quarta-feira, 30 set 2020
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Aos improváveis da USP

Dedico esse diploma aos primos mortos na violência resultante da segregação capitalista, que não tiveram direito à literatura, à educação linguística, às artes, à ciência e ao esporte

Por Gil Mendes*

Conclui a faculdade. Agora sou bacharel em Letras Português-Espanhol pela Universidade de São Paulo. Primeiro da minha família com diploma de universidade pública. Primeira graduação aos 38 anos; uma anomalia na tradição acadêmica, mas normal na classe trabalhadora (isso quando a gente chega lá). Sou a quarta geração, entre mais de setenta primas e primos, de uma família de trezentos membros, desde Maria Lídia da Conceição Mendes, minha bisavó, nossa matriarca conhecida mais antiga, cujas raízes remontam ao quilombo e à aldeia.

Do Amapá a São Paulo. Do chão de fábrica à Academia. Mais um filho pardo sem pai. Filho de magnânima mãe solo, comerciária, que sem jamais ter recebido acima de um salário mínimo, criou cinco filhos com galhardia e exímia excelência. Em casa e na escola, eu não ouvia falar de universidade, menos ainda de pública. De 12 irmãos, mamãe tem o maior grau de instrução: estudou até o primeiro ano do antigo segundo grau; todos, porém, começaram a trabalhar desde tenra idade.

Extremo periférico. Periferia da periferia da periferia. Dedico esse diploma aos primos mortos na violência resultante da segregação capitalista, que não tiveram direito à literatura, à educação linguística, às artes, à ciência e ao esporte.

Não tinha livros em casa; nenhuma biblioteca no bairro. Mamãe estimulava minha leitura com gibis que ela trazia com frequência. Em onze anos de escola pública, o Estado só me indicou um livro: O meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos, na quinta série, e ainda assim por iniciativa autônoma da professora de português, mas coube à mamãe comprá-lo. Contudo, foi uma inesquecível primeira experiência de leitura; eu me emocionava com a saga do menino Zezé, e chorei de soluçar no capítulo “Duas surras memoráveis”.

Entrei na faculdade aos 30 anos. Pensava que ia aprender gramática como me ensinaram na escola, mas fui surpreendido pela fascinante professora Norma Discini no primeiro dia de aula, ao me apresentar a Linguística. Que maravilha perceber a vida pelos olhos da Linguística!: signo, significado e significante. E depois a literatura. Ah!, a literatura! Não fosse tu em minha vida, musa, que seria de mim?! Todavia, quão perplexo e confuso me senti ao ver professores com a mesma idade ou mais novos que eu já doutores. Como podia? O que eu tinha feito de errado pra também não ser doutor e professor universitário aos 28 anos? Resposta dura porém óbvia: nasci numa família sem tradição universitária, descendente de povos escravizados pelos antepassados dos meus professores brancos de olhos azuis. Não falo de ti, branco pobre, que é meu irmão, nem de vocês, queridas professoras e professores que tanto me ensinaram nessa graduação. Agradeço a todas as professoras e professores, vocês são brilhantes e suas aulas foram fundamentais pra minha consciência linguística e literária, não lhes culpo pelos crimes dos invasores; e a ti, querido mestre Itabirano, te absolvo da culpa, não precisa cortar tua mão suja, ela me amparou nas agonias mais impossíveis. Já dos playboys privilegiados da familícia não digo o mesmo. Agradeço ao movimento socialista, que me vislumbrou os livros e a universidade pública. Agradeço especialmente às trabalhadoras dos bandejões, às faxineiras, pedreiros, vigilantes, jardineiros e todos terceirizados e servidores técnico-administrativos da USP, sem os quais seria impossível minha permanência e formação. Agradeço às militantes dos movimentos negros que conquistaram as cotas sociais, imprescindível para a entrada de milhões dos nossos nas universidades, públicas ou particulares. Mas defendo a universidade pública. Quero acesso universal sem vestibular à universidade pública. Quero a estatização das universidades particulares, porque educação, como a saúde, não é mercadoria, é direito de todos e dever do Estado. Quero tudo pra todos. Quero a USP repleta das filhas e filhos da minha classe: USPRETA, USPÍNDIA, USPOBRE, condição indispensável para a libertação da ciência e do pensamento brasileiros, sem a qual não há soberania nacional nem Amazônia nem Pantanal. A independência do Brasil será protagonizada por gente preta, povos originários e proletários, ou não será. Enquanto a medieval elite fascista, jagunça do Trump e pseudoliberal comandar o Estado brasileiro, não haverá nação livre e soberana.

Sou flor que furou o asfalto. Certa madrugada, sob o enigmático olhar do Bruxo do Cosme Velho, o mestre Itabirano, cabisbaixo e orgulhoso, me confidenciou que “onde não há jardim, as flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis”. Negro Drama, que jamais baixa a guarda, me animou: “Levanta a cabeça, truta, onde estiver, seja lá como for, tenha fé porque até no lixão nasce flor”. Os privilegiados da meritocracia são incapazes por natureza de entender esse milagre: falta-lhes cognição e honestidade.

Bacharel em Letras Português-Espanhol pela Universidade de São Paulo. Em breve, romancista-linguista. Obrigado mãezinha, a senhora é uma estrela-rainha, receba meu diploma, o mérito é todo teu! Bora efetivar o direito à literatura e à educação linguística, enterrar o preconceito linguístico, registrar, descrever e divulgar o português afroindígena vernacular brasileiro. Já tu, burguês-bolsonarista, chupa esse diploma!

Gil Mendes é amapaense, e vive há dezoito anos em São Paulo. Foi camelô, servidor da prefeitura e operário de chão de fábrica, até entrar na USP, onde se formou bacharel em Letras Português-Espanhol.

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