A destruição como projeto, por Chico D’Angelo

"Há quem acuse o presidente de negligenciar esses setores. Vou em uma outra linha: não há negligência; o que existe é um projeto de destruição, articulado entre os arautos da austeridade fiscal e a ala ideológica (e patológica) que considera investimentos sociais práticas comunistas"

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Por Chico D’Angelo*

Não surpreende a linha que o governo Bolsonaro está implantando nas gestões da Saúde, da Educação e da Cultura. Há quem acuse o presidente de negligenciar esses setores. Vou em uma outra linha: não há negligência; o que existe é um projeto de destruição, articulado entre os arautos da austeridade fiscal e a ala ideológica (e patológica) que considera investimentos sociais práticas comunistas.

É importante lembrar que esses três setores são transversais. Saúde, Cultura e Educação dialogam ativamente e se articulam com as principais demandas sociais.  A sensação de bem-estar que as práticas culturais proporcionam não pode ser desprezada como componente importante de uma visão mais ampla do setor da saúde, especialmente nas estratégias de desenvolvimento da medicina preventiva e do campo da saúde mental, em uma situação em que o necessário isolamento demandado pela pandemia da Covid-19 gera compreensíveis angústias entre a população.

Inúmeros estudos demonstram, também, que o setor da cultura não gera apenas a sensação de pertencimento e conexão entre as pessoas de determinados grupos e sociedades e colabora para a saúde mental: ele também é produtivo, gera renda e emprego. A chamada “indústria criativa” é, inclusive, mais importante ainda em conjunturas de crise. 

Deveríamos atentar para o exemplo do Reino Unido, que desde o final do século XX passou a considerar o campo da cultura como estratégico e articulado ao do desenvolvimento econômico. Ele será fundamental para um Brasil que, quando superar a pandemia, precisará retomar os rumos da justiça social com políticas públicas culturais, sanitárias e educativas consistentes.

Assusta também como o governo atua com fúria demolidora no campo da educação. As indefinições que cercam a aplicação do ENEM/2021, a sanha dos interesses privatistas na destruição do ensino público, os constantes ataques à autonomia universitária, a desarticulação entre educação e pesquisa científica, chocam aqueles que encaram o campo da educação como estratégico para o futuro dos brasileiros. A infeliz gestão do ex-ministro Abraham Weintraub, envolvido agora em uma suspeitíssima saída do país com ares de fuga, cumpriu o objetivo sinistro a qual se propôs: começar a desarticular a educação brasileira, atacar a universidade pública, gerar insegurança em relação aos exames de acesso ao ensino superior e desprezar o magistério.

Não há novidade nisso: o projeto de Jair Bolsonaro era esse mesmo, e foi alardeado não apenas ao longo da campanha presidencial, mas ao longo da trajetória nefasta do presidente como parlamentar. Resistir, articular alianças amplas contra o obscurantismo, combater o caos, está na ordem do dia: o que estamos definindo nesses dias difíceis é a possibilidade de futuro para o Brasil.

*Chico D’Angelo é médico e deputado federal (PDT-RJ)

*Esse artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

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Renato Rovai
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