — justamente o tipo de caldo que favorece a competição entre facções da direita, endurecimento do discurso de segurança pública e oscilações bruscas na relação entre Legislativo, Executivo e territórios.

A disputa de 2026 se dará sobre esse terreno instável. O colapso de Bacellar abre espaço para uma recomposição ainda indefinida das forças fisiológicas e da extrema direita, intensificando a incerteza em torno da sucessão e recolocando a Alerj no centro das negociações políticas. Mais do que a queda de um ator específico, o episódio explicita o caráter estrutural da crise fluminense: um estado que não reconstruiu sua elite política, não reorganizou suas instituições e permanece vulnerável à ascensão e queda de operadores conjunturais — sempre à sombra de um lideranças territoriais fisiológicos e pouco comprometidas com um projeto político de desenvolvimento para o estado.

Mayra Goulart é professora de Ciência Política da UFRJ e Coordenadora do LAPPCOM

Victor Escobar é doutorando em Ciências Sociais (UFRRJ) e membro do LAPPCOM

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