“Alô, chegou a hora: a contagem regressiva aconteceu”: faltam 634 dias para a libertação

Na coluna de hoje, Tuta do Uirapuru relembra o desfile da Morro da Casa Verde em 2001, desejando ser abduzido.

Por Estevan Mazzuia *

Há 59 anos nascia o Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Morro da Casa Verde, uma das mais tradicionais entidades carnavalescas paulistanas, quinta colocada no grupo de acesso em 1968, o primeiro desfile oficial da capital bandeirante. Mangueirense, o fundador Zezinho do Banjo escolheu o verde e o rosa, que se juntaram ao branco, como cores oficiais da escola, dissidência da Unidos de Casa Verde, extinta em 1963.

Laurinete Nazareth da Silva Campos, filha de Zezinho, e mais conhecida como Dona Guga, presidiu a escola desde a morte do pai, em 1991, até 2017, sendo uma escola “de família”, como foi a Nenê de Vila Matilde por muitos anos, e como é a Leandro de Itaquera até hoje.

A primeira participação no grupo principal ocorreu em 1970, sendo malsucedida: a escola acabou sendo rebaixada. Em 1971, o primeiro título, no acesso, garantiu o direito de voltar a desfilar entre as grandes no ano seguinte, mas a desclassificação acarretou novo rebaixamento. O sobe e desce terminou após novo acesso, em 1973, seguido de um honroso sétimo lugar no grupo especial de 1974. A escola permaneceu no grupo principal até 1977, sempre ocupando a parte de baixo da tábua de classificação.

Em 1980 veio a queda para o terceiro grupo e, em 1983, para o quarto grupo, de onde a escola só conseguiu sair em 1991, com um vice-campeonato. O sonho de voltar aos bons tempos foi adiado por novo rebaixamento em 1992. Seu segundo título, em 1993, daria início à retomada. Campeã do terceiro grupo em 1995, a escola precisou de mais quatro anos no grupo de acesso, para conquistar, com o vice-campeonato de 1999, o direito de desfilar entre as grandes, nos anos de 2000/2001/2002. Das arquibancadas, acompanhei o surpreendente cortejo de 2000, o canto do cisne, em 2001, e o adeus, em 2002.

É de 2001 que eu gostaria de relembrar hoje. Com o enredo “O maior sonho do universo. Extraterrestres no carnaval de São Paulo”, assinado por Orlando Midaglia, a escola imaginou uma viagem espacial, nos levando a conhecer os planetas Marckrys, Drakom, Trakan, Tecnos e Glint, com seus habitantes curiosíssimos imaginados por Midaglia, numa demonstração de criatividade de fazer inveja a J. R. R. Tolkien.

Com três mil componentes distribuídos em 20 alas e seis carros alegóricos, a agremiação da zona norte paulistana abusou das cores para representar os cristais de Marckrys, o fogo de Drakom, os metais de Trakan, e a alegria de Glint, representado na última alegoria, com presença do antológico Trio Los Angeles, que sempre prestigiava o carnaval paulistano.

O samba, de Da Silva e Garrafa, era o grande ponto fraco, e não ajudava:

“Em minha missão a imaginação

De ver real o que jamais se viu

Com a tripulação nós fomos então

Mil maravilhas nos encheram de emoção”

Ao rever esse desfile, fui novamente tomado por um pensamento recorrente: como um alienígena interpretaria o Brasil de abril de 2021?

Como explicar, às cristalinas criaturas de Marckrys, que um presidente se elegeu com votos dos explorados, prometendo eliminar os direitos que “atrapalham” a vida dos exploradores?

O que responder aos visitantes de Drakom quando, questionados sobre o currículo dos 13 candidatos em 2018, formos confrontados com a escolha do único que defendia a tortura e que tinha uma arma como símbolo de campanha?

Os seres de Trakan certamente convidariam os terraplanistas a ver a Terra lá de cima… E não perderiam a oportunidade de pedir esclarecimentos sobre o comportamento do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, desesperado para evitar o prejuízo de madeireiros que foram pegos pela Polícia Federal em atividades de desmatamento ilegal.

Os de Tecnos talvez se interessassem em conhecer as vacinas que carregam chips capazes de monitorar nossos passos ou de transformar-nos em jacarés.

Não sei ao certo como eles agiriam. Mas os de Glint, sem dúvidas, ririam muito de tanta estupidez. Incluindo o entendimento de Kássio “Conká” Marques, de que o direito à manifestação religiosa deve ser exercido presencialmente, evitando possível frustração dos deuses (sim, eles devem estar loucos com tudo isso).

Faltam 634 dias para esse pesadelo acabar. A julgar pelo desembarque das Forças Armadas, se não do desgoverno, ao menos do delírio golpista do excrementíssimo desprezidente JB, o parvo, está mais isolado do que nunca. E segue se esforçando para estar cada vez mais isolado, em sua bolha, aquilo que ele chama de “povo brasileiro”.

O tal “centrão”, aquela turma que não tem coragem nem pra assumir que é de direita, parece disposta a sangrar JB até suas últimas forças. O sonho da reeleição parece que pode se transformar no pesadelo de ficar de fora do 2° turno em 2022.

A questão que os alienígenas poderiam nos ajudar a responder é: o Brasil tem condições sobreviver a mais 634 dias de Bolsonaro? E mais: o que ocorrerá, entre o 1° turno das eleições e o dia 1º de janeiro de 2023, a se concretizar um 2° turno sem Bolsonaro?

O inepto que, oficialmente, nada faz, o que fará durante esse limbo? Se, por um lado, está cada vez mais evidente que as Forças Armadas não estão dispostas a qualquer aventura, o mesmo não pode ser dito sobre as milícias e boa parte das polícias. Além, claro, do ruidoso exército de “cidadãos-de-bem-melhores-do-que-eu-e-você-em-nome-de-Jesus”.

Se não rolar um conflito de proporções intergalácticas, será lucro. Em 1º de janeiro de 2023 a gente recolhe os cacos e tenta ver a melhor forma de limpar a bagunça.

A propósito, a Morro terminou em 11º lugar, com 191 pontos. Rebaixada em 2002, desde então desfilou no grupo de acesso, caindo para o terceiro grupo em 2007 (retornou em 2008 ao segundo) e 2016. Em 2011, chegou muito perto de voltar ao grupo principal, com o terceiro lugar no grupo de acesso. Campeã do terceiro grupo em 2020, voltou a flertar com a possibilidade de desfilar novamente entre as grandes em 2022, mas teve seu sonho adiado pela pandemia.

Vida longa ao Morro de Casa Verde! Vida longa ao nosso carnaval e à nossa cultura!

Que nosso Brasil deixe de ser motivo de piada intergaláctica e volte logo a sorrir.

Mas, porém, contudo, todavia e se, por um tenebroso acaso, o parvo for reeleito, talvez a Morro de Casa Verde possa intermediar uma última solução: um pedido de abdução.

P.S.: A coluna de hoje é dedica à memória das mais de 330 mil vítimas de Covid-19 em nosso país e à de Cacilda Becker, atriz brasileira nascida há exatos 100 anos, que brilhou nos palcos de teatro pelo país e, curiosamente, ganhou da Morro de Casa Verde uma merecida homenagem no carnaval de 1977, oito anos após seu precoce falecimento, logo após sofrer um aneurisma no intervalo de uma encenação de “Esperando Godot”.

*Estevan Mazzuia, o Tuta do Uirapuru, é biólogo formado pela USP, bacharel em Direito, servidor público e compositor de sambas-enredo, um apaixonado pelo carnaval.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.